O Hálito de Deus

Alguém aí ainda se lembra daquele romance do alemão Patrick Suskind? Um chamado O Perfume? Tremendo sucesso em fins do século passado embora sua ação se passasse no século XVIII (mas pode me chamar de 18).

BBC Brasil, BBC

17 de outubro de 2007 | 05h55

Alguém aí ainda se lembra daquele romance do alemão Patrick Suskind? Um chamado O Perfume? Tremendo sucesso em fins do século passado embora sua ação se passasse no século XVIII (mas pode me chamar de 18).Era sobre um francês chamado Jean-Baptiste Grenouille que cismara porque cismara de botar num frasquinho os aromas pessoais de todo mundo que estivesse dando sopa (ou suorzinho) emitindo um olorzinho - e quem não os emite? Grenouille tinha, em termos de olfato, o que certos músicos possuem no setor auditivo: nariz absoluto. Ele ia decifrando os cheiros de Paris (mau negócio na época e, segundo outros, besteira também hoje em dia). Um perfumista de renome, vendo-se diante do gênio de Grenouille, inicia-o nos mistérios dos aromas, ervas e poções que os produzem.O livro era gostosíssimo. Deu num filme danado de ruim. De torcer o nariz, para ficar num símile apropriado. Suskind nunca mais que deu os ares - os odores? - de sua graça nas listas dos livros mais vendidos no mundo inteiro. Todo o resto de sua obra (desculpem, mas é inevitável) cheira a besteira. Como nós todos, próximos ao perfeccionismo faríamos, Grenouille parte em busca de algo impossível: o perfume dos perfumes, aquele que bota todos os outros no bolso. No caso, o perfume de uma virgem, que na época ainda as havia. Suspense e assassinato. Fim.O livro e a história me vieram à mente, quase que ao olfato, a propósito de uma nota e um anúncio em que meus olhos, ainda que míopes, caíram. (Por falar nisso, ou escrever isso, quem escreverá o grande, o definitivo romance sobre a miopia? Miopia só. Cego não vale. Já tem.)Em primeiro lugar, antes de começar minha labuta habitual de desconstrução, vamos aos fatos. A companhia em questão especializou-se em colocar em frasquinhos de vários tamanhos o que, em sua opinião, e com certeza o endosso e o devido contrato assinado pelas pessoas envolvidas, seria o aroma desse estranho fenômeno internacional a que se passou a dar o nome de "celebridades". O Reino Unido tem "celebridades", os Estados Unidos dão de dez a zero em todo mundo em matéria de "celebridades" e até mesmo o Paquistão, Burkina Faso e Brasil já contam com suas celebridades, que incluem jogadores de futebol, astros e estrelas de foto- e telenovela, participantes de algum Big Brother e qualquer um que tenha saído em coluna social sorrindo para as objetivas. São "celebridades". Valem e vendem um dinheirão. Basta conferir revistas como Hello, Hola e Caras e seu número de vendas. Apareceu lá, a tal companhia a que eu vinha me referindo, vai e bota a essência num vidrinho. Ou vidrão, conforme a vontade ou o tamanho do freguês.Por etapas: o nome da companhia já me causa apreensão. Chama-se B Never Too Busy To Be Beautiful. Traduzindo mal paca só de birra: nunca estar ocupado/a demais para ser lindo/a. Mas aquele B no comecinho me dá um troço. Como se eu tivesse dado uma boa cafungada num bago de jaca. Para mim não há nada mais odioso na Terra do que cheiro da frutona essa. Eles, lá da companhia, além de fabricarem maquiagem vão dos perfuminhos também. Pena que este meu canto não seja a cores ou tenha vídeo (fotografia já bastava) para vocês terem uma idéia do horror dos frascos. Não chegam a kitsch, não beiram o camp. Horrendos apenas.Uma conferida rápida na turma que cedeu seu cheirinho pessoal para o aromático comércio: David Beckham, Britney Spears... Chegou, né? Não satisfeitos, a turma do B Never resolveu ir mais longe, que só a ousadia, no mundo violento da perfumaria, é recompensada, como prova o eterno Chanel No.5.Mostrando indiferença a um mundo religioso que só reconhece o cheiro insuportável do sangue quando se fala num - valem as aspas - "ente superior", B Never foi às praças, ao menos destas ilhas, com um novo odor, se não se trata de pecado venal e mortal repetir, intitulado e enfrascado como O Hálito de Deus. Juro por... Pois é, Ele mesmo. O perfume, segundo a publicidade oficial, "evoca uma volta às coisas mais simples da vida". Hálito? De Deus? Simples? Tãotá.Não, não fiz o teste. Não dei uma cheirada lá. Uma opinião abalizada, no entanto, garante que lembra vagamente acetona. Outra, afirma que é mais sobre bebida vagabunda. Esse, claro, já está a caminho dos infernos, ou, talvez esteja na mira da B Never, o que acaba dando na mesma.No escuro - e eu já expliquei que sou míope dos olhos e do olfato também - eu dou um palpite: O Hálito de Deus só pode, ou só deveria, lembrar o olor, a fragrância que emanava da axila de Eudócia, moça que namorei durante mais de seis meses lá por volta de 1958. Aliás, da axila não. Das axilas. Que Eudócia emanava perfumes axilares em estereofônico. O resto é blasfêmia, é heresia.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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