O maestro que recriou Porgy & Bess

Harnoncourt, que deu nova abordagem ao repertório clássico, faz sucesso com uma versão 'vienense' da obra de Gershwin

Tom Service, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2010 | 00h00

THE GUARDIAN

"Era como um bichinho roendo o meu fígado. Eu sabia que deveria apresentá-la." Nikolaus Harnoncourt refere-se a uma de suas peças musicais favoritas, que regeu durante grande parte do ano passado. Ele é o músico que deu nova vida à abordagem de praticamente todo o cânone da música clássica do Ocidente nos últimos 50 anos, de Bach a Bruckner, e de Beethoven a Berg, portanto, talvez esteja falando de alguma obra dessa venerável tradição clássica. A Paixão Segundo São Mateus? A Nona Sinfonia? A Flauta Mágica? Nada disso - a música que contagiou Harnoncourt é a ópera Porgy & Bess, de George Gershwin. Nenhum regente pareceria mais distante da visão do musical afro-americano de Gershwin, influenciada pelo jazz.

Mas Harnoncourt explica por que Porgy & Bess foi seu primeiro amor musical. "Eu a conheci muito antes de Mozart ou de Bach", revela em seu aristocrático inglês com sotaque austríaco. "Queria reger essa peça já em 1935 (quando tinha 5 anos de idade). Meu tio morava em Nova York e ganhou de Gershwin, de quem era amigo, uma partitura para piano de Porgy & Bess, e ele a mandou a meu pai na Áustria." O pai de Harnoncourt devorou a partitura de Gershwin. "Ele a tocava e cantava ao piano. Lembro particularmente dele cantando Plenty of Nothing, e nós também conhecíamos isso" - Harnoncourt cantarola para mim o solo do clarinete de Rapsody in Blue. Não é nada do que eu imaginaria ouvir; quando Harnoncourt fala Rapsody, raspando voluptuosamente a "R" à maneira austríaca, parece que se refere a uma peça de outro planeta, e quando a canta, a música parece mais alguma coisa saída de Graz e não do Greenwich Village.

"Quando contei a um amigo que faria Porgy & Bess, ele observou: "Pois não deveria - você não tem passaporte para isso!" E acho que de certo modo é verdade. Não tenho passaporte caribenho." Na realidade, ele não tem. Harnoncourt possui entre seus antepassados imperadores do Sacro Império Romano: sua mãe era uma das bisnetas de Leopoldo II, e seu pai também pertencia à nobreza. Seu título completo é Johann Nikolaus Graf de la Fontaine und d"Harnoncourt-Unverzagt. Não exatamente Catfish Row (bairro negro de Charleston). "Aconteceu mais ou menos a mesma coisa com Rostropovich em Viena. Quando regeu Die Fledermaus, de Strauss em Viena, os músicos da orquestra disseram-lhe: "Está errado, o senhor não pegou o autêntico espírito vienense da música." E ele retrucou: "Vocês tocam sempre Tchaikovsky, e eu tenho de ficar ouvindo - agora os senhores terão de ouvir minha maneira de tocar o Fledermaus." Então, quero tentar a mesma coisa com Porgy & Bess. E, quem sabe, eu tenho uma avó caribenha que me ajude."

O risco aparentemente valeu a pena: depois da apresentação de Harnoncourt no Festival Styriarte de Graz, no mês passado, os críticos destacaram sua energia e sua erudição. Mas não seria uma apresentação de Harnoncourt sem uma inovação: ele pegou a "Sinfonia do barulho", como a definiu o primeiro diretor de palco de Porgy, na última cena, e lhe deu outra leitura para um naipe de percussionistas. Talvez essa Porgy seja vienense, e Harnoncourt é um músico vienense.

Ele começou sua vida musical como violoncelista da Orquestra Sinfônica de Viena; em 1953 criou a Concentus Musicus Wien com a mulher, Alice, violinista. Com Harnoncourt na direção, o Concentus foi o conjunto musical original e a inspiração dos pioneiros da performance de estilo da Grã-Bretanha. Harnoncourt tornou esse som musical antigo profundamente contemporâneo e tirou-lhe a pátina de séculos de interpretações e ideias preconcebidas sobre como a música barroca e a clássica deveriam ser tocadas.

Depois de meio século, o regente hoje é tão conhecido no pódio com a Orquestra de Câmara da Europa ou a Filarmônica de Berlim, quanto com a Concentus Musicus Wien. Ele foi o primeiro músico a abandonar o gueto do barroco e do clássico e a explorar as grandes sinfonias e óperas do século 19 baseado no mesmo princípio de não aceitar nenhuma interpretação de forma acrítica que havia aplicado ao repertório inicial. "Quando dirijo essas orquestras, quero que os músicos joguem fora tudo o que fizeram antes com uma peça que acham que conhecem e que a toquem como se nunca a tivessem ouvido ou tocado", explica.

Suas gravações das sinfonias completas de Beethoven, no início dos anos 90, com a Orquestra de Câmara da Europa provocaram um choque sísmico na cultura musical com sua imaginação e energia; suas sinfonias de Brahms com a Filarmônica de Berlim, alguns anos mais tarde, foram igualmente revigorantes.

A missão de Harnoncourt é infundir uma nova inspiração ao conservadorismo da execução orquestral. Seus olhos se acendem de luz azul e brilham de paixão quando fala do programa que deveria apresentar em turnê com a Filarmônica de Viena, para a série de programas de 2009, que incluía A Grande Sinfonia em Dó Maior, de Schubert. (Posteriormente, teve de cancelar esses concertos por motivos de saúde.) "Não quero apresentar com muita frequência obras desse porte", afirma. "Se eu apresento uma peça e, na minha opinião, ela fica próxima do que deveria ser - não 100%, porque isso dificilmente pode ser alcançado, mas próxima -, eu a deixo durante alguns anos. Procuro sempre uma nova abordagem da música."

E Harnoncourt tem uma nova visão de Schubert. "É um dos poucos compositores que realmente compõem sua música em dialeto vienense. Não há nenhum outro lugar no mundo que tenha a mesma mistura de cores no dialeto e na música como Viena - uma cultura checa do lado oriental, húngara do lado meridional, e também italiana -, é o que encontro acima de tudo em Schubert, em Johann Strauss e sua família, e em Alban Berg."

Harnoncourt acrescenta algo que eu não esperava de alguém tão apaixonado pelos clássicos vienenses. "Há uma espécie de crueldade mental no estilo musical vienense. Quando você pensa em Schubert, pensa nessa música linda, nesse homenzinho redondo bonitinho. Mas está errado, não é absolutamente verdade. Ele tem muito mais em seu íntimo - ele foi um Super Doutor Freud." Harnoncourt canta para mostrar o que quer dizer quando fala do lento movimento da Sinfonia em Dó Maior. "O que é essa música de abertura?" - ele faz com que os compassos de abertura soem sinistras, uma marcha fria. "E então você tem: Fang! Dang-Dang-Dang Dang Da-Da-Da Dang-Dang!" - Harnoncourt explode, dando voz à violência da música de Schubert. "E depois o trompete tem uma pequena canção de ninar, como se embalasse uma criança." São contrastes emocionais imprevisíveis, aterradores. "Acho que essa é a maior crueldade". Harnoncourt, que está completando 80 anos, não perdeu nada de sua atitude iconoclasta. A gravação ao vivo de Porgy & Bess sob a regência de Harnoncourt foi lançada no mês passado pela RCA Selo Vermelho. A série 10-CDs Harnoncourt Rege ... foi gravada pela Warner Classics.

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