Yves Herman/Reuters
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O chocolate-pecado de Montezuma

Dias Lopes,

04 Abril 2012 | 20h13

Milhões de pessoas comerão chocolate na Páscoa, domingo. É um dos alimentos mais consumidos na festa anual que comemora a ressurreição de Jesus, fundador do cristianismo. Outros dois alimentos são o cordeiro e o bacalhau.

Descoberto no México, em princípios do século 16, quando os espanhóis conquistaram e destruíram o império asteca, o chocolate entrará na receita de bolos, barras, bombons e principalmente de ovos de Páscoa.

Estes, particularmente, estarão recheados com seus significados. Nas tradições de todos os povos, o ovo representa a fecundidade e a regeneração. Os primeiros cristãos o converteram em símbolo de Jesus, portador da vida. Inicialmente, era de galinha, pata ou gansa. No século 18, confeiteiros italianos e franceses começaram a produzi-lo de chocolate.

Alguns autores afirmam ter sido um franciscano chamado Olmedo, integrante da comitiva de Hernán Cortés (1485-1547), o conquistador do império asteca, quem começou a espalhar na Espanha a pasta à base de amêndoas de cacau. Outros atribuem o feito a frei Aguilar, monge da Ordem de Cister. Ele teria enviado cacau e uma receita de chocolate ao abade do Mosteiro de Pedra, em Aragão.

Foram as freiras de um convento de Oaxaca, na região meridional do México, que receberam a inspiração divina de colocar açúcar no chocolate, na época um líquido espumoso e amargo, temperado com baunilha, pimenta e outras especiarias. Mas, paradoxalmente, as autoridades eclesiásticas levaram dois séculos e meio para liberar oficialmente seu consumo irrestrito.

A dúvida era se, ao ingeri-lo (só existia na forma líquida), quebravam-se ou não os numerosos dias de jejum impostos aos fiéis durante o ano, cometendo-se pecado. Seria o chocolate uma bebida ou alimento? Um volume enorme de textos discutiu essa questão. Convocado a se pronunciar, o cardeal François-Marie Brancacci, ex-bispo de Viterbo, Porto e Capaccio, publicou no Tratado sobre o Chocolate, de 1664, a famosa sentença em latim: Liquidum non frangit jejunum (O líquido não infringe o jejum).

Na mesma época, um monge espanhol declarou guerra ao chocolate, acusando-o de estimular a libido. Baseava-se em uma lenda envolvendo o imperador Montezuma II (1466-1520), o governante asteca que Hernán Cortés aprisionou e matou. Os espanhóis se assombraram com o volume de chocolate que ele ingeria. Eram 50 frascos por dia! Antes de se embrenhar no seu harém, Montezuma II ainda tomava uma dose extra. Era supostamente para aumentar seu desempenho viril. Assegurava-se que ele chegou a ter, ao mesmo tempo, 150 concubinas grávidas.

O escritor gastronômico espanhol L. Jacinto García, no livro Comer como Dios Manda (Ediciones Destino, Barcelona, 1999), mostra quanto as autoridades eclesiásticas divergiram não só em relação ao chocolate, mas também diante de outros ingredientes da América. "As arbitrárias normas de abstinência da época não estavam preparadas para resolver as dúvidas sobre a incompatibilidade ou não de alguns dos novos produtos com o jejum." Até a pimenta e o pimentão foram discutidos. "Seus sabores incisivos, assim como suas reconhecidas propriedades excitantes e revulsivas, não condiziam lá muito bem com a temperança própria dos dias de jejum", disse Jacinto García. Em compensação, teólogos e filósofos católicos precisaram avalizar, no México, o consumo de outra bebida asteca: o pulque, feito com o suco fermentado do agave.

O vinho utilizado nas missas procedia da Espanha. Em certo momento, houve problema no seu abastecimento. Como celebrar a Eucaristia, o sacramento no qual o sangue de Jesus se acha presente sob a aparência do vinho? "Em situação de emergência, recorram ao pulque", responderam os teólogos e filósofos. Felizmente, o sinal verde ficou aberto pouco tempo e não se estendeu a outros países. Nem todo o mundo gosta do pulque. O chocolate, porém, é uma deliciosa unanimidade.

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