O jesuíta leitor de Dostoievski

Papa Francisco é visto como calado e sóbrio por seus fiéis colaboradores e calculista e frio por seus inimigos

ARIEL PALACIOS E MARCELO GODOY , O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h17

"Low profile, calado, sóbrio e frugal" são alguns dos adjetivos usados por seus mais fiéis colaboradores. Seus inimigos, no entanto, preferem defini-lo como "calculista, frio, traiçoeiro e autoritário". Mas, para a maioria dos argentinos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio é simplesmente um mistério. No entanto, em 2005, ele saiu de seu semianonimato para virar um dos homens mais comentados do país, já que o arcebispo portenho era um dos papáveis da América Latina. Na ocasião, Bergoglio ficou em segundo lugar, com possíveis 40 votos, sendo superado por Joseph Ratzinger, que foi entronizado Bento XVI.

Em uma de suas raras entrevistas, o novo papa disse ao La Stampa em 2012 o que pensava de sua condição então como importante cardeal. "O cardinalato é um serviço, não uma honorificência da qual se vangloriar." A vaidade de si mesmo, disse então, era um comportamento de mundanidade espiritual, "o pior dos pecados na Igreja". "O carreirismo, a procura de favores, fazem parte dessa mundanidade espiritual." E conclui dizendo que "o pavão é bonito quando olhado de frente, mas depois de alguns passos, vendo-o pelas costas, é possível ver a realidade". "Essa vaidade esconde uma miséria muito grande."

O homem que faz sua própria comida, mora em um apartamento pequeno em vez de desfrutar de um palácio do arcebispado, que prefere o ônibus e o metrô em vez de carros oficiais terá agora de andar no papamóvel. Compreensível, portanto, que nas congregações antes do conclave Bergoglio tenha defendido diante dos demais cardeais "um cristianismo de misericórdia" e que, arcebispo de Buenos Aires, tenha incentivado o trabalho missionários nas favelas e comunidades pobres da cidade.

Nos últimos anos, antes de deixar de ser primaz da Argentina, Bergoglio sofreu um duro revés político quando o Congresso argentino aprovou um projeto de lei do Partido Socialista (mas respaldado pelo governo da peronista Cristina Kirchner) aprovando o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bergoglio, na véspera da votação, deixou de lado seu estilo sóbrio e desferiu um irritado sermão contra o projeto, que foi aprovado com ampla maioria. Muitos integrantes do clero acharam que essa derrota implicaria na perda de pontos como papável em um próximo conclave.

Ontem, ao tornar-se o papa Francisco, Bergoglio, além de se ser o primeiro latino-americano a ocupar o trono de São Pedro, também quebrou a restrição - implícita - de que um jesuíta fosse escolhido papa. Desde que foi criada, há quase cinco séculos, a poderosa Companhia de Jesus jamais teve um representante como líder da Igreja Católica, principalmente pela oposição de outras congregações que temiam seu crescimento.

Homem afável, mas de poucas - embora certeiras - palavras, o ex-primaz da Argentina sempre fez questão de manter profundo silêncio sobre sua vida particular. Aqueles que o conhecem bem sustentam que só mostra intensa paixão quando fala de Fiodor Dostoievski, seu escritor preferido. "É um jesuíta até a medula. Fala pouco. Ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve", disse ao Estado em 2005 um ex-embaixador argentino em Roma, que completa dizendo que jamais desejaria ter Bergoglio como inimigo.

Com ironia, explica: "Quem vive, como Bergoglio, só à base de frango cozido e verduras, só pode ser um cara perigoso". Sergio Rubin, especialista em Igreja Católica - assinou a coautoria do livro El Jesuita, conversaciones con el cardenal Jorge Bergoglio ("O jesuíta, conversas com o cardeal Jorge Bergoglio") - disse que o novo papa é "muito argentino". Ele gosta de tango, do escritor argentino Jorge Luis Borges e de rezar todas as manhãs. "Ele é homem austero na vida pública e privada e gosta de se despedir dizendo, rezem por mim, o mesmo que fez no primeiro discurso como papa", disse seu ex-porta-voz, Guillermo Marco.

Futebol. Filho de imigrantes italianos (seu pai era ferroviário e sua mãe, dona de casa), o cardeal nasceu no dia 17 de dezembro de 1936 no bairro de classe média de Flores, em Buenos Aires. Desde criança, foi torcedor fanático do time de San Lorenzo, fundado por um padre no início do século. Mas nunca pôde aspirar a jogar futebol além da praça do bairro. Seu físico, quando adolescente, era franzino. Aos 20 anos, passou por uma grave operação para a retirada de um de seus pulmões.

Após se formar como técnico químico e encerrar o namoro com uma vizinha, Bergoglio entrou para a Companhia de Jesus, ordem caracterizada por obediência e disciplina ascética que historiadores preferem definir como militar. Ensinou literatura, psicologia e filosofia.

Ordenado sacerdote aos 33 anos, aos 36 já era o comandante dos jesuítas na Argentina. Nos anos que se seguiram - as décadas de 70 e 80 -, paira uma nebulosa sobre a vida de Bergoglio. O jornalista investigativo argentino Horacio Verbitsky sustenta que ele colaborou ativamente com a última ditadura (1976-83), delatando dois jovens sacerdotes, que foram sequestrados pelos militares.

Ostracismo. Nos anos 80, Bergoglio migrou para o setor mais conservador da Companhia de Jesus e passou por um obscuro ostracismo na Alemanha, onde estudou teologia. Ligou-se ao movimento Comunhão e Libertação. Tornou-se uma espécie de contraponto a outro jesuíta, Carlo Maria Martini, o cardeal progressista de Milão que, ao morrer em 2012, deixou uma entrevista em que dizia que a Igreja estava "atrasada 200 anos".

Ao voltar à Argentina, foi posto em cargos de baixa importância. Esse período terminou quando, em 1992, o poderoso cardeal Antonio Quarracino o convocou para ser seu bispo auxiliar em Buenos Aires. "É um jesuíta sereno e preciso. Ele tem uma capacidade e uma velocidade mental fora do comum", comentou.

O salto internacional de Bergoglio ocorreu em 2001, quando ocupou o posto de relator-geral do Sínodo dos Bispos em Roma. Bergoglio é idolatrado pelo clero jovem e, até poucos anos atrás, só se deslocava pela cidade de metrô ou ônibus. Seus admiradores afirmam que o fazia "para estar perto do povo". Os críticos sustentam que era "puro populismo". Os parlamentares da esquerda, que se confrontaram com frequência com Bergoglio por questões como a legalização do aborto, o definem como "o pior dos inimigos, porque é um inimigo muito inteligente". No entanto, o cardeal também os desconcerta ao realizar furiosos ataques ao neoliberalismo. /

COLABOROU MÁRCIA DO CARMO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.