DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

O homem que fez 152 doações de sangue

Estudante de Medicina lidera ranking em SP: ‘É um compromisso comigo e com as pessoas’

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2015 | 03h06

Há 17 anos, Eliseu salva a vida de desconhecidos. O que começou com a intenção de oferecer alguma ajuda virou compromisso e foi assim que o estudante de Medicina se tornou o primeiro colocado no ranking de doadores de sangue e plaquetas da Fundação Pró-Sangue deste ano.

Desde o ano 2000, ele é integrante do clube Irmãos de Sangue, que reúne os principais doadores da instituição que, no período, registrou 152 doações em nome de Eliseu Siles Barduco, de 37 anos. “É um compromisso que assumi comigo e com as pessoas que eu sei que dependem do sangue.”

Barduco diz que não chegou a vivenciar situações em que familiares precisaram de sangue. Mas relata que já se deparou com casos de amigos que necessitaram de doações. Mesmo assim, não deixou de dar as contribuições todos os anos. “No ano passado, fiz 16 doações. Neste ano, acredito que fiz umas dez, mas ainda quero fazer mais uma antes de o ano terminar.” A última foi no dia 21 deste mês.

Foi ainda em 1998 que o estudante fez uma entrevista na fundação e perguntaram se ele gostaria também de doar plaquetas. “Soube que o número de doações poderia ser melhor. Então, resolvi fazer. Com plaquetas, posso fazer até 24 doações por ano.” As plaquetas atuam no processo de controle de sangramentos e ajudam pacientes com leucemia, pessoas que fizeram transplante de medula e quem passou por cirurgia no coração.

Fim de ano. Médico da Fundação Pró-Sangue, Carlos Roberto Jorge explica que o fim de ano e o período de férias são os que registram a maior queda no número de doações. “Há uma inversão de flechas, porque caem as coletas e aumenta a demanda por causa dos acidentes. Normalmente, a queda é de 30% no período.”

Cada bolsa pode salvar até quatro pessoas e existe um número máximo de doações que leva em consideração o sexo. “Homens podem doar com intervalos de dois meses entre as doações, não ultrapassando o total de quatro vezes por ano. Para as mulheres, o intervalo é de três meses e o máximo é de três vezes (por ano).”

Jorge diz que, nos últimos anos, a instituição conseguiu inverter o perfil dos doadores. “Não é aquele que tem um parente internado e recebe o chamado. Mais de 80% são voluntários.” Para fazer parte do clube Irmãos de Sangue, atualmente com quase 9 mil associados, basta ter feito dez doações voluntárias. O doador ganha uma carteirinha do grupo.

“É bem tranquilo, não dói e a sensação de ajudar é muito boa”, diz Barduco. Mas o ato de doar exige cuidados especiais e alguns já fazem parte da rotina dele. “Não bebo, não fumo, não tenho comportamento de risco e não tomo medicamentos. Compartilhar essa saúde é legal. Eu me alimento bem e pratico atividade física: faço três corridas semanais de 10 quilômetros, muai thai e jogo vôlei na universidade”, enumera.

Casado há 13 anos, o estudante ainda não tem filhos e diz que é o único em sua família que tem uma rotina de doação de sangue e de plaquetas. “Isso é pouco perto do que as pessoas podem fazer, mas reconheço que, para quem está recebendo, é algo muito grande.”

Emoção. A doação é um ato feito às cegas. Cada gota que enche a bolsa que será usada em uma vítima de acidente ou pessoa com câncer não tem destinatário conhecido. Nem depois.

Mas, há nove anos, Barduco viveu a emoção de ter contato com uma das pessoas beneficiadas. “O melhor presente de aniversário que eu recebi na minha vida foi da fundação. Guardo até hoje como se fosse um tesouro.” Era a foto de uma menina que recebeu as plaquetas doadas. Já recuperada, ela posou para a fotografia e escreveu um recado. “Tinha um agradecimento, chorei tanto quando vi aquilo. Até hoje me emociono.”

Além de sangue e plaquetas, ele é cadastrado no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). O cadastro foi feito em 2001, quando morava no Rio de Janeiro. No ano seguinte, seu irmão descobriu que estava com leucemia, mas Barduco não pôde doar por não ser compatível. O irmão dele fez tratamento e está curado. “Não me sinto especial por isso. Talvez, eu possa fazer muito mais no futuro pelas outras pessoas como médico”, conta o estudante, que é farmacêutico, mas resolveu se dedicar à Medicina no ano passado. “Quero trabalhar na área de oncologia.”

Também para o futuro, ele planeja não deixar de ajudar quem precisa do seu sangue. “Eu quero doar tanto quanto possível e quanto meu corpo puder. Enquanto não me barrarem, vou continuar.”

Mais conteúdo sobre:
Fundação Pró-Sangue Medicina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.