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O peste genovês

Anjo avacalhador da casta italiana, Beppe Grillo faz a catarse de um povo cansado de ser esbulhado pelas múmias de sempre

Sérgio Augusto,

26 Maio 2012 | 17h43

Você abre os jornais, lê as manchetes com as últimas do Demóstenes Torres, do Cachoeira, do Sarney, das manobras da Câmara contra a punição de contas-sujas, das picaretagens da Delta, dos impunes delitos cometidos pelos três poderes, e se pergunta, uma vez mais: o que fazer?

Minha modesta proposta - modesta no sentido swiftiano da palavra - é importar da Itália um sujeito de 63 anos chamado Giuseppe Piero Grillo, mais conhecido como Beppe Grillo. Com um nome na medida para aqui se aclimatar facilmente, Zé Grilo não causaria furor somente em Brasília. Humorista e agitador político, Grillo é o anjo avacalhador das elites política e financeira da Itália, o mais desassombrado, pertinaz e zombeteiro fiscal dos vícios e maracutaias do que lá sintetizaram na palavra "casta", um bully dos pinóquios públicos e privados, um Michael Moore al sugo - ou melhor, al pesto, pois o homem é genovês.

Não, não temos similar nacional. Daí a importação. C.Q.C. são três, Casseta & Planeta são quatro ou cinco, Grillo é um só. Tem quase o mesmo peso de Jô Soares, mas, a despeito do papel catártico do talk show Jô Onze e Meia durante a crise que levou ao impeachment do presidente Collor de Mello, só na balança os dois se comparam. Nem o televisivo americano Stephen Colbert, dublê de ator, humorista e nêmesis pândega da "casta" de Washington, ombreia com o Grilo Alto-Falante da insatisfação italiana, cujo raio de (goz)ação não se restringe ao palco, ao vídeo e às livrarias.

Grillo comanda passeatas, espetáculos-comícios, ocupa praças, bagunça coretos, denunciando escândalos e falcatruas, indigitando larápios, fazendo a catarse de um povo cansado de ser tutelado e esbulhado pelas mesmas múmias (o democristão Giulio Andreotti foi sete vezes primeiro-ministro entre 1972 e 1992, e Berlusconi três vezes em dez anos). Em 2010 criou um partido, Movimento 5 Stelle, que é a maior novidade política da Itália dos últimos não sei quantos anos. E a mais bem-sucedida nas urnas também.

Em seu primeiro teste eleitoral, o M5S (as estrelas identificam os principais pontos de sua plataforma: água, meio ambiente, transporte, conectividade e crescimento econômico) obteve 1,8% dos votos que disputou. No segundo, no fim da semana passada, amealhou diversas zonas eleitorais do país e, contra todos os prognósticos, elegeu o prefeito de Parma, com 60% dos votos.

Na adolescência o inquieto Beppe animava as festas com imitações de James Brown, que afinal lhe resultaram mais úteis que os estudos de economia e contabilidade. Apadrinhado pelo apresentador Bippo Baudo, entrou para a TV e por dois anos, no final da década de 1970, participou do programa de variedades Secondo Voi. Nos similares Luna Park e Fantastico expandiu sua audiência, até estourar com duas séries de especiais sobre os Estados Unidos e o Brasil, no início dos anos 1980: Te lo Do Io l’America (quatro episódios) e Te lo Do Io il Brasile (seis episódios).

Pois é, Grillo já andou nestas bandas, fazendo reportagens de rua, filmando favelas, curtindo o carnaval carioca, gozando com a nossa cara. Há trechos da série no YouTube. Fã do Brasil, não seria difícil cooptá-lo, certo? Errado. As mazelas da Itália, tantas e tamanhas, prometem monopolizar sua militância por alguns lustros. Noves fora os escândalos conhecidos, o orçamento anual da presidência é quase quatro vezes maior que o do Palácio de Buckingham; deputados e senadores ganham mais que o dobro dos parlamentares franceses e quase o quádruplo dos legisladores espanhóis. Fora as mordomias, que só não soam inacreditáveis se comparadas às dos nossos congressistas.

Seu prêmio pelo sucesso dos especiais foi um show exclusivo, Grillometro, e o estrelato numa campanha publicitária do iogurte Yomo. Ocorreu naquela virada o seu desvio para a sátira política. Em 1987, depois de anarquizar um punhado de parlamentares, atacou o Partido Socialista (PSI) e o então primeiro-ministro Bettino Craxi, quando este visitava a China. Com um comentário que acertou em cheio o totalitarismo chinês e a corrupção dos socialistas italianos: "Se todos os chineses são socialistas, de quem eles roubam?"

E assim se deu o primeiro banimento de Grillo da televisão estatal. Sua vingança veio com a rapidez de um TGV. Comprometido com uma rede de corrupção do PSI, Craxi teve de fugir para não ser preso. Mandou-se para a Tunísia, de onde nunca mais voltou.

De novo no ar, o peste genovês delatou fraudes, casos de logro fiscal, atividades financeiras ilegais, atingindo piques de audiência formidáveis (16 milhões de telespectadores, quase 30% da população italiana), mas incômodos para o governo, que pela segunda vez o baniu da RAI. Sobrou-lhe o canal pago TELE+, do grupo francês Canal+, com o qual acertou contrato sem exigir salário. A arena lhe bastava. Nela combateu a endêmica corrupção política e corporativa e discutiu temas polêmicos como entraves à energia renovável, abusos financeiros, iniquidades da globalização, atentados à liberdade de expressão, exploração da mão de obra infantil.

A sopa acabou em meados de 2002, depois que Rupert Murdoch comprou o TELE+ aos franceses, só restando ao bicho-grilo flamante levar sua indignação para os teatros, as praças e a internet. Obrigado a reinventar-se, o velho Beppe reinventou a práxis política na Itália, com novas formas de aproximação, arregimentação e interação com as massas indignadas.

Em 2005, publicou anúncio de página inteira no La Repubblica, exigindo a renúncia do presidente do Banco da Itália, que se metera numa enrascada, e outro, no International Herald Tribune, clamando por uma lei que proíba o acesso à vida pública de quem tem culpa no cartório. Em julho de 2007, lavou a roupa suja da política italiana no Parlamento Europeu, em Bruxelas. Em setembro, seu test drive mais retumbante: o Dia V, desabafo coletivo adotado por 2 milhões de pessoas em 220 cidades italianas, a primeira manifestação política na Itália mobilizada exclusivamente na blogosfera. V de vingança, vitória e vafanculo ("vá tomar...").

Comandando pessoalmente o showmício na Piazza Maggiore, em Bolonha, Grillo leu em voz alta os nomes de mais de duas dezenas de políticos condenados por corrupção, evasão fiscal, perjúrio e até crime de sangue. A cada nome citado, o povão urrava, escandindo bem as sílabas: "Va...fan...cuuuloo!" Um segundo Dia V teve seu epicentro em Turim, no ano seguinte, novamente organizado pelas redes sociais e pelo blog do líder (beppegrillo.it), o mais acessado do país e um dos mais populares da rede mundial.

Grillo tornou-se uma celebridade internacional. No espaço de quatro meses, ganhou um perfil na revista The New Yorker, presença na lista dos "500 heróis europeus" do ano da revista Time e um documentário biográfico na Austrália. Conquistou aliados pelo mundo afora - desde políticos italianos independentes a figurões globais como o arquiteto Renzo Piano, e pelo menos três Prêmios Nobel: o dalai-lama, Dario Fo e Joseph Stiglitz –, mas está longe de ser uma unanimidade.

"Esse homem é um perigo", dizem uns. "Um demagogo, populista", acrescentam outros. "Um novo Mussolini", exageram os mais aturdidos com o fenômeno do grillismo. Eugenio Scalfari, um dos jornalistas mais respeitáveis da Itália, receia que a "invasão bárbara" do espaço político pelo grillismo possa ser o "prelúdio de uma ditadura de direita". Nada alarmista, Umberto Eco jogou água na fervura: "É apenas uma incipiente doença do corpo político", um mal necessário.

"Antes de apoiar Grillo, criticá-lo, segui-lo, demonizá-lo, antes mesmo de dar-lhe ouvidos, ignorá-lo, irritar-se ou apoiá-lo, valeria notar o tipo de comunicação política que ele escolheu usar, prestar atenção no seu método, no seu estar presente mesmo estando ausente, na sua revolucionária utilização das redes sociais, da TV online e outras mídias impermeáveis ao controle pelos poderosos do momento", recomendou, sabiamente, o escritor e jornalista Roberto Saviano. Que só deve ter reforçado essa opinião depois que o Movimento 5 Stelle elegeu Federico Pizzarotti prefeito de Parma, gastando apenas € 6 mil em sua campanha. Pizzarotti fez uma campanha atípica. Como promete ser sua gestão. "Os que nos pintam como a antipolítica o fazem para nos desacreditar. Somos a política da gente normal".

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