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McLusitano já tem. E o McAxeira?

Dias Lopes,

11 Abril 2012 | 20h33

Quando resolveram transformar em lanchonete de hambúrgueres o restaurante que tinham fundado perto de Pasadena, na Califórnia, em 1948, Dick e Mac McDonald acreditaram que as pessoas reagiriam à mudança como um rebanho: o mundo inteiro comeria feliz seus sanduíches estandardizados, preparados conforme os princípios do fast-food, ou melhor, da lógica industrial de Henry Ford.

Os alimentos para rápido consumo, feitos em cadeia, realmente conquistaram os americanos. Satisfaziam seu proverbial apetite e a obstinação de comer o mais rápido possível, sem perda de tempo, em qualquer lugar, inclusive nos escritórios e durante o trabalho. Mas, em outros países, o MacDonald’s - como ficou conhecida a colossal rede de lanchonetes surgida a seguir - teve de fazer concessões.

Muitas pessoas o criticavam por diferentes razões: não gostavam da comida, achavam que contrariava suas tradições culturais e até princípios religiosos. Na Índia, o hambúrguer já chegou aculturado. Desembarcou vegetariano ou teve a carne bovina trocada pela ovina: os quatro textos dos Vedas, escritos em sânscrito por volta de 1500 a.C., que formam a base das escrituras do hinduísmo, consideram a vaca sagrada, associando o animal a várias divindades. Portanto, vetam o consumo da carne bovina.

Mas os maiores problemas do McDonald’s apareceram na Europa, onde o ato de comer sempre mereceu um tempo distinto e um espaço ritualizado. Até a metade do século passado, era impensável para a população do Velho Continente comer sentada em um banco acrobático, andando na rua, guiando um automóvel, subindo e descendo um elevador. Na Suécia dos anos 70, como recordam Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanarini, no livro Storia dell’Alimentazione (Editori Laterza, Roma-Bari, 1997), o gigante do fast-food foi acusado de “forçar a saudável juventude (...) a engolir ‘alimentos plásticos’ estranhos à tradição nacional”.

Na Itália, os macarroneiros de Roma organizaram uma passeata contra a abertura do primeiro McDonald’s na cidade, em 1986. Bradaram slogans antifast-food e distribuíram macarrão nas ruas, “mostrando ao povo o que é comida de verdade”. Em 2011, o McDonald’s italiano contratou Gualtiero Marchesi, um dos maiores chefs do país, para desenvolver dois panini (sanduíches) e um dessert (sobremesa) ao gosto da população local.

Fizemos todas essas considerações preliminares - que na linguagem jornalística se chamariam “nariz de cera” - por um motivo relevante. A partir deste mês, as 135 lojas do McDonald’s de Portugal oferecem dois sandes (sanduíches, como falam lá) inovadores. São hambúrgueres com 100% de carne bovina. Vêm acondicionados em uma “cama” de tomate, dentro de um pão rústico e crocante, à base de farinha de trigo, água e sal. Aboliu-se o controvertido pão universal do McDonald’s, de casca mole e sabor adocicado. Um dos sandes também leva queijo de vaca dos Açores e molho de alho; o outro, paio de lombo e molho de chouriço. Além disso, o gigante do fast-food lançou duas novidades de inspiração portuguesa: batata fritas em rodelas e um sundae com calda de doce de ovos. Nunca havia feito tantas concessões.

O diretor de marketing do McDonald’s em Portugal, John Alves, explicou que a rede mantém o estilo global, “mas procura ter uma atuação local em cada mercado onde está presente, apostando na aproximação aos hábitos dos consumidores”. Os portugueses devem aprovar os sandes, sobretudo o nome que receberam na campanha publicitária: McLusitano.

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