O gourmet anônimo que vem do Rio Grande

Pinheiro Machado fala sobre Anonymus Gourmet, de volta em 5 livros e centenas de receitas

Márcio Pinheiro, especial para o Estado,

30 Janeiro 2008 | 19h03

Quando surgiu, em 1980, Anonymus Gourmet era um elitista, um esnobe. Seu repertório se restringia a comentários sobre vinhos importados, memórias sobre restaurantes do Brasil (poucos) e do Exterior (a maioria) e reflexões sobre o baixo conhecimento gastronômico da humanidade. Com o tempo, essas análises _ que quase sempre tinham como único interlocutor o jornalista e advogado José Antonio Pinheiro Machado, testemunha isolada das lembranças e dos delírios de Anonymus Gourmet _ ficaram restritas aos livros.   Veja também: Na pequena cozinha de Julie, a grandiosa obra de Julia Child   E é o mesmo Pinheiro Machado quem, nos últimos 13 anos, vem se empenhando pela transformação de Anonymus Gourmet em um ídolo pop. Anonymus saiu das páginas e virou astro televisivo, com programas quase diários em três canais (RBS TV e TVCOM, no Rio Grande do Sul, e Canal Rural, em todo o Brasil), além de uma coluna semanal em jornal, comentários diários na rádio, um blog e lançamentos de livros _ o mais recente é uma coletânea com cinco edições já publicadas agora reunidas em um box (Editora L&PM, R$ 61,50).   O resultado é que a criatura tomou conta do criador. Pinheiro Machado não consegue mais caminhar sem ser abordado por fãs que querem comentar pratos apresentados na TV ou então dividir antigas receitas familiares. "Recebo muitos convites para cozinhar em restaurantes, em festas, mas sempre recuso. Só cozinho em casa e na TV", explica Pinheiro Machado.   Casa e TV se confundem na vida do criador do Anonymus. Aos 58 anos, ele vive com a mulher Linda (com quem está casado há sete anos) na casa que pertencia ao seu pai, o ex-deputado comunista Antônio Pinheiro Machado Netto. É lá também que funciona a cozinha/estúdio onde Pinheiro Machado grava diariamente os programas com sua equipe. Quando não está trabalhando _ ele também é sócio de um escritório de advocacia _, Pinheiro Machado evita os restaurantes, preferindo ficar em casa vendo DVDs (Hitchcock, Stanley Kubrick e John Cassavetes são os seus preferidos), ouvindo CDs (Paulinho da Viola e Tom Jobim, mais recentemente) e lendo (sua atual obsessão é a autora italiana Donna Leon).   E foi, entre tantos assuntos que giram em torno do seu paladar curioso e variado, que Pinheiro Machado falou na entrevista a seguir. Revelando inclusive o que não entra em hipótese alguma na sua cozinha: berinjelas. "Essa planta ornamental, apesar de ser um vegetal lindíssimo, com grande prestígio, é uma impossibilidade pessoal. Não consigo mastigar aquela textura de carne que deu em árvore".   Quando criaste o Anonymus qual foi a inspiração? Quais foram as influências literárias, culinárias, televisivas?   O Anonymus nasceu uma tarde, no meu escritório de advocacia, em 1980. Todos tinham saído para almoçar e aproveitei o silêncio para escrever a primeira história do personagem. Depois de ter viajado e vivido na Europa, com a surpresa do que o universo da comida significava para franceses e italianos, e espanhóis e portugueses, mesmo os mais humildes. Lá, além da boa mesa, encontrei livros e mais livros que, muito além das simples receitas, falavam sobre o mundo da culinária, um mundo que eu, na escuridão ignorava, como no verso de Drummond. Entre eles, o saboroso Guide du Vin, de Raymond Dumay, que foi determinante. Aqui tive a alegria de ler Marcelino de Carvalho (Snobérrimo, A Arte de Beber e Só para Homens). E dois amigos me influenciaram com sugestões e encorajamento: Carlos Maranhão e José Onofre.   Se você tivesse que fazer um livro e/ou um programa de TV com um único grande chef do planeta, desses do primeiro time mundial, quem seria?   Na TV, ninguém supera Jamie Oliver.   E o que entraria no cardápio dos melhores pratos que você já mostrou em seus programas?   Desordenadamente, lembro de alguns pratos que apareceram na TV e na mesa lá de casa, com meus amigos. Spaghetti com Fios de Carne (um molho de carne desfiada, em que é cozido o spaghetti), Peixe do Bistrô (monto no prato um bom filé de congrio cozido; por cima vai molho vermelho com camarões médios, um fatia de salmão defumado e por cima, cobrindo tudo queijo gruyère; levo ao forno para gratinar). Uma torta de forno feita de muzzarella e gorgonzola. A super-torta de limão (com duplo limão). Ovos moles de Aveiro (com gemas de galinha caipira cozidas em calda de açúcar, absolutamente sem baunilha e sem leite. E, como diria o filósofo: morango com nata toujours!   Agora cite: um restaurante inesquecível?   Sem dúvida, o Relais Saint Germain, no Boulevard Saint Germain, quase esquina com Rue des Saints Pères. Fui apresentado a esse templo inexcedível pelo grande Sergio Lacerda. Infelizmente, ambos, o Relais e o Sergio faleceram.   Um restaurante que você gostaria de conhecer?   Gigino Trattoria, do filme Uma Receita para a Máfia (Dinner Rush), de Bob Giraldi.   Um prato inesquecível?   Os bifinhos acebolados da vó Alda.   Um sabor inesquecível?   O sorvete de frutas do antigo restaurante do Hotel Méridien, em Copacabana.   O melhor prato que você já preparou?   Um risoto feito com o caldo e carne de galinha caipira, conhecido no Rio Grande do Sul como Risoto de Jaguari, em homenagem à cidade em que o prato surgiu.   Um prato que você levaria para uma ilha deserta?   O espeto de camarões gigantes preparado pelo meu amigo, o chef Marquinhos.   Um prato que só existe na ficção e que você gostaria de provar?   O refogado de lingüiça com pimentões justamente do filme do Bob Giraldi que falei antes.   O maior de todos os chefs?   Paul Bocuse, sem dúvida. Sua herança e seus herdeiros estão por toda parte.   Para quem você gostaria de cozinhar?   Para quem eu cozinho sempre: minha mulher, Linda.   O que falta você conhecer em matéria de comida para morrer feliz?   Felizmente, quase tudo. Há um mundo de truques, sabores, aromas e cores por descobrir.   O que não pode faltar à mesa?   Escrevi um livro com o título: À Mesa Ninguém Envelhece. Além da boa comida, a gente não envelhece se houver à mesa bom vinho, boa companhia e boa conversa.   A caixa Cinco dos mais conhecidos livros já publicados por José Antonio Pinheiro Machado fazem parte da Caixa Especial Anonymus Gourmet (Editora L&PM, R$ 61,90). Totalmente inspirados no programa que Anonymus comanda na RBS TV, TVCOM e Canal Rural, os cinco volumes (200 Receitas Inéditas, Cozinha Sem Segredos, Mais Receitas, Receitas da Família e Voltaremos) reúnem 656 receitas da cozinha simples e versátil do chef, recheadas de comentários sobre culinária, paladar, apetite, saúde e dicas de cozinha.   O trecho A primeira vez que Anonymus Gourmet apareceu em texto, na Oitenta, no verão de 1982: "Os caldos de carne em tabletes, dizia-me Anonymus Gourmet numa morna tarde de primavera, enquanto saboreava um cálice de Chablis, apresentam para a culinária os mesmos perigos que a má literatura oferece à saúde intelectual de uma civilização: são aparentemente saborosos e de fácil digestão, mas entorpecem o gosto: - Meu caro Sancho, assim como nas honradas prateleiras de minha biblioteca não há lugar para certa subliteratura, também na minha cozinha não entram esses pacotinhos venenosos.   O tom era de um general que declara guerra a um poderoso inimigo. Anonymus Gourmet era, inevitavelmente, escravo de um tempo em que haviam inimigos poderosos, declarações de guerra e, sobretudo, generais que declaravam guerra".

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