Felipe Rau/AE
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O melhor de tudo - Interpretação dos sonhos

Como os sonhos que temos ao dormir, os bolinhos homônimos, fritos e fofos, à base de farinha de trigo, ovos e água, diferem uns dos outros. Alguns são feitos com massa levedada e geralmente recheados; outros dispensam o fermento. A diferença é substancial. Os sonhos levedados apresentam a massa compacta e levemente pesada; os sem fermento se tornam ocos e mais leves - e por isso muitas pessoas os preferem.

Dias Lopes,

18 Abril 2012 | 21h59

Os sonhos de massa não levedada são uma predileção gaúcha. Até viraram atração turística de Santo Antônio da Patrulha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, uma das 38 cidades brasileiras que homenageiam o grande teólogo, místico e orador católico dos séculos 12 e 13. Patrulha é sobrenome laico. Derivaria dos grupos que cobravam impostos nos tempos coloniais.

A versão escolhida pela ilustre professora de culinária Maria Teresa Schaan Pessano, de Porto Alegre, é que os sonhos de Santo Antônio da Patrulha surgiram na década de 40. Como ainda não havia a freeway, a autoestrada ligando Porto Alegre ao litoral norte do Rio Grande do Sul, a cidade se tornou passagem obrigatória para as pessoas que se dirigiam às praias da região. Em um restaurante à beira da antiga rodovia estadual, uma senhora chamada Adelaide Monteiro começou a vender sonhos aos forasteiros.

Ela os preparava com fermento de pão. Logo ganhou clientela. Certo dia, o movimento superou suas expectativas. Não dispondo de tempo para deixar a massa levedar, Adelaide Monteiro preparou bolinhos sem fermento na massa. Resultaram grandes, com uma casquinha fina, gostosa de morder, e meio ocos. Ao retirá-los da frigideira, iam para um papel absorvente. Depois, eram polvilhados com açúcar e canela e saboreados sem recheio. A clientela adorou.

Em Rio Pardo, cidade da região centro-oriental do Rio Grande do Sul, há sonhos parecidos, mas a população conta história diferente. Sua receita teria vindo de Portugal. Faz sentido. Maria de Lourdes Modesto e Afonso Praça, no livro Festas e Comeres do Povo Português (Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 1999), publica uma receita assemelhada, aromatizada com casca de limão e servida com calda de açúcar. Não pode faltar na mesa de Natal do Alentejo e outras regiões do país. Se a massa for levedada, os portugueses chamam o sonho de bola de Berlim.

A rio-pardense Nara Regina Petterson Barroso afirma que a receita inicial pertencia a sua família e era guardada a sete chaves. O sonho fritava em duas frigideiras, uma com gordura mais quente, “apenas para crescer”; a segunda nem tanto, “para corar”. Além disso, incorporava um ingrediente secreto, comprado em farmácia. Pediam-no pelo codinome “aquilo”. 

Só um farmacêutico sabia do que se tratava e não falava a ninguém. Tratava-se de sal amoníaco, utilizado para deixar mais crocantes os sonhos de Rio Pardo, que eram vendidos na estação ferroviária.

A tradição portuguesa de comer no Natal bolinhos não levedados se apoiaria na Bíblia. Segundo o Êxodo, ao fugirem do Egito os judeus não dispuseram de tempo para deixar a massa fermentar. Precisando matar a fome, assaram-na assim mesmo. Criaram o pão ázimo ou matzá, alimento básico dos rituais do Pessach, a Páscoa hebraica. A fim de impedir o crescimento da massa, os judeus a perfuram antes de colocar no forno. A hóstia consagrada na missa católica também é um disco fino de pão ázimo.

Já a bola de berlim dos portugueses se originou na Alemanha. Ali a denominam berliner ballen ou simplesmente berliner, que significa berlinense. Na terra natal, recheiam-na com doces de frutas vermelhas, às vezes chocolate, e a polvilham com açúcar fino. Inspirou os sonhos do mundo inteiro, até os que receberam nomes nacionais. Exemplos: há boules de berlin na França, berliner na Austrália, berlines no Chile e aí por diante. No Brasil, preferimos dizer sonho de padaria e o recheamos com creme de baunilha ou goiabada.

Sonhos de Santo Antonio *

Ingredientes

3 xícaras (chá)de farinha de trigo

2 ovos inteiros

5 (ou 6) gemas

1/2 colher (chá) rasa de sal

1 lata de óleo para fritar

Açúcar e canela para polvilhar

Água fervente o quanto baste

Nata fresca para acompanhar (opcional)

 

Preparo

Em uma panela, coloque o óleo, que deve ficar com uns 4 dedos de  altura dentro da panela. Aqueça-o no momento em que for fritar os sonhos. 

Na  tigela de uma  batedeira planetária, disponha a farinha de trigo e vá acrescentando aos pouquinhos a água fervente, mexendo com uma colher de pau, até formar uma massa dura. A massa é apenas escaldada e não vai ao fogo. 

Junte  1 ovo inteiro, 2 gemas e bata, usando  a pá reta. Depois de bem misturada, junte mais 1 ovo inteiro, sempre batendo e depois mais 3   gemas, uma a uma. Misture o sal e, se a massa ficar dura, coloque mais 1 gema.

Retire da batedeira.O ponto da massa deve ser médio: nem muito mole, nem muito duro. 

Sobre o fogão, coloque uma tigela com água morna e, com uma colher de sopa, retire porções (que encham a colher) da massa, passando-as rapidamente nas mãos molhadas com a água morna, formando  bolas. O formato de bola não é muito preciso, devido ao ponto da massa.

Aqueça o óleo que está na panela, coloque algumas  porções  de massa por vez e  frite  com a panela sempre tampada, em fogo baixo, sacudindo a panela de vez em quando, para que  os sonhos cresçam. 

Se o fogo estiver muito forte e os sonhos dourarem rapidamente,  sem crescer, retire a panela do fogo por 2 a 3 minutos para arrefecer o óleo e  retorne com a panela ao fogo. 

Depois de  crescerem,vire-os  com um garfo e aumente o fogo para dourarem. Repita a operação, até a massa acabar. 

Quando prontos,  retire-os, deixe-os escorrer de preferência em uma grade e passe-os no açúcar e na canela. 

Acompanhe opcionalmente com nata batida.

Rendimento : 20 sonhos (aproximadamente)

* Receita de Maria Teresa Schaan Pessano, de Porto Alegre.

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