O gourmet anônimo que vem do Rio Grande

Quando surgiu, em 1980, Anonymus Gourmet era um elitista, um esnobe. Seu repertório se restringia a comentários sobre vinhos importados, memórias sobre restaurantes do Brasil (poucos) e do exterior (a maioria) e reflexões sobre o baixo conhecimento gastronômico da humanidade. Com o tempo, essas análises - que quase sempre tinham como único interlocutor o próprio autor, o jornalista e advogado José Antonio Pinheiro Machado - ficaram restritas aos livros. Anonymus saiu das páginas e virou astro televisivo, com programas quase diários em três canais (RBS TV e TVCOM, no Rio Grande do Sul, e Canal Rural, em todo o Brasil), além de aparecer em coluna de jornal, rádio, blog. Mas nunca se desconectou dos livros - o que prova o recente lançamento de uma caixa especial (2007, L&PM, R$ 61,90). São cinco dos mais conhecidos títulos já publicados por Pinheiro Machado (200 Receitas Inéditas, Cozinha sem Segredos, Mais Receitas, Receitas da Família e Voltaremos), reunindo 656 receitas da cozinha simples e versátil do chef. O resultado é que a criatura tomou conta do criador e Pinheiro Machado é cada vez mais abordado por fãs que só querem falar daquilo: comida. Como na conversa a seguir. Quando criou o Anonymus, quais foram as influências? O Anonymus nasceu uma tarde no meu escritório de advocacia, em 1980. Todos tinham saído para almoçar e aproveitei o silêncio para escrever a primeira história do personagem. Eu tinha vivido na Europa, com a surpresa do que o universo da comida significava para franceses, italianos, espanhóis e portugueses, mesmo os mais humildes. Lá, além da boa mesa, encontrei livros e mais livros que, muito além das simples receitas, falavam sobre o mundo da culinária, um mundo que eu, na escuridão, ignorava, como no verso de Drummond. Entre eles, o saboroso Guide du Vin, de Raymond Dumay, que foi determinante. Aqui tive a alegria de ler Marcelino de Carvalho (Snobérrimo, A Arte de Beber e Só para Homens). O que entraria no cardápio dos melhores pratos que você já mostrou? Desordenadamente, lembro de alguns. Spaghetti com fios de carne (um molho de carne desfiada, em que é cozido o spaghetti). Uma torta de forno feita de muzzarella e gorgonzola. A supertorta de limão (com duplo limão). Ovos moles de Aveiro (com gemas de galinha caipira cozidas em calda de açúcar, sem baunilha nem leite. E, como diria o filósofo: morango com nata toujours! Cite um restaurante inesquecível. O Relais St. Germain, no Boulevard St. Germain, quase esquina com Rue des Saints Pères. Um que queria conhecer. Gigino Trattoria, do filme Uma Receita para a Máfia (Dinner Rush), de Bob Giraldi. Um prato inesquecível. Bifinhos acebolados da vó Alda. Um sabor inesquecível. O sorvete de frutas do antigo restaurante do Hotel Méridien, em Copacabana. O melhor prato que já preparou? Um risoto com caldo e carne de galinha caipira, conhecido no Rio Grande como risoto de Jaguari, homenagem à cidade onde o prato surgiu. Um prato que só existe na ficção e você gostaria de provar? O refogado de lingüiça com pimentões do filme do Bob Giraldi que falei antes.

Márcio Pinheiro, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2008 | 03h44

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