O mongol que reunificou a China

O melhor de tudo, por Dias Lopes

jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2008 | 02h31

Guerreiro temido, cavaleiro intrépido, apesar do corpo pesado e roliço, governante habilidoso e alfabetizado, Kublai (ou Kubilai) Khan (1215-1294), primeiro imperador da China de origem mongol, conseguiu unificar o país dividido havia mais de três séculos entre as dinastias Jin, ao norte, e Song, ao sul. Por esse feito - e pelas histórias a seu respeito contadas por Marco Polo (1254-1324) na obra O Livro das Maravilhas - virou um dos personagens mais fascinantes da Ásia antiga. O relato do explorador e navegador veneziano pode conter fantasias. Muitos duvidam que tenha estado na China, por não se referir à Grande Muralha e à escrita por ideogramas. Acusam-no de se basear nos depoimentos de seu pai, Nicolau, do tio Mateus e de outros viajantes da época. Mas Kublai Khan, neto do mongol Gêngis Khan, o maior conquistador do mundo, realmente existiu. Estabeleceu a própria dinastia, dando-lhe o nome de Yuan, e levou seu império à suprema grandeza. Em 1260, foi proclamado o Grande Khan, ou melhor, Supremo Soberano Mongol, título com o sentido variado de chefe, comandante, senhor ou príncipe. Além da China, dominou outros reinos menores. Entretanto, fracassou nas duas tentativas de invasão do Japão, em 1274 e 1281, repelido pelo tufão Camicase, o Vento Divino, e pela agilidade da marinha nipônica. A obesidade não veio por acaso. O Grande Khan tinha hábitos alimentares desequilibrados e era glutão compulsivo. Conforme a lenda, aos 6 anos de idade já pesava 100 quilos. Morreu de indigestão, após uma comilança pantagruélica. Ao mudar sua corte para Dadu, que mandou construir sobre as ruínas de uma cidade destruída pelo avô, nos arredores da atual Pequim (Beijing), assimilou muitos costumes chineses e difundiu os dos tártaros. Por esse nome eram conhecidos no Ocidente os povos que formaram o exército de Gêngis Khan, mongóis ou turcos. Marco Polo afirma que encontrou o Supremo Soberano Mongol na capital chinesa, conquistando sua afeição e permanecendo por 17 anos a seu serviço, no exercício de destacadas funções administrativas. Educado por um tutor confucionista, porém depois se convertendo ao budismo, o Grande Khan era tolerante com as outras religiões e procurava atrair pensadores e artistas de outras nações. Adorava novidades e gostaria de se aproximar do Ocidente. Chegou a enviar uma carta ao papa, em Roma, solicitando informações sobre o mundo cristão. O Livro das Maravilhas ressalta seu gosto pelo leite de égua, afirmando que os tártaros ''sabiam prepará-lo de tal forma que parecia um vinho branco de extraordinário sabor''. Segundo Marco Polo, quando conduzia suas tropas para conquistar um reino o Grande Khan bebia muito leite. Levava-o também desidratado, ''sólido como uma pasta''. Seria coalhada seca? No verão, ou seja, nos meses de junho, julho e agosto, mudava para Ciandu, Chemenfu ou Shang-tu, localidade que os historiadores situam ao norte de Pequim, onde criava cavalos e éguas brancas. Eram animais tão preciosos que, ao serem levados para passear, ninguém atravessava no meio deles. Por sugestão dos astrólogos e feiticeiros, todo dia 28 de agosto o Grande Khan cumpria um ritual invariável. Mandava derramar no chão uma parte do leite das éguas e lançar a outra no ar, ''a fim de que os espíritos o bebessem''. Desse modo, os céus protegeriam as mulheres tártaras, suas casas, rebanhos e colheitas. Após a oferenda, o Supremo Soberano Mongol tomava o leite que sobrava. O Grande Khan e seus homens eram carnívoros. Criavam bois, cavalos, carneiros e cabritos. Adoravam caçar. Se acreditarmos em Marco Polo, capturavam os animais selvagens com a ajuda de cães de raça e também de espécies nativas treinadas especialmente. Tinham águias adestradas para encontrar raposas e lobos; leopardos que se encarregavam dos cervos; e leões enormes, ''maiores do que os da Babilônia'', para pegar cabritos, porcos e ursos. ''Quando o Grande Kahn sai para caçar com seus barões, não há animal selvagem que não consigam apanhar'', assegurou Marco Polo. Dois barões o acompanhavam, cada um comandando 10 mil homens vestidos de vermelho e azul, para distinguir os grupos. Nessas ocasiões, bem como na guerra, observavam um milenar costume dos tártaros: cortar em pedaços as carnes de boi e cavalo e colocá-las sob a sela do cavalo. O atrito e a lenta decomposição conferiam maciez. Utilizavam-nas para preparar um prato conhecido por steak tartare ou steak à la tartare: carne crua sem gordura, picada na ponta da faca, temperada e servida com gema de ovo. A tradição diz que a receita foi introduzida na Europa, no século 5º, pelas tropas bárbaras de Átila, rei dos hunos, povo aparentemente de raça tártara. Sistematizada entre os séculos 17 e 18 pela alta cozinha francesa, espalhou-se com o nome de beefsteak à la tartare. Integrou o portentoso elenco de Le Guide Culinaire, obra-prima do chef francês Auguste Escoffier, de 1903, onde curiosamente abdica do ovo cru. Hoje, é a mais clássica receita crua do cardápio internacional.

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