O papa comilão

Quase todas as religiões atribuem o exercício da gula à falta de autocontrole. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) aprofundou essa convicção. Classificou o gosto de ingerir alimentos mais do que o necessário como pecado capital, ao lado da vaidade (depois substituída pela soberba), avareza, luxúria, ira, inveja e acídia (hoje preguiça). Isso não impediu que, desprezando a lição do filósofo e teólogo que elaborou o mais importante sistema de ideias da Igreja Católica, alguns papas da Idade Média dessem mau exemplo aos fiéis. O primeiro comilão a ser lembrado é o francês Martinho IV (1281-1285), nascido Simon de Brion, que antes de ser eleito pontífice foi tesoureiro da antiga Igreja de São Martinho, em Tours, no Vale do Loire. Não que tenha sido o maior dos glutões. Mas sua reputação se encontra documentada no canto XXIV do Purgatório, uma das três partes da Divina Comédia, o genial poema épico e teológico de Dante Alighieri (1265-1321): "Teve (ele) a Santa Igreja nos braços:/foi do Torso, e purga por jejum/ as enguias de Bolsena e a vernaccia".   No século 14, esse verso foi interpretado pelo bolonhês Jacopo della Lana, primeiro a comentar integralmente A Divina Comédia. O papa comilão "teve a Santa Igreja nos braços" por ser o seu chefe mundial; "foi do Torso" se referia à cidade de Tours, onde trabalhou; "purga por jejum" mencionava a pena a que foi submetido, no Purgatório, por ser glutão; "as enguias" eram os peixes de corpo cilíndrico, assemelhado ao das serpentes, porém de alta reputação gastronômica, que o papa mandava pescar; "Bolsena" indicava o grande lago, na província italiana de Viterbo, no qual elas existiam em profusão; "vernaccia" se reportava ao vinho favorito do pontífice, um branco licoroso da região de Gênova, elaborado com a uva do mesmo nome. Martinho IV tinha apetite voraz e comia qualquer coisa. Mas amava, em especial, as enguias do Bolsena, de carne excepcionalmente macia e delicada. O cozinheiro pontifício as marinava no vernaccia. Martinho IV comia até se fartar, pois não respeitava limites à mesa.   Sucessivos carroções, repletos de enguias, chegavam a Orvieto, na região da Úmbria, onde ele passou boa parte do pontificado de quatro anos, incapaz de se instalar em Roma, cuja população apoiara um candidato vetado no conclave turbulento que o elegeu. Outra cidade na qual morou foi Montefiascone, no Lácio, afortunadamente na vizinhança do piscoso Bolsena.   No século 19, o escritor italiano Niccolò Tommaseo, também estudioso de A Divina Comédia, ao comentar o XXIV canto do Purgatório, contou que o peixe favorito do papa inspirou a primeira inscrição afixada no seu túmulo: "Alegram-se as enguias porque aqui jaz aquele que (...) tirava a pele delas." A brincadeira atiçava a crendice do povo, que as julgava ingredientes suspeitos. Na Idade Média, muitas pessoas achavam que, esfregando na pele o óleo da enguia, adquiriam o dom de enxergar fadas e enganar os dragões. E, para completar, confundiam o peixe com a serpente, símbolo do pecado original.   O papa que passou à história mais pelo apetite do que pelo trabalho pastoral foi escolhido graças à ingerência do poder temporal na vida eclesiástica, tão comum na Idade Média. O igualmente francês Carlos de Anjou - o inescrupuloso rei da Sicília e Nápoles, irmão de Luis IX, da França, o soberano exemplar que a Igreja Católica elevou à glória dos altares - empenhou-se pessoalmente na eleição de Martinho IV. Necessitava de um pontífice que o apoiasse na política expansionista. Mandou prender dois cardeais opositores, ambos italianos, impedindo-os de participar do conclave. Conseguiu que Martinho IV fosse "escolhido" por unanimidade. Subindo ao trono, o novo pontífice se mostrou fiel ao padrinho. A pedido de Carlos de Anjou, excomungou o imperador bizantino Miguel VIII Paleólogo, que impedia o ambicioso rei da Sicília de restaurar o Império Latino do Ori-ente, estabelecido depois da Quarta Cruzada. Não por acaso, o papa morreu obeso, vitima de indigestão associada a um fulminante ataque de apoplexia.  

Dias Lopes, jadiaslopes@gmail.com,

11 Março 2010 | 10h16

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