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E para mim, uma hóstia

Dias Lopes,

28 Março 2012 | 21h53

Muitos religiosos católicos da Idade Média, sobretudo mulheres, não levavam o rigor penitencial às últimas consequências apenas na Quaresma - os 40 dias que antecedem a Páscoa cristã. O ano inteiro jejuavam sem limites e se abstinham de carne, alimento que consideravam favorecedor do apetite sexual. O objetivo era alcançar o dever cristão de perfeição espiritual. Magérrimos, acometidos de inanição, alguns conquistaram fama de santos vivos. 

Na Idade Média, uma mulher com silhueta escultural podia ser suspeita de concupiscência. Quando perdia as formas pelo jejum e abstinência, era associada ao engrandecimento do espírito. Muitas se alimentavam apenas da hóstia, o disco fino de pão ázimo consagrado na missa. Não por acaso, diversas foram de fato elevadas à glória dos altares. Somente na era vitoriana, ou seja, a partir do século 19, as mulheres conquistaram o direito de fazer dieta médica e buscar a beleza estética. 

Hoje, o comportamento daquelas que se privavam dos alimentos para abrir a estrada do céu, tenham sido canonizadas ou não, é julgado patológico, inclusive pela Igreja Católica. A partir da Renascença, grandes pensadores eclesiásticos começaram a desaconselhar a penitência exagerada. Mesmo as mulheres que se tornaram santas agora seriam consideradas anoréxicas, embora faltasse um elemento para caracterizar essa doença: elas não emagreciam acossadas pelo medo de engordar, porém em busca da comunhão com Deus. Além disso, dedicavam-se a outras práticas ascéticas: pobreza extrema, humildade rigorosa, dormir em cama de madeira com travesseiro de pedras, autoflagelações com chicotes e correntes, etc. 

Uma santa famosa que teria sofrido de anorexia foi a italiana Catarina de Siena (1347-1380), tão importante em uma das piores crises da Igreja Católica - a divisão do papado entre Roma e Avignon - contra a qual lutou. Impressionada pela morte da irmã mais velha, de parto, fez voto de virgindade e passou a jejuar de forma obsessiva. Recusava-se a ingerir qualquer coisa e vomitava tudo que raramente engolia.

 “Sua frugalidade com a comida era tanta, e tão rigorosa sua abstinência, que passava vários meses seguidos privada de qualquer gênero de alimento, sustentando-se unicamente com a comunhão do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo”, escreveu Santiago de la Voragine, na obra La Leyenda Dorada (Alianza Editorial, Madri, 2005). Morreu aos 33 anos, vitimada pela inanição. Em 1970, Paulo VI a declarou doutora da Igreja. 

Contemplada com idêntico título honroso, atribuído pelo mesmo papa, a espanhola Teresa de Ávila, ou Teresa de Jesus (1515-1582), se comportava de maneira diferente em relação à comida. Também mística, entregue aos rigores da vida contemplativa, submetia-se aos severos jejuns e abstinências da época. Entretanto, ao fundar a Ordem das Carmelitas Descalças se preocupou com o bem-estar das suas seguidoras. “Tenha a madre superiora (...) o cuidado de que se dê (a comida) bem preparada, de maneira que possam (as freiras) passar com aquilo que se lhes dá, pois não possuem outra coisa”, ordenou ela no regulamento Constituições Antigas. Morreu aos 67 anos, uma longa vida para a época.

Refletindo a tendência da Igreja na Renascença, Santa Teresa de Ávila achava que a conduta ideal era a temperança, entendida no caso como a moderação do apetite à mesa. Tanto que foi homenageada por um dos docinhos mais representativos da doçaria conventual espanhola, souvenir obrigatório para quem visita a cidade de Ávila, em Castela e Leão, onde ela nasceu. São redondos, feitos com gema de ovo, casca de limão ralada e, no final, polvilhados com açúcar de confeiteiro. Chamam-se gemas de santa teresa ou gemas de ávila. Teriam origem árabe.

Compreensivelmente, nenhuma receita festeja Santa Catarina de Siena. 

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