DIda Sampaio/Estadão
DIda Sampaio/Estadão

O major ‘boca-dura’ agora é senador

Deputado federal até o dia 31 de janeiro, Major Olímpio surpreendeu com 9.039.717 de votos

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2018 | 05h00

Um major boca-dura, que não está muito interessado nem no tamanho do adversário, nem da porrada que possa levar. Está aí uma definição do Major Olímpio, por ele próprio, do alto dos 9.039.717 votos que o fizeram o senador mais votado de São Paulo. “Eu sonhei que podia ser o segundo, depois do Suplicy, mas jamais o primeiro”, disse ele ao Estado, durante longa entrevista em seu escritório político, na zona norte da capital. 

O vereador Eduardo Suplicy, do PT, que liderou as pesquisas até a véspera da eleição, nem foi eleito, como se sabe. “Dias depois, ele me ligou, num gesto de grandeza, para dar os parabéns, e pediu que eu levasse o livro sobre renda mínima ao (presidente eleito, Jair) Bolsonaro”, contou o senador do PSL. “Eu vou passar na Câmara Municipal, pegar o livro e levar para o presidente”, disse. “O Suplicy, que eu saiba, jamais teve envolvimento nas patifarias do PT, e sempre tivemos uma relação cordial e respeitosa”, completou. 

Bom ouvinte, o novo senador não se agasta com a lembrança de que poderia ter sido, em 2010, já depois do chamado mensalão e do começo da Operação Lava Jato, candidato a vice-governador do economista Aloizio​ Mercadante, do PT, então ex-ministro do governo Lula. À época, o major da reserva da Polícia Militar era deputado estadual pelo PDT – um dos sete partidos em que atuou. Durante semanas, a imprensa o deu como um bem posicionado candidato a candidato a vice do PT. “A ventilação do meu nome foi articulação do partido, que tinha um alinhamento com o PT”, disse. 

Ainda deputado federal, até 31 de janeiro, o Major é dos que acham que a generalização nunca é justa – nem quando se ataca a violência da PM, nem na política. “Em todos os partidos sempre vai ter quem presta e quem não presta”, diz. “A verdade é que, no calor da discussão, todos nós exageramos na dose.” 

“Ansiedade por começar”, é como o senador define sua expectativa no momento que antecede a posse do novo governo. “Eu tenho esperança de muita mudança positiva para o Brasil”, diz. “Se a oposição está esperando um tratamento ríspido, não vai ter. O tratamento será respeitoso.” 

Antes da eleição, e do “susto” da vitória, expressão dele, o escritório no amplo bangalô da rua Vaz Muniz, no Jardim França, onde despacha dois dias por semana, era uma calma só. “Ninguém dava muita bola pra nós, e agora é essa correria”, disse a assessora de imprensa Elaine Gomes, que trabalha com o Major desde 2011.

Na tarde daquela sexta-feira o senador eleito estava bem atrasado para quatro entrevistas – três para canais de TV, e mais a do Estado. Ele chegou esbaforido, ali pelas quatro, e entrou apressado pela sala que exibe, em meia parede, uma enorme fotografia parlamentar com os dizeres “vamos acabar com essa vergonha!”. Essa última palavra, maior que as outras, está em vermelho, lembrando o tonitruante e cavernoso grito com que atrapalhou a cerimônia de quase-posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ministério da presidente Dilma Rousseff, em março de 2016.

No começo da tarde em que recebeu o Estado o Major estivera em cerimônia de formatura de aspirantes a oficiais na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, onde se formou, há 36 anos. Foi aplaudido com efusão – emoção que o fez, horas depois, revelar uma história ocorrida na mesma academia, na véspera de sua formatura como oficial, em 18 de dezembro de 1982: o rebaixamento de primeiro para segundo lugar em sua turma de oficiais, seguido de 25 dias de prisão. “Se você for ver os anais do Barro Branco, nunca teve uma punição mais amarga”, disse.

Ocorreu, na noite daquela véspera, o que os PMs formandos do Barro Branco chamavam de “A noite de São Bartolomeu” – um trote violento -, referência macabra ao massacre de São Bartolomeu ocorrido na história da França, em 1572, em repressão ao protestantismo. “Eu estava de carona em um dos carros”, contou o Major. “No começo da madrugada todos os carros entraram no pátio do quartel, dando cavalo-de-pau, fazendo balbúrdia, virou realmente um São Bartolomeu”, disse. Foi um dos dezessete punidos, numa turma de 110.

“Nem o super-homem conseguiria fazer tudo o que consta da nota de culpa, como se eu tivesse dirigido tudo, jogado bomba de gás”, desabafou. “Foi uma porrada descomunal, que sempre atrapalhou toda a minha carreira, e que ao mesmo tempo me tirou alguns freios”. Tornou-se um “bocudo”, para usar sua expressão. “Com uma pancada dessas eu já fiz a projeção que não teria a carreira dos sonhos, e me tornei um cara ao estilo ‘o que tiver que ser dito vai ser dito, o que tiver que ser feito vai ser feito’”. Encerrou o capítulo contando outras punições que sofreu na PM, por reclamações contra as condições de trabalho, como prisão na corregedoria e transferência para comandos inóspitos. Chegou a major, de todo modo, e foi, como ainda é, um ativo e bélico participante de associações de oficiais da PM.

Sérgio Olímpio Gomes, 56 anos, desde sempre daltônico – confunde tons de azul, verde e marron -, é vesceslauense, gentílico dos nascidos em Presidente Wenceslau, a 620 quilômetros da capital paulista. Filho do agente penitenciário Deraldo, já falecido, e da dona da casa e eventualmente sacoleira Alaíde, que segue com seus 80. “Sou filho de baiano com alagoana”, diz o senador. O pai, caçula de onze irmãos, nasceu em Iramaia (BA), e trabalhava na lavoura, como os avós. “Família pobre, infância feliz”, relembra. Com o único irmão, Celso, mais novo, hoje funcionário de prefeitura de Wenceslau, foi um jovem atleta esforçado. A sala da entrada do escritório expõe, emoldurada, a página de “A Gazeta Esportiva” de 30 de outubro de 1977. O garoto de 16 anos destacou-se na “Operação Juventude”: foi o primeiro na prova de 75 metros rasos, no salto em extensão (seis metros), e no arremesso (12,21 metros).

Animado por colegas mais velhos que ingressaram na Polícia Militar, fez vestibular em fevereiro de 1978, e passou para o curso preparatório de formação de oficiais. Foram cinco anos no Barro Branco – “adaptação difícil, solidão desgraçada” -, até a formatura em segundo lugar na noite de São Bartolomeu, seguida da prisão. Ele gosta quando se registra que Bolsonaro também esteve preso, por insubordinação, quando capitão do Exército.

Foi no clube dos oficiais da PM que o polêmico capitão Olímpio, bacharel em Direito, com mestrado em Jornalismo, conheceu a fonoaudióloga Cláudia Regina de Abreu Bezerra, filha do coronel PM Niomar Cyrne Bezerra, prestigiado na tropa e comandante da Rota. Casaram em março de 1988, seguem juntos, e são pais de Fernando (analista de marketing, 28) e Mariana (bacharel em Direito, 24). Dona Cláudia, empresária da área de segurança, tem problemas jurídicos com as empresas, parte deles judicializada. “Para mim é desconfortante, mas é a atividade dela, problemas que acontecem com muitos empresários”, disse o Major. “Nunca misturamos isso com a nossa vida conjugal, e nem fizemos disso um motivo de atrito familiar”.

O coronel Ubiratan Guimarães, já falecido, e notabilizado pelo massacre do Carandiru, em 1992, onde morreram 111 presos, foi, além de comandante, um grande amigo do capitão Olímpio na Polícia Militar. O capitão só não participou da operação porque estava de folga. “Se tivesse participado, cumpriria as ordens superiores, que foi o que todos fizeram”, disse. Dona Cláudia foi sócia de Guimarães em uma das empresas de segurança. Ele elegeu-se suplente de deputado estadual em 96. Nos dois períodos em que assumiu o cargo, dona Cláudia trabalhou em seu gabinete, como assessora técnica parlamentar. “Éramos amigos, ele convidou, e ela aceitou”, disse o Major Olímpio no escritório da Vaz Muniz.

Foi Guimarães o responsável pelo Capitão Olímpio ter estreado na política tentando logo a Câmara Federal, pelo PPB, o partido de Paulo Maluf. “O Ubiratan era novamente candidato a deputado estadual [PPB], e de nenhuma forma eu queria disputar votos com ele”, explicou. O coronel do Carandiru se elegeu, mas o Capitão, com 31 mil votos, ficou na suplência.

Em 2004 o ainda capitão, autor de livros sobre segurança, e também comentarista de segurança pública na televisão, tentou mais uma vez: saiu a vereador, pelo PP. Mal passou dos 16 mil votos, novamente suplente.

Desencantou em 2006, agora no Partido Verde, o PV, elegendo-se deputado estadual com 52.386 votos. Declarou à justiça eleitoral, então, ter R$ 191 mil em bens. O TRE-SP rejeitou por unanimidade a prestação de contas de sua campanha, como registra o acórdão 157681, “por inúmeras falhas e omissões”. Seus advogados recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral, que também por unanimidade não aceitou o recurso (agravo regimental 1414/SP, relatado, à época, pelo ministro Gerardo Grossi.

Em 2010, com patrimônio declarado de R$ 551 mil, foi reeleito estadual, desta vez pelo PDT, com quase três vezes mais votos e a possibilidade de ter sido o vice de Aloísio Mercadante na candidatura ao governo do Estado.

Ainda era do PDT quando subiu para a Câmara dos Deputados, em 2014. Teve quase 180 mil votos, e declarou bens no valor de R$ 752 mil.

Em 2016, já no Solidariedade, arriscou-se à prefeitura de São Paulo – seu primeiro round com o empresário João Dória, do PSDB, que sairia vencedor. Amargou um sexto lugar, com 2,02% dos votos (116.870). Declarou bens no valor de R$ 550 mil. Eram R$ 594 mil quando uma avalanche de quase dez milhões votos o fez senador, agora do PSL de Bolsonaro, partido que preside em São Paulo.

O Major explica o crescimento do patrimônio como fruto dos dois salários que recebe – como major e como parlamentar -, em torno de R$ 50 mil líquidos. As variações, para mais ou para menos, dependem, diz, dos movimentos de saque e depósitos em suas aplicações, especialmente na cooperativa de crédito mútuo dos policiais militares.

No dia da entrevista no Jardim França o Estado publicou uma reportagem mostrando divergências entre Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente eleito, e Gustavo Bebiano, futuro ministro da secretaria geral da Presidência. O Major não quis entrar no mérito. ”Os dois são maravilhosos, e eu não apago incêndio com gasolina”, disse. “A minha preocupação é que haja harmonia para o Bolsonaro consolidar o projeto dele – e nesse projeto o palco é pequeno para mais artistas”. O senador vê um defeito comum nele próprio e no presidente: “Somos ambos turrões”. – E vão dar certo por muito mais tempo? “No caso de eu ser turrão numa determinada situação, e ele também, a precedência é dele, que agora é o presidente”. A conferir.

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