Ivan Dias/AE
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O Melhor de Tudo - A sopa que ressurgiu com o espartilho

Ao contrário do Talmude e do Alcorão, livros sagrados do judaísmo e do islamismo, o Novo Testamento não impõe restrições alimentares aos cristãos. O consumo de carne sempre foi permitido. Curiosamente, o cristianismo foi buscar essa liberação no Velho e não no Novo Testamento, onde se encontra a doutrina de Jesus. “Tudo o que vive e se move e possui a vida vos servirá de alimento (...), como vos dei a verdura das plantas”, disse Deus a Noé após o dilúvio universal”, em Gênesis 9-3. 

Dias Lopes - O Estado de S.Paulo,

21 Março 2012 | 17h54

Por que, então, cristãos se submetiam a tantas penitências na Quaresma? Nos 40 dias entre a Quarta-Feira de Cinzas e a Quinta-Feira Santa, jejuavam e não comiam carne. Um dos que oferecem resposta é o espanhol L. Jacinto García, em Comer como Dios Manda (Ediciones Destino, Barcelona, 1999), estudo sobre as influências das três religiões monoteístas do Mediterrâneo - cristã, judaica e muçulmana - nos hábitos alimentares. 

Segundo García, a falta de regras gerou inquietações entre os crentes para os quais a comunhão com Deus implica a renúncia de prazeres materiais. “Cristãos primitivos empreenderam caminhos diversos e, em certas ocasiões, opostos. Uns se decantaram pela permissividade mais absoluta e pelo consumo livre de qualquer tipo de alimentos. Outros se situaram no vértice oposto e voluntariamente mortificaram seus corpos com austeridade e jejum extremos.” 

A partir do século 3º, muitos dos que escolheram o caminho da penitência se tornaram anacoretas e abandonaram tudo para viver sós em terras inóspitas. Depois, formaram grupos que deram origem aos primeiros conventos e ordens religiosas. Um desses foi o italiano Pietro del Morrone. 

Em 1292, morreu o papa Nicolau IV. O conclave já durava quase dois anos, sem que os 12 cardeais conseguissem escolher o sucessor. Pressionados por Carlos II, rei de Nápoles, elegeram Pietro del Morrone, que foi achado em uma caverna - ou na copa de uma árvore, dependendo da versão. Eleito em 1294 como Celestino V, ele entrou em Aquila, nos Abruzos, montado em um burro. 

Fixou residência na cidade, mas logo se mudou para Nápoles e nem sequer foi a Roma, que detestava sem conhecer. Seu pontificado durou pouco. Despreparado, foi obrigado a renunciar. Morreu no cárcere dois anos depois, preso pelo sucessor, Bonifácio VIII. Antes de ser papa, Pietro del Morrone fundou a ordem dos celestinos.

Desde o princípio do cristianismo os fiéis se preparavam para a Páscoa fazendo jejum e abstinência. Os procedimentos variavam. Conforme García, não havia uma regra comum. Por isso o Primeiro Concílio de Niceia, reunido em 325, instituiu a Quaresma. Em seus 40 dias, os cristãos passaram a reviver a experiência dos 40 dias que Jesus permaneceu no deserto em oração e jejum, antes de iniciar sua pregação.

No início, os fiéis só podiam comer uma vez por dia, quando o sol se punha. Os ingredientes se limitavam a verduras, legumes, frutas, pão, depois peixe. Carne, gordura animal, ovos e laticínios, nem pensar. O espartilho fez surgir na Europa um prato revigorante: a sopa da quaresma, com amêndoas, cebola, pimentão, batata e couve. Na Espanha, levava grão-de-bico, espinafre e bacalhau. 

Com o tempo, a severidade foi relaxada, sobretudo após o Concílio Vaticano II (1962 a 1965). Hoje, a abstinência se limita à Quarta-Feira de Cinzas e à Sexta-Feira Santa. Nos outros dias, os fiéis maiores de 18 anos e saudáveis são convocados a orar e dar esmolas. O jejum é opcional. Que se saiba, ninguém mais passa a Quaresma tomando sopa.

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