Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

O Ilaudo é F.

De como o ex-camelô de Itapipoca domou um canto selvagem do centrão de São Paulo

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2014 | 16h27

Tirando fornicação, flor e "fui fazendo, patrãozinho", o Ilaudo não gosta de quase nada que começa com a letra F. Festa, funk, futebol, fumo, Facebook, ficar esperando cair do céu, fiscal folgado da Prefeitura, nada disso. O Ilaudo gosta de limpeza, arrumação e, mais recentemente, de girafas. Mas paixão mesmo, dessas de não conseguir ficar longe, ele sente por um pedaço barulhento e inclemente da região central de São Paulo. É a ponta daquele V formado pela confluência da Avenida Tiradentes com a Rua Brigadeiro Tobias, uns 300 m² de zona morta por onde a gente pode subir ou descer a Passarela da Rua das Noivas, pertinho da Estação da Luz. Quer dizer, pode subir ou descer de um ano pra cá, depois que o Ilaudo tomou conta, assim meio de fininho, sem avisar ou pedir permissão. "Fui fazendo, patrãozinho." Antes disso, outras coisas começadas com F deixavam o local com ares de Faixa de Gaza: feira do rolo (o famoso escambo de celulares roubados), fezes humanas e até furo de faca. Um fuzuê desgraçado em que ninguém dava jeito, fosse na velha ou na Nova Luz.

Interessado em alugar o prédio contíguo e ampliar seus domínios econômicos, o Ilaudo – de batismo Sebastião Ilaudo de Sousa Braga – resolveu dar cabo daquele furdúncio. O imóvel, uma linguiça de 22 metros de comprimento por 6 de largura, com três andares e seis salas comerciais, estava fechado havia cinco anos. Os proprietários pediam R$ 3 milhões pra se livrar dele. Comprar o Ilaudo não podia, mas alugar para sublocar as salas, quem sabe. Ele estava ficando bom nisso. Chegado do Ceará na gestão Paulo Maluf (o Ilaudo conta o tempo assim, de prefeito em prefeito), ele começou como camelô. Tinha 19 anos, uma banca de cintos, meias e cuecas na Rua Mauá e o objetivo de abrir uma loja de verdade. "Eu não queria capinar a vida toda, que é o que meu pai fazia, minha mãe fazia, meus 11 irmãos faziam, todo mundo fazia no nosso sítio em Itapipoca. Eu queria ser comerciante. E comércio tem que ser em São Paulo." Na gestão Marta Suplicy, ele já tinha conseguido poupar o suficiente para adiantar três meses de aluguel (sem fiador, só assim, sabe como é) e montar seu primeiro negócio formal – uma loja de bolsas e malas na mesma Rua Mauá, no térreo do antigo Hotel Federal Paulista, àquela altura já transformado em cortiço-pensão, a fina flor da moradia low cost.

Era só uma portinha de 1,5 metro de frente, mas serviu para aumentar o faturamento e, mais importante, a fama de inquilino bom pagador do Ilaudo. Outros proprietários passaram a querer alugar pra ele. E ele a realugar pra terceiros. Cinco prefeitos depois, já são 17 pontos comerciais nesse jeito ilaudiano de ganhar dinheiro, incluindo uma loja alugada pra própria mulher, a Sueny, e outra pro próprio filho, o Ilaudo Júnior. Se Ilaudo paga, Ilaudo cobra – são apenas negócios. "Pago uns R$ 50 mil de aluguel por mês, e recebo uns R$ 70 mil. Mas é valor por cima, não sou bom de exatidão. Meu negócio é ir fazendo, patrãozinho."

Pra alugar o predinho da passarela o Ilaudo teve que fazer um tanto mais. Aquilo só daria dinheiro se as pessoas voltassem a andar por ali e, de preferência, devagar e não correndo, segurando a bolsa ou tapando o nariz. "Primeiro paguei 200 contos pro casal de mendigos que morava aí ir embora", diz o Ilaudo, apontando com o queixo o terreno que se espraia da rampa em espiral da passarela até a linha do trem. Faziam de tudo lá, de fogueira pra queimar fio roubado a fuc-fuc-nheco-nheco. "Depois gradeei tudinho e levantei um muro onde a grade não alcançou." Então reinstalou a iluminação original da passarela: no total, 13 lâmpadas e luminárias, mais umas gaiolas de proteção para dificultar o festival de afanação. Hoje, a 13ª lâmpada serve de marco territorial pro Ilaudo. Ele adentra a passarela e, olhando pra cima, vai contando: uma, duas, três, quatro... Na última, suspira feliz e fala: "Até aqui é meu". Tão dele que ultimamente mandou trazer umas plantas e, naquela terra antes seca e fedida debaixo da passarela, fez nascer um jardim que ele só parou de regar todos os dias por causa da atual escassez de água que uns e outros pros lados do Morumbi fingem não ver.

Perfeccionista, porém, o Ilaudo pensou que pra ficar o fino o espaço carecia de enfeite. Pois ele encontrou dois, logo depois do carnaval, jogados na calçada da Estação da Luz. Convocou uns cabras e carregaram o par de girafas de fibra, em tamanho quase natural, para o neojardim da passarela. "Era resto de alegoria. Ficaram lá três dias e ninguém veio buscar, nem o lixeiro, então botei as bicha de pé. Agora todo mundo tira foto. Não ficou uma beleza?" Numa cidade que tem estátua do Borba Gato, Minhocão e shopping center com forma de transatlântico na beira do Rio Tietê, quem somos nós pra avaliar a feiura das girafas do Ilaudo? E lá estão elas, firmes e empertigadas, quase rindo do trânsito sempre parado na Tiradentes, dando um quê fantasioso a esta ferrada metrópole fatigada. Pra completar, o Ilaudo ainda as rodeou de árvores frutíferas. Já colheu e comeu goiaba, e agora espera pelas laranjas, os limões, as mexericas e as romãs.

É fácil ver o resultado do esforço do Ilaudo. Atravesse a passarela pro lado da Rua Florêncio de Abreu. Ali há uma banca de jornal, uma loja de vestidos de noiva, um ponto de táxi e uma lanchonete. Mas não tem um Ilaudo, de modo que o pedaço continua meio fodido. O lixo é o de menos. Os mal-encarados vendendo celulares, baterias e até sapatos usados, também. O pior é a fedentina, na opinião do Antonio do Nascimento, jornaleiro. "É tanto cocô de gente que, quando eu abro a banca, só torço pro vento soprar pra outro canto. Se eu tivesse dinheiro fazia o que o Ilaudo fez." Já o taxista Robson de Carvalho jura que não é desfeita, mas considera as girafas do Ilaudo um horror. "Pra quem olha daqui elas tapam a Estação, uma das poucas vistas bonitas do bairro. Eu colocaria elas no Jardim da Luz. Lá tem um monte de árvore, meio selva, é mais adequado." E o português da lanchonete, o Américo Pereira da Costa, há 53 anos no pedaço, é prático – está lá a caneta equilibrada na orelha pra provar. "Veja bem, eu já pago meus impostos, não tenho que cuidar do que não é meu. Do meu eu cuido. Pago um dinheiro a um policial que vem todos os dias vigiar enquanto fecho o bar à noitinha. Daí até a manhã seguinte, fica ao deus-dará." Vai ver é por isso que a estátua da santa que ornamenta a fachada vizinha está presa com cabos de aço à parede.

Do lado de cá, os fantasmas se foram. No pós-Ilaudo, até o proprietário do predinho voltou a ocupar a sala do último andar. E está feliz que só. "Papai, que era imigrante romeno, comprou o imóvel em 1951. Morávamos em cima e embaixo era repleto de lojas. Era bem maior, mas foi sendo derrubado por causa das obras da avenida e do metrô", conta o Luiz Gorodetcki, de 74 anos, representante comercial do ramo de tecidos. Ele cobra R$ 8,5 mil de aluguel por mês do Ilaudo, "e ele nunca atrasou um dia sequer". Aí o Ilaudo subloca o térreo pra uma pastelaria, uma sorveteria e uma lojinha de miudezas, e o primeiro andar prum restaurante a quilo. Arrecada R$ 12 mil, lucro de R$ 4 mil, não tem falcatrua. O calçadão em frente ganhou mesinhas de plástico e é comum ver famílias vindas das compras na 25 de Março lanchando por ali. E tudo é tão limpo que não tem formiga nem pomba bicando farelo. O imóvel continua à venda, mas o Luiz diz que agora, com as benfeitorias do Ilaudo, por menos de R$ 5,5 milhões nem abre conversa. "Esse rapaz é um tesouro", ele diz baixinho. "Trabalhador, dono de boas intenções e bom coração. Daria um grande vereador." O Ilaudo ri encabulado e sacode a cabeça. "Longe de mim, patrãozinho."

A verdade é que o Ilaudo, com o seu "fui fazendo", conquistou uma rede de solidariedade na região, particularmente entre os colegas comerciantes da Rua Mauá. Dizem por lá que o Ilaudo é sujeito homi. E isso não tem a ver com o fato de ele ser macho de usar calça branca agarrada e sapato bico fino preto e pintar as unhas com esmalte incolor. Tem a ver com o fato de poderem contar com ele. "Se um em cada três de nós fosse igual o Ilaudo, o mundo tava salvo", diz o Francisco Lemos, eletricista da rua. Igual a ele tem o Alemão da banquinha de relógios, que dá ração pros cinco vira-latas e um pit bull que o Ilaudo amocozou junto das girafas. Ou o Neguinho do Apoio, que, de porrete na mão e sentimento de PM na alma, patrulha a área contra ataques de trombadinhas e pichadores. Aquele é o mundo do Ilaudo. Aos 41 anos e 22 de São Paulo, ele nunca botou os pés na Avenida Paulista, na Oscar Freire ou no Parque Ibirapuera. Tem fetiche pelo Museu da Língua Portuguesa, mas nunca ultrapassou o portão. "Não dá tempo. Preciso trabalhar e, nos últimos tempos, cuidar da passarela", explica. Quem não gosta muito disso é a Sueny, mulher do Ilaudo há oito anos, mãe do filho mais novo dele, o Felipinho, de 20 dias. A família mora numa quitinete na Rua General Osório, onde o Ilaudo só pode ser encontrado das 9 da noite, quando chega, janta, se banha e vai pra cama ao final do Jornal Nacional, às 6 da manhã, quando acorda, toma um café e sai. "Às vezes digo pra ele: ‘Ô, paizinho, leve logo o colchão pra passarela, porque só falta tu dormir lá’", conta a Sueny, fanfarrona, às gargalhadas.

E sabe que Ilaudo até já pensou nisso? Principalmente depois que numa madrugada recente quatro camaradas estacionaram um caminhãozinho no calçadão e, se dizendo os donos das girafas, as levariam embora. Alertado por celular pelo Bigode, o vigia que ele contratou a R$ 1.000 por mês pra cuidar da passarela à noite, o Ilaudo correu até lá. "Não liberei as girafas, não. Pedi prova de que eram os proprietários. Foto, recibo... Não apresentaram nada, não liberei. No dia seguinte chumbei as bicha no chão." Situação parecida já tinha ocorrido quando um fiscal da Prefeitura chegou dizendo que tudo aquilo era irregular – grade, muro, jardim, girafa – e que o Ilaudo ia ter que destruir. "Destruo sim, patrãozinho. Mas o senhor me deixe nome completo e número da funcional. Porque quando o lugar voltar a ser o inferno que era e os pessoal reclamar, eu vou precisar dizer quem foi o responsável." O fiscal achou por bem não fuzilar a própria reputação e foi-se embora.

A manutenção da "passarela", que é como o Ilaudo chama todo o complexo, lhe custa R$ 2.000 por mês. Fraco nas exatidão, como diz, mas forte nas invenção, ele construiu um pequeno puxadinho pegado à avenida e alugou como salão de beleza. Pode isso, Ilaudo? "Fui fazendo, né, patrãozinho? A causa é boa", ele ri. Do aluguel do salão, R$ 1.500, ele tira parte do custo da passarela e inteira do próprio bolso.

Na última quarta-feira, apresentei o conto de fadas do Ilaudo ao subprefeito da Sé, o Alcides Amazonas. Ele só conhecia as girafas de vista, mas, há 15 dias no cargo, não fazia ideia se ali rolava forró ou funeral. Ficou feliz de ouvir a história toda. Disse que o Ilaudo é um exemplo de cidadão. Nos oito distritos sob a administração do Alcides circulam 3 milhões de pessoas por dia, há 14 estações de metrô e 431 mil habitantes. Meio furibundo, ele afirmou que acha triste ter que varrer a Praça da Sé dez vezes por dia e mais triste ainda que só 23 das 182 praças e áreas verdes da região sejam adotadas formalmente por empresas, naquele convênio em que se pode cravar uma plaquinha de propaganda sobre a grama. No Bom Retiro, distrito do Ilaudo, nenhuma das 18 praças e áreas verdes é adotada. "É claro que é preciso seguir alguns critérios para se fazer isso. De qualquer maneira, aprovo a iniciativa do Ilaudo. Vou fazer uma visita, convidá-lo a formalizar a situação na passarela e lhe dar as felicitações pela consciência cidadã." Felicitação começa com F, mas o Ilaudo diz que está aguardando com toda a franqueza do mundo.

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