Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

O movimento em prol do brincar

Iniciativa repudia rotina cheia de obrigações das crianças e ressalta a importância da brincadeira para o desenvolvimento

Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

O bom desempenho dos alunos chineses em avaliações internacionais tem chamado atenção para o modelo educacional do País, baseado em disciplina, preparação obsessiva para as provas e quase nenhum tempo para o lazer. Mas um número crescente de educadores, psicólogos e pais defende a ideia de que é brincando que as crianças adquirem as ferramentas para serem bem-sucedidas.

Os jogos e o faz de conta possibilitam exercitar comportamentos adultos, elaborar conflitos, aprender regras de convivência em grupo e desenvolver habilidades como criatividade, liderança e solução de problemas. E foi justamente a preocupação com o futuro profissional das crianças americanas que motivou o grupo Play for Tomorrow (Brincar pelo Amanhã) a lutar por políticas públicas para resgatar o espaço destinado ao lúdico nas escolas e nos lares.

Segundo dados da entidade, em 1981 as crianças gastavam cerca de 40% de seu tempo brincado. Em 1997, o número havia caído para 25%. Nas últimas duas décadas, milhares de escolas americanas eliminaram a hora do recreio para dedicar mais tempo a atividades acadêmicas.

No Brasil não existem estatísticas similares, mas especialistas afirmam que também aqui o "play time" está sendo consumido por atividades extracurriculares e pelas horas passadas em frente a uma tela. Levantamento feito pelo Ibope aponta que as crianças brasileiras gastam, em média, cinco horas diárias assistindo à TV.

"Meninos e meninas estão cada vez mais confinados em condomínios, onde estão supostamente protegidos. Mas acabam sofrendo outro tipo de violência, pois se relacionam sozinhos com a tecnologia", afirma a psicóloga Lais Fontenelle, do Instituto Alana.

Para ela, é fundamental lutar pela revitalização dos parques e das praças públicas, espaços que oferecem às crianças experiências mais ricas que aquelas vivenciadas em playgrounds de prédios e clubes.

Televisão, internet e videogame passaram a ser tranquilizantes, diz Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Distrações que não requerem montagem, bagunça ou sujeira. "Os pais estão perdendo a riquíssima oportunidade de passar tempo com seus filhos. Nem sequer sabem como brincar de massinha. Sentem-se bobos e desajeitados", diz.

Filão. Essa dificuldade de muitos pais virou uma oportunidade de negócio para a psicóloga Flávia Nabuco, que criou, na zona oeste da capital paulista, um espaço destinado a promover atividades lúdicas, como pintura com os dedos. "Quando você deixa a criança engatinhar, rolar no chão ou se sujar na areia, ela aprende como o corpo funciona e adquire noção espacial. Tudo isso estimula a formação de sinapses e cria ferramentas no cérebro que serão úteis no futuro", diz.

Mãe de três filhos - Sophia, de 9 anos, Marina, de 8, e Murilo, de 2 anos e 7 meses -, Flavia acredita que as crianças de hoje são muito intelectualizadas. "Os pais as colocam em tantas atividades e não percebem o quanto a brincadeira livre é importante", defende.

Mas não basta deixar brincar, é preciso participar da brincadeira, diz Marcos Kisil, diretor da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. "É brincando que se constrói o laço de afetividade e confiança entre pais e filhos. Se o adulto não exercita esse lado, vai ter dificuldade para se comunicar com o filho o resto da vida."

Para a executiva de contas Andrea Soares, de 38 anos, isso nunca foi problema. Todas as noites, ela e o marido dedicam seu tempo para a filha Julia, de 3 anos. "A maior diversão para ela é brincar de casinha. Nós somos os filhos e ela, a mamãe", conta Andrea. "É uma troca, pois como ela nos imita durante a brincadeira, podemos avaliar como estamos nos saindo no papel de pais."

No meio da sala de estar, Andrea montou um cantinho para a filha com barraca e mesa para pintar, desenhar e modelar. "A bagunça não me incomoda, pois sei que uma hora essa fase vai passar. Prefiro tê-la na sala, onde sempre estou por perto."

Essa também foi a opção da advogada Ana Maria Satiro, mãe de Luiz Fernando, de 8 anos, e Ana Beatriz, de 9. "Depois que as crianças nasceram, eu me acostumei a ter os brinquedos como parte da decoração", conta. Os meninos frequentam a escola em período semi-integral e praticam natação duas vezes por semana. O resto do tempo é livre. "A casa vira um campo de guerra. Mas, paciência."

Atropelo. Para a psicopedagoga Adriana Foz, o resgate da infância vai além de garantir espaço para o lúdico. "É preciso rever não apenas o excesso de atividades, mas a forma como as crianças se vestem, comem e se relacionam com o consumismo", afirmou. Culpados por passar muito tempo longe de casa, diz ela, muitos pais acabam dando às crianças poder de tomar decisões para as quais não estão preparadas. "O estilo de vida moderno leva a um atropelo das fases de desenvolvimento e isso traz consequências. A neurociência tem mostrado que o estrago é neurológico", completa.

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