''O mundo voltará a desacelerar em 2010 ou 2011''

Para o ex-sócio de George Soros, a crise econômica ainda não foi superada, mas o Brasil será um[br]dos últimos a desacelerar

Luciana Xavier, AGENCIA ESTADO, O Estadao de S.Paulo

29 de outubro de 2009 | 00h00

Entrevista

Jim Rogers: investidor

A crise econômica ainda não ficou para trás, apesar dos sinais de melhora. Na verdade, o mundo deve voltar a desacelerar em 2010 ou 2011. A avaliação é do investidor americano James Rogers, ou Jim Rogers como é mais conhecido.

Rogers ganhou fama por ter fundado, junto com George Soros, o fundo de investimentos Quantum Fund, nos anos 70. Em dez anos, o portfólio do fundo ganhou cerca de 4.000%. Rogers saiu da Quantum em 1980 para dar a volta ao mundo numa motocicleta, bem antes de Soros vencer o Bank of England numa disputa de mercado e forçar a desvalorização da libra, em 1992. Hoje mora em Cingapura, por acreditar que a Ásia é o melhor lugar para se estar, como outrora foi Londres ou Nova York.

Rogers concedeu entrevista por celular, ao AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado, enquanto se exercitava em sua bicicleta ergométrica. A seguir, trechos da entrevista:

Devemos falar somente de recuperação global daqui para a frente?

Devemos falar de recuperação global, mas alguns países estão se recuperando melhor que outros, e quando a próxima desaceleração vier, os países que estão em pior situação vão sofrer ainda mais.

Quando virá essa próxima desaceleração?

Em 2010, talvez 2011. Virá mais cedo em alguns países. O Brasil será um dos últimos a desacelerar e deve sentir menos que os outros. Ainda temos governos imprimindo quantias gigantescas de dinheiro, e isso sempre leva a mais problemas. Teremos mais problemas porque dar aspirina para um paciente com câncer não adianta. É preciso tratar a doença, mas o que vemos é que estão tornando os problemas ainda mais graves.

Os EUA não mergulharam numa grande depressão como alguns previram. Foi por causa dos homéricos estímulos fiscais e monetários ou porque houve pessimismo demais em algumas previsões?

Bom, isso não acabou ainda. Quando houve a crise nos anos 30, ela só foi virar uma grande depressão dois ou três anos depois de 1929. Os governos cometeram muitos erros nos anos 30 que levaram à Grande Depressão. E, até agora, em minha opinião, os governos estão errando de novo e podemos muito bem ter economias ainda piores nos próximos dois ou três anos.

O que mais pode ser feito então?

O que deveriam ter feito primeiramente era deixar que houvesse falências. Quando há falência, as pessoas competentes tomam os ativos falidos, fazem uma reorganização e começam de novo. É normalmente doloroso por dois ou três anos. O que a América está tentando fazer é seguir o modelo do Japão, que não funcionou. O Japão ainda não se recuperou depois de 19 anos porque se recusou a deixar que qualquer um declarasse falência. Eles ficaram com bancos zumbis e ainda pagam por isso.

Se haverá mais desaceleração, para quando podemos esperar uma retomada consistente?

Vai depender de como vão reagir as economias do mundo. Ninguém sabe ao certo. Se os governos continuarem cometendo erros, pode levar vários anos. Talvez a América tenha uma ou duas décadas perdidas. O que sei ao certo é que até agora eles estão fazendo as coisas erradas, o que não permitirá que se veja uma recuperação real tão cedo.

Qual será o motor da economia global nos próximos anos?

A agricultura será um setor muito estimulante nos próximos 10 a 20 anos. Mineração, petróleo e energia terão um bom futuro. Então, se você está no setor e país certos você se dará melhor. Se você vender para os EUA, você vai sofrer. Se você for agricultor, você será beneficiado. Se estiver em negócios de água na China vai se dar extremamente bem.

O sr. vê o risco de a próxima bolha estourar na Ásia?

A próxima bolha será no mercado de bônus dos Estados Unidos. É insano o que está acontecendo lá. Os EUA estão imprimindo muito dinheiro e o banco central americano está comprando muitos bônus. Isso levará a um desastre. E haverá muitas outras bolhas, não se preocupe (risos).

Onde o sr. investe seu dinheiro?

Meu dinheiro está principalmente em commodities e moedas que não sejam o dólar. Embora eu tenha hoje mais dólar americano do que tinha dois ou três meses atrás. Possivelmente haverá um rali do dólar americano, porque há muitas pessoas, como eu, pessimistas em relação à moeda. Espero ser bastante esperto para vendê-los na hora certa, quando houver esse rali.

O sr. tem investimentos no Brasil?

Não, não tenho no momento. Embora invista indiretamente, porque invisto em commodities, invisto em açúcar e vocês produzem muito açúcar... Invisto em todo tipo de commodities e você produzem muitas commodities. Nesse sentido, invisto sim. Mas não tenho aplicações em ações ou na moeda (real), porque prefiro esperar mais para ver o que acontecerá no País. Vendi todas ações de países emergentes há uns dois anos, com exceção da China, porque havia muita gente nesses mercados, e ainda não voltei a comprar. Acredito que mais problemas virão nos próximos dois anos e, se isso acontecer, se houver um colapso, aí sim voltarei a comprar de emergentes.

De quem o sr. segue conselhos na hora de decidir os investimentos?

Apenas os meus. Não falo com brokers, com ninguém. Eu fico confuso quando converso com outras pessoas. Sigo minhas leituras, minhas pesquisas e meu pensamento.

Então não seguiria um conselho de seu ex-sócio George Soros?

Já disse: não sigo ninguém.

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