Renato S. Cerqueira/Futura Press
Renato S. Cerqueira/Futura Press

O lixo é um luxo

Como outros bens, as sobras luxuosas da Rua Oscar Freire deveriam ser mais bem distribuídas

Joca Reiners Terron, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2014 | 16h33

Caso o leitor ainda não tenha percebido, a estrutura do lixo em São Paulo compreende uma narrativa. A história contada com sintaxe tortuosa e repleta de lacunas está composta por lixeiras residenciais e condominiais de todos os formatos, e se estende à decepcionante malha pública de lixeiras de ruas, avenidas e praças, invariavelmente depredadas ou cheias, a ponto de o faceiro pedestre lançar um papel de bala em uma delas e recebê-lo de volta na cara por não haver mais espaço. Faltam nessa cadeia lixeiras de reciclagem, aquelas coloridas, mais raras até que as próprias usinas de reciclagem e a cartela premiada da Mega-Sena. E o que sobra, nos bueiros e meios-fios, em cada esquina, na porta de casa, em todo canto, é lixo. Ou, mediante o ponto de vista, dinheiro.

Capítulo especial desse enredo são as três lixeiras de luxo instaladas na semana passada pela Associação dos Lojistas dos Jardins na região da Rua Oscar Freire, epicentro do consumismo. São objetos high tech que, desobedecendo à máxima popular que se refere às coisas tão perfeitas que "só faltam falar", falam de verdade. Ou ao menos escrevem, pois estão dotadas de sistema que avisa sua administradora quando lotam, por meio de mensagem de texto para celular. As lixeiras eletrônicas custam – cada uma – R$ 8.800. Importadas dos EUA, funcionam a energia solar e têm mecanismo de compactação de conteúdo. Com isso, sua capacidade equivale a 12 vezes a de uma lata de lixo comum de iguais proporções. Testei uma delas na Alameda Lorena: joguei um papel de bala em seu interior. Não foi devolvido em minha cara, além de ter sido apetitosamente mastigado pela lata. Só falta arrotar, pensei. De imediato a máquina soltou ruído semelhante a um arroto de satisfação.

Mas o que nos conta a história do lixo na cidade? A resposta, sem dúvida, poderia ser dada pelos catadores que vagam por aí com suas carroças inumanas atreladas ao lombo. Talvez eles nos revelem o que podemos intuir somente em vê-los: não evoluímos um tiquinho desde o Descobrimento. O dia 13 de maio de 1888, ocasião da sanção da Lei Áurea, foi um blefe do calendário. As carroças utilizadas por catadores em São Paulo são cerca de quatro vezes maiores que suas equivalentes argentinas. Produzido ao longo do ano inaugural do primeiro mandato presidencial de Lula (2003–2006), o documentário franco-brasileiro Le Rêve de São Paulo (O sonho de São Paulo), de Jean-Pierre Duret e Andrea Santana, relata a migração de camponeses nordestinos para a metrópole. Alguns deles escapam da indigência graças ao trabalho na incipiente indústria de reciclagem metropolitana.

O filme concede a oportunidade de verificar aquilo que ocorre detrás dos suspeitos tapumes que, sob viadutos e pontilhões, ocultam catadores e suas carroças carregadas. Nesses centros de reciclagem, famílias inteiras operam o milagre urbano da transmutação do lixo em material reciclável. Vencem a miséria e sonham. "Agora sei o que um passarinho sente ao sair da gaiola", diz Carlos, de 36 anos, que arrastou carroça ao longo de nove anos para construir sua casinha em uma favela: "Alegria". No entanto, as condições de trabalho desses catadores – em sua luta cotidiana contra o tráfego assassino, respirando monóxido de carbono, arrastando pesos muitas vezes superiores ao do próprio corpo – permanece menos que humana.

Na Oscar Freire, depois de jogar um palito de picolé na superlixeira, um garoto se assusta com o barulho da compactação. Aos pedestres curiosos, a máquina de compactar lixo parece dotada de poderes sobre-humanos. Mais que isso, parece limpinha e insuspeita, se comparada às carroças dos catadores. Nesse quesito, a narrativa compreendida pelo lixo é sempre assunto sensível. Alguns se lembram do escândalo causado pela lixeira de R$ 1.000 comprada com cartão corporativo pelo então reitor da UnB, Timothy Mulholland, em 2008. Ou do curta-metragem Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, pioneiro em abordar o lixo da sociedade de consumo como narrativa. No entanto, 25 anos após o filme do cineasta gaúcho, ainda nos surpreendemos com mecanismos que facilitem o trabalho de reciclagem de catadores como Carlos e muitos outros.

O retrato da situação do lixo em São Paulo está nas lixeiras tradicionais diante dos prédios, invariavelmente gradeadas. O lixo trancado dificulta sua recolha, além de indicar que a elite paulistana não quer dividir nem seus restos. Seria mais racional que a cidade as substituísse por compactadoras similares às dos Jardins, assim a reciclagem realizaria seu trabalho essencial com mais eficácia e menos dolo. A compactação não eliminaria o catador, mas diminuiria o peso que ele carrega. A adoção de lixeiras compactadoras em maior proporção mudaria o cenário, mas mesmo assim o lixo precisaria ser recolhido num sistema que preveja recolha de recicláveis. O lixo, como tantos outros bens, precisa ser distribuído. Em 2006, a Oscar Freire, sempre na vanguarda, aterrou sua fiação elétrica, antecipando atual projeto da prefeitura. Tais melhorias são bem-vindas, mas consumidores de luxo não deveriam ser os únicos cidadãos com direito a ver o céu: os recicladores de lixo também merecem um novo horizonte.

JOCA REINERS TERRON É ESCRITOR E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE A TRISTEZA EXTRAORDINÁRIA DO LEOPARDO-DAS-NEVES (COMPANHIA DAS LETRAS) E DO TEXTO DA PEÇA BOM RETIRO 958 METROS, ENCENADA PELO TEATRO DA VERTIGEM ENTRE 2012 E 2013

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