''O investidor surpreendeu na crise''

Comportamento foi o sinal para executivo definir uma meta de multiplicar por dez o número de investidores até 2015

Entrevista com

Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

O comportamento dos investidores individuais durante a crise foi a senha para a Bolsa de Valores (BM&FBovespa) iniciar uma nova fase em seu projeto de popularização do mercado de capitais. O diretor-presidente da empresa, Edemir Pinto, conta que novos programas para atrair investidores à bolsa estarão no foco dos investimentos a partir de 2010. "Vamos votar em nossa próxima reunião de conselho um orçamento para viabilizar a meta dos 5 milhões de investidores em cinco anos."

Na entrevista abaixo, ele fala sobre o impacto do avanço dos individuais na BM&FBovespa e as perspectivas para a bolsa no próximo ano.

Por que é interessante para a bolsa de valores a participação das pessoas físicas?

O varejo dá uma diversificação de acionistas muito importante para a companhia. A grande maioria do varejo investe pensando no médio e longo prazo. A grande maioria das empresas prefere buscar a pessoa física como acionista de sua companhia. Isso é importante porque ela passa a ter um acionista mais fidelizado. Obviamente, o papel passa a ter formação de preço que não fica sujeito a forte volatilidade. Nos Estados Unidos, 30% da população atua no mercado de capitais. São 90 milhões de americanos atuando no mercado de capitais. E hoje o grande objetivo das companhias lá é mirar pessoas físicas.

Esse investidor brasileiro é muito diferente do americano?

De 2002 para cá, nosso mercado de capitais cresceu de forma espetacular e chegamos a 520 mil investidores individuais. Veio a crise, e imaginamos que ocorreria a mesma história do passado: todo mundo iria embora. Mas não foi isso que aconteceu. A gente percebeu que o trabalho de educação financeira, as corretoras, a imprensa especializada, isso tudo ajudou o investidor a enfrentar a crise de forma diferente do que fez no passado.

Isso foi uma surpresa, dada a juventude do nosso mercado?

O investidor surpreendeu na crise. E a partir desse movimento, dessa crise, que estabelecemos a meta de multiplicar por 10, em cinco anos, o número de investidores pessoas físicas dentro da bolsa. Estamos trabalhando de forma agressiva no orçamento do ano que vem, principalmente no item de popularização. Mas, agora, de uma forma diferente do que se fazia antes.

Como vai ser?

A bolsa tem uma série de projetos em educação financeira, mas ainda não em nível nacional. Para fazer isso, vamos buscar a mídia - e a televisão é o veículo que elegemos para atingir de forma ampla e direta esse investidor.

O crescimento do mercado no próximo ano pode intensificar a entrada desse novo investidor?

Temos uma expectativa muito positiva, em face não só da situação econômica do País, mas por tudo que está para ocorrer, em relação ao volume de IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) no ano que vem. Tivemos uma série de operações adiadas por causa da crise, que agora estão sendo retomadas. Nossa expectativa é termos um primeiro semestre que faz lembrar o ano de 2007. E os IPOs, certamente, ajudam a trazer para dentro do sistema o investidor pessoa física. Aliado ao movimento que vamos fazer via mídia, e dando sequência aos programas que já temos, não tenho dúvida que vamos atingir a meta dos cinco milhões ao final dos cinco anos.

Quais as perspectivas para a bolsa em 2010?

Além dos IPOs, teremos uma grande operação, provavelmente no primeiro semestre de 2010, que é a capitalização da Petrobrás. Estamos demandando ao governo no sentido de que seja garantido aos atuais acionistas da empresa o direito de utilizar parte do fundo de garantia para poder fazer subscrição das ações que serão utilizadas para o aumento de capital. Já estivemos na comissão de capitalização da Petrobrás.

Qual foi a receptividade?

Tem resistência do governo em relação a isso. Há priorização do governo para uso do FGTS no setor imobiliário. Mas acho que vamos conseguir, pelo menos, para os atuais acionistas, que seja permitido a eles fazer a subscrição usando parte do fundo de garantia. Sugerimos ao governo limitar até R$ 50 mil do saldo na conta do FGTS, por investidor pessoa física, na operação. Também deve ocorrer uma eventual capitalização do Banco do Brasil. O governo já anunciou que está aumentando a participação dos investidores estrangeiros de 12,5% para 20% no capital do banco.

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