Todd Heisler/NYT
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O peso do não dito

Poucos notaram, mas o destino mais importante não era Cuba, e sim México, o segundo país com maior população católica do mundo

Francisco Borba Ribeiro Neto,

31 Março 2012 | 16h58

Um papa viaja para fortalecer a fé e não para fazer política. Mas as consequências políticas de seu agir são inevitáveis e, por isso, ele tem uma responsabilidade para com todos os habitantes dos países que visita. Isso está bem claro para o Vaticano desde as primeiras viagens de João Paulo II e é um pressuposto necessário para bem entender qualquer viagem papal.

A América Latina é, atualmente, o continente com maior porcentagem de católicos praticantes no mundo - apesar da perda de fieis para o pentecostalismo. Mas, em seu pontificado, Bento XVI esteve relativamente distante do continente. Em igual período, seu antecessor já havia visitado a região cinco vezes, enquanto ele, como papa, havia vindo somente uma vez, na visita ao Brasil.

Isso não deixa de ser um reflexo da conjuntura global. Os conflitos com o mundo islâmico, o crescimento econômico dos países asiáticos, a imigração dos “extracomunitários” e a crise econômica na Comunidade Europeia deslocaram os centros de atenção internacionais, com uma perda da importância relativa do continente. O problema se agravou na medida em que o papa, enquanto cardeal Ratzinger, foi o “bode expiatório” dos choques entre a Teologia da Libertação e o Vaticano. As discordâncias não podem ser imputadas a uma pessoa apenas, mas o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé - cargo de Ratzinger na época - é quem devia assinar as sanções contra os teólogos da libertação. Isso gerou um preconceito que tem dificultado a interlocução entre Bento XVI e parte das lideranças eclesiais e laicas do continente.

Assim, a viagem ao México e a Cuba teve, entre seus objetivos, aprofundar uma interlocução e recuperar uma proximidade que havia sido perdida nos anos recentes. Bento XVI não exerce o mesmo fascínio sobre as multidões de João Paulo II, mas o balanço de suas viagens tem sido positivo. A proximidade tem servido para desfazer o estereótipo de “dobermann da fé” e angariar simpatias entre os que não o conheciam.

Comparada com outras viagens, como as feitas ao Brasil (2007) e à Alemanha (2011), esta se caracterizou pela ausência de grandes discursos conceituais. As homílias e pronunciamentos reafirmam pontos bem conhecidos do magistério tanto de Bento XVI quanto de João Paulo II. O papa não estava preocupado em passar mensagens ou dar recados, mas em estar junto, em recuperar uma proximidade.

Na entrevista coletiva que deu no voo para o México, Bento XVI explicitou as razões dessa postura. Para ele, as bases do cristianismo latino-americano vêm “do coração”. Para um pensador formado na escola de Santo Agostinho, o coração não se reduz ao sentimento, representa a síntese do desejo e do próprio ser humano - mas não deixa de ser o território privilegiado dos afetos e não dos conceitos.

Se o cristianismo latino-americano é fundado no coração, para os cristãos latino-americanos a proximidade física, o ver e o tocar, são fundamentais. E é essa proximidade que Bento XVI vem buscando criar e o orientou nessa viagem.

A busca pelo coração dos fiéis não representa, contudo, uma renúncia ao diálogo entre fé e razão. Na mesma entrevista, o papa afirma que a intuição do coração deve se ligar à razão iluminada pela fé, inclusive para poder ser incidente sobre a realidade social - pois Bento XVI nunca deixou de concordar que a luta contra as injustiças sociais era uma questão prioritária para os católicos no continente.

No conjunto de suas observações sobre coração e razão na fé latino-americana, o papa acabou por sugerir um juízo peculiar sobre a ação das igrejas no continente. Não teria a Igreja Católica se afastado dos seus fiéis ao optar por um caminho político-ideológico, no qual não atendeu ao coração das pessoas? Mas, por outro lado, a ênfase nesse coração sem uma racionalidade capaz de acompanhar a experiência religiosa não teria levado a uma série de fundamentalismos alienantes, incapazes de enfrentar os problemas da realidade e abrir os fiéis para a beleza da vida?

Poucos notaram, mas, nessa viagem, o destino mais importante não era Cuba, e sim México. Trata-se de um dos dois maiores centros culturais da América espanhola, juntamente com a Argentina, ponte entre o continente e os Estados Unidos - além de ser o segundo país com maior população católica do mundo. Mais de 80% dos mexicanos são católicos - e se diz que 100% são devotos da Virgem de Guadalupe.

Contudo, é o país latino-americano onde, historicamente, a perseguição à Igreja Católica foi mais sistemática e violenta. Nos últimos 150 anos, essa perseguição ocasionou intervenções governamentais nas instituições católicas, limitações ao culto e ao exercício do sacerdócio, duas insurreições armadas e milhares de padres e líderes católicos assassinados. Trata-se do mais claro exemplo contemporâneo do princípio cristão de que a Igreja cresce na perseguição e no martírio e fenece na comodidade e na opulência.

O que em outras partes do continente pode parecer tradicionalismo religioso, no México se apresentou historicamente como resistência cultural diante de um laicismo exacerbado. Aqui, as visitas de João Paulo II e esta de Bento XVI marcam uma nova fase de tolerância religiosa e diálogo Igreja-Estado.

O perigo do catolicismo mexicano é fechar-se em seus valores tradicionais e perder a capacidade de se renovar diante das mudanças político-culturais. Bento XVI sublinhou, em seus pronunciamentos no México, o papel do catolicismo na formação das nações latino-americanas e a importância do cristianismo como fonte de solidariedade e esperança. Mas, para observadores católicos locais, o mais importante foi seu convite à superação do “cansaço da fé”. Nesse sentido, o gesto exterior, representado pela presença de cerca de 3 milhões de pessoas na missa campal e o clima de festa que tomou grande parte do país, e o conteúdo da mensagem coincidem, numa exortação à renovação da experiência religiosa católica no continente.

Com relação a Cuba, Bento XVI defendeu a liberdade política e religiosa e condenou o isolamento econômico imposto ao país pelos Estados Unidos, além de ter comentado o fracasso do marxismo na construção da sociedade cubana atual (mas isso é uma obviedade reconhecida até pelos irmãos Castro). Contudo, na ilha, ainda mais que em outros lugares, o importante não foi o que ele disse, mas o que de fato aconteceu em razão de sua visita. Nenhum outro visitante internacional sacudiu de tal forma a sociedade cubana.

A visita papal colocou a nu as contradições do poder na ilha, seu crescente enfraquecimento e sua necessidade de apelar para a truculência e a força para sustentar-se. As consequências dessa visita não nascem de o papa ter ou não recebido dissidentes políticos, ter ou não falado em favor deles, mas do constrangimento que impôs ao regime cubano, obrigado a aparentar legitimidade enquanto tentava reprimir a todo custo as manifestações de descontentamento.

O regime cubano não cairá porque o Bento XVI esteve lá, o catolicismo latino-americano não se renovará apenas com uma visita papal. Mas essa viagem mostrou que o papa continua sendo um sinal de esperança.

* Francisco Borba Ribeiro Neto é sociólogo e coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Puc-SP

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