O isolamento brasileiro

Impulsionar o crescimento, propiciar a geração e a preservação de empregos, estimular a inovação e a produtividade, reduzir a pobreza, promover a transparência nas relações econômicas e fortalecer os mecanismos de proteção do trabalho e do meio ambiente. Estes serão, segundo o governo norte-americano, alguns dos resultados mais importantes do maior acordo de livre-comércio da história, envolvendo Estados Unidos, Japão e mais 10 países banhados pelo Pacífico, que respondem por cerca de 40% da produção mundial e abrigam uma população de quase 800 milhões de pessoas.

O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2015 | 02h55

O acordo, que vinha sendo negociado há oito anos e foi designado como Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), deverá estimular o comércio internacional, beneficiando também países fora da região por ele abrangida.

O Brasil, porém, que nos últimos anos concentrou sua política de comércio exterior em países mais afinados ideologicamente com o governo do PT, sobretudo sul-americanos e alguns africanos, pouco terá a ganhar com isso. Poderá até perder para outros países o espaço que atualmente tem na área de livre-comércio agora constituída. A Austrália, por exemplo, terá preferência no mercado americano de açúcar, o que tornará mais difícil a exportação do produto brasileiro para os EUA.

Embora ainda tenha de ser aprovado pelos Parlamentos dos países do novo bloco comercial, a conclusão do acordo é uma grande vitória política do presidente Barack Obama. Os EUA e a China, as duas maiores economias do mundo, disputam a hegemonia no Extremo Oriente, que o governo de Pequim considera área de sua influência natural. Tendo como seu principal aliado na região o Japão, que é a terceira maior potência econômica mundial, o governo de Obama conseguiu conquistar a adesão de outros países asiáticos para a TPP, reduzindo a influência chinesa na área. Já aderiram à parceria Malásia, Brunei, Cingapura e Vietnã (os demais países do bloco são Chile, Peru, México, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Coreia do Sul, Taiwan e Filipinas estão prontos para fazer parte do grupo.

O acordo permitirá reduzir barreiras comerciais, estabelecer padrões ambientais e trabalhistas e proteger a propriedade intelectual. A Casa Branca estima que, com a plena execução dos termos do acordo, serão eliminadas até 18 mil tarifas que afetam as exportações americanas. Automóveis, máquinas, tecnologia de informação, bens de consumo, produtos agrícolas e químicos estão entre os itens cujo comércio será estimulado pela eliminação ou redução de tarifas de importação.

Com o fracasso das negociações de amplos acordos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), muitos países buscaram entendimentos diretos com seus principais parceiros para facilitar o comércio bilateral, regional ou inter-regional. Países latino-americanos cujos governos não ficaram presos a preconceitos ideológicos buscaram com intensidade esse tipo de acordo. Além dos três que já fazem parte da TPP, também a Colômbia poderá vir a integrá-la.

Com a alta do dólar e a queda da demanda interna, empresas brasileiras voltaram a se interessar pelo mercado externo. No setor manufatureiro, porém, elas enfrentam os problemas que se acumularam durante a gestão petista e se agravaram com o avanço dos produtos chineses no mercado interno e nos mercados em que era forte a presença brasileira. As indústrias perderam competitividade e levarão tempo para reconquistá-la.

O pior é que a política comercial, que poderia auxiliá-las, ficou subordinada às amarras do Mercosul. E, quando teve liberdade para negociar, o governo do PT concentrou sua ação comercial em regiões pouco dinâmicas ou de pouco peso no comércio mundial, isolando-se das grandes correntes comerciais. O Brasil fechou acordos com 14 países que respondem por 7% do comércio mundial. Enquanto isso, a Colômbia buscou os maiores mercados e conclui 16 acordos com países que representam 55% das trocas mundiais. E quer fazer parte da TPP.

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