O medo do mato

A residência oficial do diretor, onde morou por 15 dias para não deixar a casa inteiramente deserta, era "meio assombradona". Uma tarde, no atalho para o antigo museu, um tatu cruzou o caminho, e ela correu, "com um bebê no colo", até encontrar uma porta aberta para se trancar.

Marcos Sá Corrêa, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Aquele tatu até hoje figura em seu bestiário pessoal como um "bicho com capa nas costas". O tamanduá é quase um monstro "que come formiga". No primeiro outono que passou na borda da floresta, assim que as árvores da clareira começaram a despejar frutos no chão, ela se viu sitiada por feras inomináveis, que saíam do mato para comer diante de suas janelas. Todos a assustaram, a começar pelo quati. Mas nada se comparava ao "dos chifres para todo lado". Ou seja, o veado-mateiro.

Pior foi o dia em que encontrou na cozinha um lagarto, "com um rabão enorme". Correu para o quarto. Voltando, horas depois, do serviço, o marido a encontrou ainda de pé, em cima da cama, com a filha nos braços. "É só um teiú", ele disse, tocando-o com uma vassoura para o terreiro.

Esse depoimento de 23 minutos consta das 40 entrevistas gravadas em DVD para o projeto Memória das Cataratas, uma iniciativa de dois pesquisadores e de uma agência local de publicidade, que em 2008 vasculharam os guardados e as lembranças de famílias pioneiras, para contar na primeira pessoa a história da colonização de Foz do Iguaçu.

Naqueles cafundós do oeste paranaense, a maior parte do que agora é passado remoto tem pouco mais de meio século. E só está visível nos 185 mil hectares do Parque Nacional do Iguaçu, que em janeiro do ano passado completou 70 anos.

Entrevistas históricas. No aniversário do parque, o Memória das Cataratas virou livro e exposição de fotos antigas. Mas as entrevistas em vídeo foram parar em caixas de papelão onde, pelo esquecimento, ficaram duplamente históricas.

Quem abre hoje a caixa se espanta, antes de mais nada, com a memória perdida de 2008 para cá. Como o depoimento de Inês, tão íntimo e destampado que convém não publicar aqui seu nome completo.

Ela não parece falar para a câmera. Ignora as perguntas dos entrevistadores. Fala sobretudo de sua vida, desde que trocou Santo Antônio do Oeste, um lugar "muito ovo", pela cidade grande de Foz do Iguaçu. "Eu era muito ambiciosa", esclarece.

Aos 15 anos, como garçonete de hotel, viu passar na rua seu futuro marido. Ele trabalhava numa pedreira próxima e chamou a sua atenção pela "sujeira". Casou grávida. E, como o casal precisava arrumar a vida, eles fizeram juntos o concurso para funcionário do parque. Ambos passaram. Mas, por norma, só um seria contratado. Assim, ele virou guarda. E num belo dia de 1978 foi buscá-la "na viatura" para lhe mostrar a nova casa.

Quando viu aonde iaparar, Inês teve "muito medo". Medo "de tudo". Enfim, "medo do mato". O casal começou a brigar ali mesmo. E não parou mais até a separação, cinco ou seis anos depois. O relato desse inferno conjugal no meio do inferno verde consome, com profusão de detalhes, a metade do depoimento.

Até que, de repente, ela começa a chorar e conta que tem saudades da casa, das cataratas, dos filhos crescendo longe da cidade, até do forno de pão ao ar livre. Aí, depois de fazer tudo para dar a impressão de estar no elenco do Memória das Cataratas por engano, Inês se transforma, sem querer, na melhor testemunha da tragédia histórica que é a relação dos brasileiros com sua floresta. No gênero, seu DVD nasceu clássico.

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