O nó eleitoral afegão

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, é um intrincado problema para os Estados Unidos. Já não bastassem a corrupção e o autoritarismo de seu governo, que auxiliou o Taleban a recrutar simpatizantes, ele procurou se reeleger no pleito de 20 de agosto graças a uma fraude colossal. Um comitê fiscalizador credenciado pela ONU acabou anulando mais de 900 mil dos 2,1 milhões de votos que, se fossem validados, manteriam Karzai no poder sem a necessidade de um segundo turno. A depuração das urnas reduziu a sua maioria de 54% para 49% do total. O seu principal adversário, o ex-chanceler Abdullah Abdullah, viu o seu porcentual aumentar de 28% para 32%.

, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2009 | 00h00

Sob intensa pressão dos EUA e da Grã-Bretanha, Karzai concordou com a realização do segundo turno que ele tentara evitar por todos os meios. Fez um discurso dizendo que era hora de seguir em frente, mas silenciou sobre a extravagante lambança que patrocinara. Os seus aliados ocidentais participaram da farsa. O presidente Barack Obama afirmou que a decisão de Karzai estabeleceu um precedente importante para "a nova democracia afegã". O primeiro-ministro Gordon Brown o chamou de "estadista". A eleição foi marcada para 7 de novembro. A urgência se explica pela aproximação do inverno, que lá é rigoroso. Mas nada garante que as autoridades consigam organizar o escrutínio em um par de semanas nem que os partidários de Karzai deixem de recorrer à fraude.

Por fim, é certo que o Taleban tentará novamente aterrorizar os eleitores. Em agosto, mais de 20 foram mortos em atentados. Enquanto o nó eleitoral não for desfeito, Obama terá escassas condições de anunciar a sua esperada estratégia para mudar o rumo da guerra que os EUA travam há oito anos contra a Al-Qaeda e os seus apoiadores taleban. Washington precisa ter certeza de contar em Cabul com um parceiro dotado de credibilidade antes de decidir se enviará novas tropas ao país. O comandante dos EUA no Afeganistão, general Stanley McChrystal, defendeu o envio de mais 40 mil homens, o que elevaria a cerca de 110 mil o total de soldados americanos em solo afegão. A ideia foi rechaçada pelo vice-presidente Joe Biden e por líderes do Partido Democrata. Os republicanos a apoiam entusiasticamente.

Enquanto Obama promove sucessivas reuniões do seu conselho de guerra, em busca de uma saída para o atoleiro que ameaça transformar o Afeganistão em um segundo Vietnã, pesquisas indicam que apenas 40% dos americanos apoiam o engajamento dos EUA naquela que o presidente considera "uma guerra necessária" (por oposição à "guerra de escolha" no Iraque). O governo americano considera que o Afeganistão é o santuário da Al-Qaeda - que representa uma ameaça real ao mundo -, embora deva existir mais terroristas da facção no Paquistão, no Iêmen e mesmo na Somália do que no próprio Afeganistão. Por isso mesmo, argumentam os opositores do plano de McChrystal, o certo seria concentrar as operações para dizimar a organização terrorista e tratar o Taleban estritamente como um problema interno afegão.

A questão é saber se é possível dissociar os dois movimentos. E, ainda que fosse, argumentam os céticos, se a estratégia americana se limitar a ações de contraterrorismo a cargo de forças especiais e de aviões não tripulados, o Afeganistão mergulhará numa guerra civil entre militantes e inimigos do Taleban. O conflito transbordará de vez para o vizinho Paquistão, onde a Al-Qaeda também se instalou. O que leva a perguntar se Obama tem realmente escolha. Mas a intensificação da presença militar americana, com vistas a retomar a iniciativa no terreno, depende vitalmente do tipo de governo a que os EUA se associem, para não parecer aos afegãos uma ocupação imposta por uma potência colonial, mas uma força destinada a estabilizar o país e proporcionar segurança aos seus habitantes.

Nesse sentido, o respaldo a Karzai, com a sua corrupção em escala industrial e intimidação sistemática dos líderes tribais, não poderia ser mais contraproducente. "A insurgência liderada pelo Taleban", observou dias atrás o colunista Thomas Friedman, do New York Times, "é cada vez mais uma insurreição contra o comportamento do governo Karzai." Poderão os EUA mudar esse padrão?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.