O maior mecenas da arte brasileira

Conheça Bernardo Paz, que investiu US$ 240 milhões num jardim de obras em Minas, o Instituto Inhotim

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

10 de outubro de 2009 | 00h00

Fuma três maços de cigarros por dia. Faz análise há 20 anos. Casou 6 vezes, nunca com a mulher mais bonita, embora tivesse fama de guapo - era tímido demais. As garotas mais bonitas, as que ele queria, ficavam sempre numa espécie de leilão, e ele nunca chegava nelas. Então, casou com as outras.

O nome dele é Bernardo Mello Paz. Tem 59 anos e quatro filhos e é avesso à imprensa, mas não à badalação. Tem fama de playboy veterano. Seu principal "goal" nem foi ter aberto caminhos para negócios de minério com os chineses, nos anos 1980 - hoje em dia, todo mundo só sabe que ele foi o sujeito que ergueu no Brasil o maior centro de arte contemporânea do planeta, no modesto município mineiro de Brumadinho, tirando do próprio bolso cerca de US$ 240 milhões. Bom, o percurso do dinheiro não é exatamente esse, tem outros bolsos no caminho...

"Na zona rural de uma cidadezinha no sudeste do Brasil, uma nova maravilha mundial está tomando forma: um estonteante santuário de 3 mil acres de arte contemporânea", escreveu Guy Trebay no prestigioso suplemento Travel do New York Times, há alguns dias.

Paz, o engenheiro e guardião desse santuário, cresceu em família de classe média, neto de avós de olhos azuis que ele herdou (mas cresceu um pouco mais, é um varapau de 1m83). O avô teria sido lugar-tenente do Marechal Rondon, ajudara a demarcar fronteiras de um Brasil em formação. O pai, homem severo, foi diretor de uma secretaria urbanística de Belo Horizonte. Hoje, o velho, aos 84 anos, fabrica cachaça numa chácara e insiste em dirigir automóveis, mesmo estando quase cego. O filho é quem compra toda sua produção de cachaça.

Há uma semana, segundo narrativas de testemunhas, durante a inauguração de nove novas obras em Inhotim, havia no aeroporto da Pampulha 29 jatinhos de gente que foi apenas para conferir de perto o fabuloso parque artístico. "Definitivamente é uma obra que merece ser vista e nos honra como brasileiros", escreveu o advogado Fernão Bracher, que visitou o centro.

Os confidentes de Bernardo Paz juram que ele nem gosta de arte contemporânea. Gosta mesmo é de paisagismo. Aproximou-se da arte por influência da sexta mulher, a artista plástica Adriana Varejão.

Mas de onde vem o dinheiro que Bernardo empregou em Inhotim, cerca de US$ 240 milhões? É uma história recente. Paz não é um herdeiro, é um filho da classe média que fez fortuna sozinho. Os relacionamentos afetivos permeiam o histórico financeiro. Nem sempre na forma de superávit, informam amigos próximos. Uma vez, casou com a filha de um banqueiro que viera do Vale do Jequitinhonha. Mas o banqueiro estava falido. O Bradesco ainda tentou comprar o banco insolvente, sob intermediação de Delfim Netto, mas o banqueiro se negou. Resultado: houve intervenção, o homem perdeu o banco, morreu deprimido e o genro jura que herdou 100 milhões (de cruzeiros) em dívidas.

Mas, além das dívidas, Bernardo adquirira jazidas de minério que aparentemente não valiam nada. O minério estava cotado a apenas US$ 1, mas ele conseguiu - ninguém conta como conseguiu - elevar para US$ 12. De repente, estava cheio da grana, pagou as dívidas e não parou mais de ganhar dinheiro. Chegou a ter 39 empresas, 9 mil empregados. Mas nunca estabeleceu um grupo, como o Votorantim ou o Vicunha: cada uma de suas empresas tinha um nome diferente.

Pôs à venda uma de suas minas recentemente por US$ 1,2 bilhão. Deu no Valor Econômico. "Parece que vale mais de US$ 5 bilhões", diz um assessor. Bernardo tem fama de estourado e também de ansioso. Chama adversários de "bichonas" ou "canalhas" em público, mesmo entre desconhecidos. Duas coisas o tiram do sério: o dólar com cotação baixa (sinônimo de perdas na gangorra dos minérios) e gente que reivindica em comissões. Como comprou quase todas as terras em volta de Inhotim, Bernardo outro dia perdeu a pose de barão diplomático ao receber uma dessas comissões, a dos "representantes dos proprietários independentes" da região. Interpretou como uma piada, pois contabiliza que os vizinhos que ainda não venderam suas terras para ele são apenas dois.

Mas sua especialidade não é o confronto, tem veleidades de grande negociador. De vez em quando, no entanto, mete-se em encrenca. Um dia, terminou um casamento aos gritos no meio da noite, e saiu com a mala para a rua. Encontrou num bar uma garota de 22 anos, loira, linda, rica e solícita. Terminou na cama com a moça. Descobriu tarde, quando já estava namorando firme, que a garota era filha de um velho amigo, ex-ministro e ex-vice-governador, e este ficou tão transtornado que tentou matá-lo.

O dinheiro investido em Inhotim teria vindo de uma única fonte, pelo menos na versão de Paz. Foi assim: nos tempos das vacas magras, ele costuma contar que tinha uma mina de minério que achava que não valia nada. Um alemão amigo seu, diretor da Thyssen, ofereceu-se para geri-la. Um dia, a mina amanheceu valendo muito, a jazida valorizou-se, o alemão disse que tinha uma oferta por ela e perguntou se ele queria vendê-la. Topou. A mina foi vendida, rendeu cerca de US$ 480 milhões, metade para cada um. Ele recebeu a metade, mas a dinheirama dele foi paga na Alemanha, e aí começou o problema.

Para repatriar o dinheiro, ele teria de pagar de novo o Imposto de Renda, perderia aí nessa operação uns US$ 100 milhões. Não tinha a menor intenção de perder essa grana. Teria criado então uma empresa, a Horizontes Ltda, cuja única intenção seria estabelecer o grande centro de arte contemporânea na região, e a capitalizou com o dinheiro alemão (via offshores em paraísos fiscais). Ele admite a operação, mas, quando lhe perguntam sobre o caso, diz que não considera a ação como sonegação - entre amigos, pondera que poderia ter gastado o dinheiro na Alemanha, mas o trouxe de volta e investiu em arte, em um projeto de cunho sociocultural inédito no mundo.

Dizem que range os dentes com impaciência quando o comparam a Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos que se projetou como mecenas das artes em São Paulo no início da década e terminou preso. Acha ofensiva a comparação. Sobre sua propalada associação com o grupo do mensalão, ele jura que nunca teve nada com isso. Só teria visto Marcos Valério uma vez na vida. Seu irmão, Cristiano Paz, teria sido uma "vítima" de Valério. Um irmão que a família define como "um publicitário talentoso sem nenhuma inclinação para os negócios" que, endividado, aceitou vender 30% de sua empresa para o "operador" Valério. Paz repete a história a quem o interpela, mas parece saber que é uma versão difícil de engolir.

É casado há 5 anos com a artista Adriana Varejão. Ela vive no Rio de Janeiro, ele vive em Inhotim. Não fala com frequência a meios de comunicação, mas tem sido visto resmungando e reclamando da falta de estímulo e do preconceito contra seu empreendimento. Seu argumento é que, se há tanta gente elogiando - Luisa Strina, Nara Roesler, Paulo Sérgio Duarte -, a desconfiança só pode ter um fundo político, uma espécie de teatro da disputa pré-eleitoral entre Aécio Neves e José Serra.

Em dezembro de 2008, houve inundações em Brumadinho, e o Rio Paraopeba, vizinho a Inhotim, subiu 6,5 metros acima do normal. O museu ficou isolado, e Bernardo Paz, refém de sua milionária ilha de arte contemporânea, não teve como sair do seu "cativeiro". De um jeito estranho, parece que ele está encarcerado ali, desde então.

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