O pai da Geografia brasileira

Professor emérito da FFLCH-USP foi pioneiro na investigação da formação das paisagens brasileiras e ajudou a construir uma mentalidade conservacionista no País

GIOVANA GIRARDI, HERTON ESCOBAR, O Estado de S.Paulo

17 Março 2012 | 03h06

Memória

Foram com as palavras do geógrafo Aziz Nacib Ab'Saber, que descreveu com precisão as paisagens brasileiras, que o País começou, há pouco mais de 60 anos, a conhecer em profundidade seus biomas. Ao longo dessas décadas de pesquisa, o professor da Universidade de São Paulo elaborou teorias fundamentais para o conhecimento dos aspectos naturais do Brasil, mantendo-se ativo até a véspera de sua morte. Ontem pela manhã, aos 87 anos, teve um enfarte fulminante em sua casa em Cotia (SP).

Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Ab'Saber foi um dos mais importantes estudiosos da geomorfologia brasileira, desenvolvendo ao longo da carreira mais de 300 artigos e tratados de significativa relevância internacional nas áreas de ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia e arqueologia e, claro, de geografia.

Teve também um papel de liderança no desenvolvimento de uma consciência conservacionista no Brasil. Sua teoria dos refúgios e redutos, segundo a qual durante a última glaciação a Amazônia teria se reduzido a pequenas reservas, "criou uma base para identificação de áreas de grande relevância para a conservação da biodiversidade, coisa que não era valorizada antes dos trabalhos dele", afirma João Paulo Capobianco, ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente.

Presidente de honra, ex-presidente e conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), vinha visitando a sede da entidade com frequência nas últimas semanas para a preparação do terceiro volume da coleção Leituras Indispensáveis, ainda a ser publicado.

Ruth Andrade, secretária-geral da SBPC, conta que na quinta-feira ele esteve lá muito "ativo e lúcido". Levava de presente sua obra consolidada, de 1946 a 2010, em um DVD. Ruth afirma que ele ainda pediu para que o material seja distribuído a amigos, colegas da universidade e estudantes nos eventos da SBPC. "Será agora a nossa missão", diz.

"Acredito que Aziz era um caso raro de casamento entre ser cientista e ser humanista. Ao mesmo tempo em que ele tinha um conhecimento incrível, não só de geografia, mas de várias áreas, ele tinha a perspicácia de fazer a relação desses assuntos com o cotidiano das pessoas."

Apesar da idade, Aziz continuava em atividade e polêmico. Em várias oportunidades se mostrou contrário ao alarmismo em torno do aquecimento global, reforçando que era necessário conhecer seu fundo natural. "Ele conhecia todos os aspectos da história geomorfológica e das modificações ao longo do tempo, por isso defendia o peso das questões naturais", diz Ruth.

Recentemente também estava engajado contra as mudanças do Código Florestal no Brasil. Em 2010, no encontro anual da SBPC, sugeriu que ele fosse substituído por uma legislação ainda mais abrangente, um Código da Biodiversidade, como o chamou. Ele justificou que a Caatinga, por exemplo, não é uma floresta, mas também é um bioma que precisa ser preservado. Suas opiniões foram defendidas em artigo na revista Biota Neotrópica (mais informações nesta pág.).

"Vai fazer muita falta, especialmente neste momento crítico de discussão do Código Florestal, pois era uma voz muito respeitada por todos os lados do debate", comentou o biólogo da Unicamp Carlos Joly.

Ele conta que os dois se conheceram durante a Assembleia Nacional Constituinte, quando Aziz elaborou uma proposta de capítulo sobre meio ambiente para a Constituição, que ajudou a formatar o capítulo final. "Ele sempre foi uma personalidade muito engajada. Tanto na ciência quanto na responsabilidade social dos pesquisadores."

Fã-clube. "Praticamente um irmão" de Ab'Saber, um dos pioneiros da climatologia no Brasil, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, conta que o geógrafo começou a fazer sucesso na área quando era ainda um estudante. "Ele era tão brilhante que tinha até um fã-clube", brinca.

Sua notoriedade, lembra Monteiro, ganharia projeção internacional no primeiro congresso da União Geográfica Internacional no Hemisfério Sul, em 1956, no Rio. "O evento estava cheio de grandes figuras, mas Aziz brilhou. Ele tinha estatura para impressionar geógrafos de todo o mundo. Mostrou que a geografia brasileira podia divulgar em pé de igualdade com eles."

É autor de diversos livros, entre eles, Amazônia: do discurso à práxis, onde mostra que as políticas que nortearam a exploração da região foram responsáveis por uma catástrofe econômica, ecológica e humana. Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios como o Prêmio Jabuti em Ciências Humanas e em Ciências Exatas e o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Deixa mulher e três filhos. O enterro será realizado hoje, às 11h, no Cemitério da Paz (Rua Doutor Luís Migriano, 644, Morumbi, São Paulo).

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