O laboratório dos sem-sacolinha

Moradores de Jundiaí mudam rotina após veto a sacolas plásticas nos supermercados, que será ampliado a todo o Estado

Tatiana Fávaro, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2011 | 00h00

JUNDIAÍ

Sempre que vai ao supermercado em Jundiaí (SP), o aposentado José Carlos Oliveira Delgado, de 82 anos, é parado por alguém que quer saber onde conseguiu o carrinho de compras. "Saio de casa com uma mala e volto com isto", mostra, enquanto ensina a transformar a mala 007 de plástico trazida do Canadá num carrinho com rodas. "Eu já fazia compras com ele, mas não prestavam tanta atenção."

Delgado usa exclusivamente a mala-carrinho nas compras desde agosto, quando começou a valer acordo da prefeitura com a Associação Paulista de Supermercados (Apas) que veta a distribuição de sacolas de plástico derivado de petróleo. No mês passado, o governo e a Apas estenderam o veto a todo o Estado. Com isso, Jundiaí virou uma espécie de laboratório de novos hábitos que os paulistas terão de incorporar até 25 de janeiro.

Um exemplo de adaptação à vida sem sacolinhas é o do personal trainer Alexandre Ienne, de 34 anos. Ienne, que mora sozinho, costumava pedir sacolinhas extras no supermercado para usar nas lixeiras de casa. Agora, acondiciona todo o lixo em um saco maior e o descarrega na lixeira do prédio. "Tinha preguiça de fazer isso, mas é tudo questão de mudar de hábitos."

Presente. A transição ecofriendly teve seus percalços. "No começo esquecia de levar alguma coisa para transportar compras. Saía com as coisas na mão e elas iam para casa jogadas no chão do carro", diz Ienne, que se acostumou a usar uma ecobag de grife, presente da noiva, Maria Elisa.

O personal trainer também passou a recorrer às sacolas de pano fora dos supermercados. "Ia para cima e para baixo com coisas nas sacolinhas de plástico. Para um churrasco, levava tudo dentro delas. Agora uso as de pano que deixo no carro."

A farmacêutica bioquímica Tânia do Amaral, de 57 anos, optou pela praticidade. Ela mora com outras quatro pessoas: o filho, a nora e dois netos, de 2 e 5 anos. A produção de lixo é considerável, agravada pelas fraldas sujas do caçula. Tânia fez as contas e concluiu que sacos de lixo tradicionais seriam mais caros que sacolas biodegradáveis, feitas a partir de amido de milho, vendidas a R$ 0,19 nos supermercados de Jundiaí. "Antes, eu usava as sacolinhas no lixo do banheiro e da cozinha. Continuo usando, só que agora as biodegradáveis."

Segundo a prefeitura, entre agosto e maio 198 milhões de sacolinhas deixaram de ser descartadas em aterros e no ambiente em Jundiaí. Isso equivale a 720 toneladas de plástico.

Cético. "Não conseguíamos ver como o consumidor faria essa transição. Eu era um pouco cético", diz o diretor de Sustentabilidade da Apas, João Sanzovo Neto. "Essa foi a surpresa mais legal: ver que o cliente não só aderiu, como cobrou dos supermercados que não tinham aderido."

Alguns consumidores, porém, acham que o programa deveria avançar mais. Para o aposentado Delgado, embora sobrem opções para levar compras, como sacolas de pano e palha, faltam incentivos para o bolso do cliente. "Seria interessante se o supermercado facilitasse a compra de carrinhos de mão ou de sacolas de pano a preços acessíveis. Mas isso parece utópico, não é?"

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