O mundo G-Zero

No momento, nenhum país ou bloco de países tem o cacife político e econômico - ou a vontade - para tocar uma agenda internacional

Ian Bremmer e Nouriel Roubini - 'Foreign Affairs',

30 Abril 2011 | 16h27

Este não é um mundo G-20. Nos últimos meses, o grupo expandido de economias importantes foi de um pretenso concerto de nações a uma cacofonia de vozes concorrentes à medida que a urgência da crise financeira se desvanecia e a diversidade de valores políticos e econômicos dentro do grupo se afirmava. Tampouco é viável um G-2 - uma solução sino-americana para problemas transnacionais urgentes - porque Pequim não tem intenção de aceitar os ônus da liderança internacional. Tampouco há uma alternativa G-3, uma conjunção de EUA, Europa e Japão que pudesse sair em socorro.

Os EUA não dispõem de recursos para continuar sendo o principal provedor do bem público global. A Europa está ocupada com a salvação da zona do euro. O Japão está atado a complexos problemas econômicos e políticos em casa. Nenhuma dessas potências têm tempo, recursos ou capital político doméstico para uma nova sessão de pesados encargos internacionais. Ao mesmo tempo, não há uma resposta crível para os desafios internacionais sem o envolvimento direto de potências emergentes como Brasil, China e Índia. Esses países, contudo, estão centrados demais no desenvolvimento doméstico para aceitar os encargos que acompanham as novas responsabilidades externas.

Vivemos em um mundo G-Zero, em que nenhum país isolado ou bloco de países tem o cacife político e econômico - ou a vontade - para tocar uma agenda internacional. O resultado será uma intensificação dos conflitos no cenário internacional sobre questões vitalmente importantes, como a coordenação macroeconômica internacional, a reforma dos regulamentos financeiros, a política comercial e as mudanças climáticas. Essa nova ordem tem implicações de longo alcance para a economia global à medida que companhias de todo o mundo estão sentadas em pilhas de dinheiro, esperando passar a era de incerteza política e econômica. Muitas delas podem contar com uma prolongada espera.

Até meados dos anos 90, o G-7 era a mesa de negociações internacionais mais importante. Seus membros partilhavam um conjunto de valores e a fé em que democracia e capitalismo de mercado eram os sistemas mais favoráveis para gerar paz e prosperidade duradouras. Em 1997, o G-7 dominado pelos EUA se tornou o G-8 dominado pelos EUA, quando autoridades americanas e europeias puxaram a Rússia para o clube. Foi apenas um esforço para robustecer a frágil democracia russa e ajudar a impedir que o país degringolasse para o comunismo ou um militarismo nacionalista. A transição de G-7 para G-8 não questionou pressupostos sobre as virtudes de um governo representativo ou os perigos de uma ampla administração estatal do crescimento econômico.

A recente crise financeira e o derretimento do mercado global enviaram uma onda de choque pelo sistema internacional muito maior que a que sucedeu ao colapso do bloco soviético. Em setembro de 2008, os temores de que a economia global estivesse à beira de uma catástrofe apressaram a inevitável transição para o G-20, uma organização que inclui os maiores e mais importantes países emergentes. As primeiras reuniões do clube - Washington, em novembro de 2008, e Londres, em abril de 2009 - produziram um acordo sobre a expansão monetária e fiscal conjunta, aumentaram o financiamento do FMI e criaram novas regras para instituições financeiras. Esses sucessos se deram, sobretudo, porque todos os membros se sentiam ameaçados pelos mesmos flagelos.

Mas tão logo começou a recuperação econômica, a sensação de crise abrandou. Ficou claro que a China e outras grandes economias em desenvolvimento haviam sofrido menos danos e se recuperariam mais rapidamente que os países mais ricos. Bancos chineses e indianos tinham ficado menos expostos que os ocidentais aos efeitos de contágio do derretimento de bancos americanos e europeus. Ademais, as reservas externas da China haviam protegido seu governo e seus bancos do pânico de liquidez que tomou conta do Ocidente. A capacidade de Pequim de direcionar gastos estatais para projetos de infraestrutura gerou novos empregos, aplacando temores de que o declínio da demanda de consumo americana e europeia pudesse desencadear um desemprego em larga escala e agitações sociais na China.

Ao mesmo tempo, o medo e a frustração do Ocidente se intensificavam. Nos EUA, o desemprego alto e temores de um duplo mergulho recessivo alimentaram um aumento do ativismo antigoverno e deslocaram poder para os republicanos. Governos perderam popularidade na França e na Alemanha - e foram derrotados em eleições no Japão e no Reino Unido. Crises fiscais provocaram intenso ódio público da Grécia à Irlanda, dos Estados bálticos à Espanha.

Paralelamente, Brasil, China, Índia, Turquia e outros países em desenvolvimento avançaram, enquanto o mundo desenvolvido permanecia atolado numa recuperação anêmica. (Ironicamente, o único grande país em desenvolvimento que teve dificuldade para se recuperar foi a petrolífera Rússia, o primeiro a ser recebido no G-7.) À medida que as necessidades e interesses dos países ricos e dos em desenvolvimento começavam a divergir, o G-20 e outras instituições internacionais perderam o sentido de urgência necessário para produzir respostas de política multilateral coordenadas e coerentes.

Políticos de países ocidentais, golpeados por críticas de que não haviam conseguido produzir uma recuperação robusta, arranjaram bodes expiatórios no exterior. As tensões políticas sino-americanas aumentaram nos últimos meses. A China continua a desafiar os apelos de Washington para permitir um aumento substancial do valor de sua moeda. Autoridades de Pequim insistem em que precisam proteger o país durante um momento delicado de seu desenvolvimento, enquanto os legisladores em Washington se tornaram mais sérios sobre adotar medidas contra as políticas comercial e monetária da China, que consideram injustas. Nos três últimos anos, houve um forte aumento do número de casos - comerciais, domésticos e na OMC - que China e EUA moveram um contra o outro. Enquanto isso, o G-20 mudou de uma instituição internacional modestamente eficaz para uma arena ativa de conflitos.

Não há nada de novo nessas disputas e inércias. Quatro décadas depois do Tratado de Não Proliferação Nuclear, por exemplo, as grandes potências não chegaram a um acordo sobre como construir e manter um regime que barre a disseminação das armas e tecnologias mais perigosas. Aliás, a política de defesa global sempre foi um jogo de soma zero, à medida que um país ou bloco de países trabalha para aumentar ao máximo sua capacidade de defesa de maneira que desafie a proeminência militar dos rivais.

O comércio internacional é um jogo diferente. Ele pode beneficiar todos os jogadores, mas a divergência de interesses econômicos na esteira da crise financeira minou a cooperação econômica internacional, jogando areia nas engrenagens da globalização. No passado, a economia global se apoiou em poderes hegemônicos - o Reino Unido nos séculos 18 e 19 e os EUA no século 20 - para criar o arcabouço de segurança necessário para o livre mercado, o livre comércio e a mobilidade de capitais. Mas a combinação da influência declinante de Washington, de um lado, com fortes divergências políticas, de outro - entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e entre os EUA e a Europa -, criou um vácuo de liderança no justo momento em que era mais necessária.

Nos últimos 20 anos, a despeito de suas diferenças sobre questões de segurança, os governos dos principais países desenvolvidos e em desenvolvimento do mundo tiveram objetivos econômicos comuns. O crescimento da China e da Índia proporcionou aos consumidores ocidentais acesso aos mercados de crescimento mais rápido no mundo e ajudou as autoridades americanas e europeias a lidarem com a inflação mediante a importação de produtos e serviços baratos. Estados Unidos, Europa e Japão ajudaram economias em desenvolvimento a criar empregos com a compra de volumes enormes de suas exportações e mantendo uma relativa estabilidade na política internacional.

Nos próximos 20 anos, porém, as negociações sobre questões econômicas e comerciais serão impulsionadas pela competição, como ocorreu com os debates recentes sobre não proliferação nuclear e mudanças climáticas. A Rodada Doha está tão extinta como o pássaro dodô, e a OMC não consegue administrar o aumento de pressões protecionistas que deslanchou com a recessão.

Conflitos sobre liberação comercial jogaram EUA, União Europeia, Brasil, China, Índia e outras economias emergentes uns contra os outros na medida em que cada governo tenta proteger os próprios trabalhadores e indústrias. Autoridades de países europeus se queixaram de que a alíquota fiscal corporativa da Irlanda é baixa demais e no ano passado pressionaram o governo irlandês a aceitar um salvamento de que carecia, mas não queria. Os lemães resmungam contra a necessidade de salvar países europeus mais pobres, e os cidadãos do sul da Europa atacam a falta de disposição de seus governos de gastarem acima de seus meios.

Antes da cúpula do G-20 de novembro em Seul, autoridades brasileiras e indianas se juntaram a suas congêneres americanas e europeias para reclamar que a China manipula o valor de sua moeda. Mas, quando os americanos levantaram a questão durante o fórum, o ministro da Fazenda do Brasil reclamou que a política americana de "afrouxamento quantitativo" significava a mesma prática injusta, e o ministro das Relações Exteriores da Alemanha descreveu a política americana como "tola".

Outros desacordos intratáveis incluem debates sobre subsídios aos agricultores nos EUA e Europa, proteção de direitos de propriedade intelectual e imposição de medidas antidumping e tarifas compensatórias. Preocupações sobre o comportamento de fundos soberanos limitaram a capacidade de alguns deles de adotar posições controladoras em companhias ocidentais, particularmente nos EUA. E a corrida da China para garantir acesso de longo prazo a recursos naturais - que levou Pequim a comprar agressivamente commodities na África, América Latina e em outros mercados emergentes - está atiçando o conflito com Washington.

O protecionismo financeiro e de ativos também está em alta. Uma companhia petrolífera estatal chinesa tentou comprar a empresa americana de energia Unocal em 2005, e um ano depois a estatal Dubai Ports World tentou comprar uma empresa que lhe permitiria operar portos americanos: os dois casos provocaram um furor político em Washington. Esses foram simplesmente precursores de atos similares de protecionismo de investimentos na Europa e na Ásia. Aliás, há poucas diretrizes internacionais estabelecidas para o investimento estrangeiro direto - definindo o que se qualifica como "infraestrutura crítica", por exemplo - e esse é o tipo de problema que não será tratado satisfatoriamente no cenário internacional.

A fonte mais importante de conflito internacional poderá vir de debates sobre a melhor maneira de impedir que um derretimento econômico internacional torne a ocorrer. A futura estabilidade monetária e financeira global requererá uma coordenação internacional muito maior sobre a regulação e supervisão do sistema financeiro. Pode-se até requerer um super-regulador global, dado que, enquanto o capital é móvel, as políticas financeiras permanecem nacionais. Mas os governos de países em desenvolvimento temem que a criação de regras internacionais mais rígidas para empresas financeiras os atariam aos sistemas financeiros das próprias economias ocidentais que eles culpam pela criação da presente crise. E há desacordos significativos entre economias avançadas sobre como reformar o sistema de regulação e supervisão de instituições financeiras.

Os desequilíbrios comerciais globais continuam amplos e estão crescendo, aumentando o risco de guerras cambiais - não só entre EUA e China, mas também entre outras economias emergentes. Não há nenhuma novidade nesse tipo de desentendimentos. Mas a situação ainda frágil da economia global torna muito mais urgente sua solução, e o vácuo de liderança internacional tornará sua resolução profundamente difícil de atingir. /

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

IAN BREMMER É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP E AUTOR DE THE END OF THE FREE MARKET (PENGUIN USA)

NOURIEL ROUBINI É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK E COAUTOR DE CRISIS ECONOMICS (PENGUIN USA)I

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