Vanity Fair/Divulgação/Alexandra Beggs/Reuters
Vanity Fair/Divulgação/Alexandra Beggs/Reuters

O gosto do próprio veneno

Se alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo, a dos jornalistas tem sido acompanhar o Murdochgate do Cidadão Kane de Melbourne

Sérgio Augusto,

23 de julho de 2011 | 18h37

Além de errar o alvo, o torterrorista que na terça-feira atacou Rupert Murdoch tirou do eixo o depoimento do empresário no Parlamento britânico. A frustrada agressão beneficiou a família Murdoch, vitimizando seu patriarca e heroificando sua matriarca, Wendi Deng, que com uma cortada à altura de sua reputação como jogadora de vôlei neutralizou o agressor e desviou as atenções da mídia.

 

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Por algumas horas, falou-se mais na fulminante intervenção de Wendi do que nas xavecagens da News Corp. Dublê de esposa e guarda-costas, Wendi, que até então apenas se notabilizara por ser 37 anos mais nova que Rupert e ter contribuído com sua nacionalidade para a entrada do marido no mercado de TV por satélite da China, teve, até agora, a melhor performance da família.

 

Os depoimentos de Rupert e James Murdoch foram um primor de desconversa, lorotagem e soberba. É bastante provável que o embaraço do patriarca com nomes, datas e certos detalhes também tenha sido ensaiado com os advogados da defesa, visando a transformá-lo numa figura frágil, logo digna de compaixão, e já sem pulso para comandar seu império, logo inocente das estripulias criminosas cometidas por seus subordinados, com a cada vez mais clara conivência de seu filho James.

"Ainda não sei se ele foi honestamente idiota ou estupidamente desonesto", comentou um jornalista britânico, referindo-se a Rupert. Ninguém sabe. A certa altura, Murdoch interrompeu o depoimento do filho para contar suas próprias mentiras. Uma sobre a “origem modesta” dos Murdochs; outra sobre o ilibado currículo profissional de seu pai, Keith, de quem herdou o primeiro jornal (The Adelaide News) do império.

 

Demagogia da grossa. Rupert não teria estudado numa escola de elite australiana, a Greelong Grammar School, nem completado sua formação universitária no Worcester College, de Oxford, se seu pai não fosse rico. Keith Murdoch montou um baronato jornalístico à sombra de William “Billy” Hughes, o mais controvertido primeiro-ministro da Austrália. Sua exemplar atuação nos bastidores da campanha de Galipoli (esforço bélico anglo-francês contra o império otomano, durante a 1ª Guerra Mundial, em que morreram 8.500 combatentes australianos) é um mito, há tempos só alimentado pela família. E com uma incômoda nódoa de antissemitismo, envolvendo o comandante das forças australianas, John Monash, implacavelmente perseguido pelo velho Murdoch.

 

Keith também baixou em Londres, onde deixou uma legião de desafetos. Daí a suspeita de que Rupert só se empenhou em abocanhar 37% da imprensa inglesa para vingar o pai, humilhando a elite da pérfida Albion, explorando os instintos mais baixos de sua plebe, corrompendo seus políticos, sem distinção partidária, fazendo e desfazendo primeiros-ministros. Até avacalhar com o passado ilustre da Scotland Yard, igualando-a ao criminoso FBI de J. Edgar Hoover, o sáurio Cidadão Kane de Melbourne conseguiu.

 

Sua persistência em manter o Times é uma prova de sua esperteza empresarial. O Times é o jornal das elites, das pessoas influentes; mantê-lo, mesmo dando um prejuízo anual de £ 40 milhões, é um tremendo investimento político, como seria manter o Wall Street Journal ainda que só operasse no vermelho. Os tabloides são para fazer caixa e disseminar a cultura da baixaria entranhada no DNA da News Corp. Uma cultura "venal, voyeurística, sensacionalista", para usar os mesmos qualificativos que o colunista do New York Times Roger Cohen arrolou, na segunda-feira, numa tentativa algo tardia e meio furada de redimir-se de um artigo inoportunamente simpático a Murdoch que escreveu na semana passada.

 

Outra prova da argúcia de Murdoch foi a ênfase que deu à mídia impressa na Inglaterra e à televisiva nos Estados Unidos. Os ingleses, tradicionalmente, se informam mais pelos jornais, que pelo reino, de dimensões pequenas, circulam com mais eficiência. Os americanos, por motivos mais ou menos óbvios, preferem se abastecer de notícias através do vídeo. Tais preferências ou idiossincrasias culturais ajudam a entender a prevalência dos tabloides na Inglaterra e o êxito de um canal sórdido como a FoxNews na América, inimaginável no Reino Unido, onde a televisão não usufrui do mesmo laxismo vigente no outro lado do Atlântico.

A mídia impressa tem peso relativo na configuração atual da News Corp. Sua maior cornucópia, já de algum tempo, é a televisão por satélite. Suas afinidades ideológicas com Margaret Thatcher (mais os US$ 4.5 milhões de adiantamento pelas memórias da primeira-ministra, via Harper Collins, a editora do grupo) lhe abriram as portas para a aquisição de uma boa fatia da BSkyB, a TV por satélite britânica, cujo controle acionário (agora uma troca de favores com o primeiro-ministro David Cameron) estava na bica de adquirir quando estourou o Murdochgate. O escândalo em curso obrigou-o a desistir do negócio.

 

No mínimo divertido está. Se a alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo, a dos jornalistas tem sido acompanhar o calvário da News Corp. e ver Murdoch provar do próprio veneno, atazanado por enxames de repórteres enxeridos e paparazzi. Seria um prato feito para o escandaloso New York Post explorar diariamente, com debochadas chamadas de capa, estivesse a pimenta ardendo em Mort Zuckerman, publisher do Daily News, ou outro concorrente. Mas o Post, ora ameaçado de processo por ter chamado a camareira do caso Strauss-Kahn de "whore" (prostituta), é um tabloide de Murdoch. E para aliviar a barra do patrão, seus editores, repórteres e colunistas fizeram toda sorte de acrobacias.

 

Primeiro malocaram o escândalo nas páginas internas. O Daily News fez a festa – e decerto promoverá uma orgia caso descubram que o Post, no melhor estilo News Corp., grampeou ilegalmente políticos, celebridades e familiares das vítimas do 11 de Setembro, como muitos já suspeitam.

 

O Wall Street Journal contorceu-se, tentou minimizar o alcance e a seriedade do escândalo e afinal tergiversou. No editorial de segunda-feira acusou os concorrentes de usarem o deslize de uma publicação da News Corp. para atingir o Journal "e a liberdade de imprensa em geral”, vislumbrou “motivos comerciais e ideológicos” por trás da cobertura da imprensa em geral e insinuou, sem citar nomes, mas referindo-se ao Guardian e ao New York Times, que os jornais que dão seu imprimatur aos vazamentos do WikiLeaks não têm moral para arrastar para a lama as publicações de Murdoch. Como se as publicações de Murdoch já não estivessem chafurdando nela há bastante tempo.

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