O impeachment ou o caos

Embora o governo já tenha acabado, a presidente Dilma, Lula e o PT se agarram por todos os meios ao poder. Em linguagem popular, não querem largar o osso de forma nenhuma!

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2016 | 04h00

Os meios são os mais diversos, mas têm em comum a ausência de escrúpulos, a falta de pudor e a desconsideração da moralidade. Tudo vale, desde que o aparelhamento partidário do Estado seja mantido e seus “benefícios”, conservados.

Os paparicados de ontem se tornam os “golpistas” de hoje. A fábrica de destruição de imagens volta a funcionar a todo o vapor, tendo agora com alvos prediletos o vice-presidente Michel Temer e o PMDB. A estratégia é velha conhecida, já foi muito usada pelo PT. Incapaz de se defender e de dar conta dos seus atos, volta-se para o ataque, atribuindo aos outros os seus próprios feitos.

Por exemplo, culpa o “neoliberalismo” e o “ajuste fiscal” (não feito, aliás) por uma crise produzida por ele mesmo, graças à tal da “nova (vetusta) matriz econômica”, da irresponsabilidade fiscal, da destruição da Petrobrás, do descontrole dos gastos públicos, da tolerância com a inflação, e assim por diante. Em curiosa perversão, responsabilizam os outros pela própria irresponsabilidade.

O governo Dilma, o ex-presidente Lula e o PT devastaram a coisa pública, produzindo um cenário de terra arrasada. A corrupção tornou-se um meio de governar. Os escândalos mostram bilhões de reais sendo apropriados partidária e privadamente em conluio com empreiteiras inescrupulosas. O discurso, no entanto, é de que, se corrupção há, seria igual em todos os partidos. A lama é atirada em todos para justificar a sua própria sujeira. E, embuste maior, a crise atual teria como responsáveis o “capitalismo” e a “direita”!

O País ruma para a crise social, com o desemprego aproximando-se dos 10 milhões de pessoas, e em curva ascendente, a inflação próxima dos dois dígitos e uma quebra geral de expectativas. A dita classe média ascendente, que acreditou na ficção política petista, está sendo arremessada de volta à sua condição anterior. Saboreou a mudança e agora tudo perdeu. E qual é o discurso? O PT defende os pobres e o emprego! Haja cinismo...

Politicamente, o governo continua em seu persistente esforço de dividir o PMDB e destruir a coesão de qualquer partido que se interponha em seu caminho. A hegemonia petista não permite nenhuma alternativa partidária.

Com o abandono amplamente majoritário do PMDB (alguns fisiológicos mais extremados ainda resistem) o governo Dilma partiu para uma “repactuação”, nome bonito que significa uma negociação ainda mais imoral com o baixo do baixo clero dos partidos, que ainda pretendem saquear um pouco mais os cofres públicos. Seria a sua última chance! É a fisiologia em estado puro, sem disfarce algum. Haja falta de vergonha!

Ideologicamente, a narrativa petista é a de “resistência ao golpe”, que nada mais é que uma preparação para sua passagem para a oposição caso, como tudo indica, o impeachment vingue. O desrespeito à Constituição é manifesto, pois o impeachment é um instituto constitucional. Aliás, o próprio PT saudou o rito desse instituto quando estabelecido pelo Supremo. No passado defendeu o impeachment do presidente Collor e propôs a impugnação do presidente Fernando Henrique. Para os petistas, a Constituição é só um papel descartável, cuja serventia depende unicamente do seu uso partidário.

Considere-se, contudo, a possibilidade de que o governo, em seu afã de sobrevivência e sua falta de escrúpulos com a coisa pública, consiga quórum que lhe permita salvar-se do impeachment. Imaginem a seguinte situação: graças às suas manobras fisiológicas e outras, o governo tivesse conseguido impedir que as oposições reunissem os 342 votos necessários, mas tendo chegado a 340. Qual seria a legitimidade de um governo desse tipo? Como poderia governar? Como seria capaz de tirar o País do buraco em que ele mesmo o colocou?

O amanhã seria de mais crise econômica, mais fisiologismo e corrupção, mais desemprego, mais indignação moral e, talvez, convulsão social. A crise, em suas mais diferentes facetas, só se acentuaria.

O governo Dilma, para além de sua incompetência, foi incapaz de reconhecer os seus próprios erros. O PT, aliás, tem como único mote sua repetição. Até o ex-presidente Lula, que teve um primeiro mandato sensato do ponto de vista econômico, adotou a bandeira do descalabro fiscal e da destruição das instituições. Hoje teme a prisão, assim como vários de seus companheiros.

Se o impeachment não vingar, o País ruma para o caos. Abre-se, porém, uma oportunidade, a de que o impeachment seja uma operação bem-sucedida, com deputados e senadores voltados para um bem maior, que é o País. O desafio diante de nós seria enorme: tirar o Brasil do precipício em que se encontra. Trata-se de uma saída constitucional, que preservaria nossas instituições e oferecia aos cidadãos uma real alternativa, não apenas de poder, mas, sobretudo, de futuro. Urge que a Nação entre em processo de pacificação e de unificação nacional. O governo atual já se mostrou claramente incapaz de um empreendimento desse tipo. Se ainda procura resgatar esse discurso, é apenas para encenar um fiapo de credibilidade.

Em caso de impeachment, assumiria o vice-presidente, que tem afirmado reiteradamente seu compromisso com as instituições, com o prosseguimento da Lava Jato e com um projeto de transformação do País, baseado, precisamente, num grande pacto nacional.

Isso significa que todos os partidos deveriam ser chamados para colaborar com esse projeto de reunificação nacional. Todos os que ainda estiverem presos aos cargos e suas benesses deveriam ser deixados pelo caminho, pois escolheram o passado – que está passando rapidamente!

A oportunidade é única. Não podemos perdê-la!

* PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS. E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR

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