O PIB da marolinha

Este é o PIB da marolinha, obtido no ano de maior crise financeira global desde os anos 30.

, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2010 | 00h00

Nas circunstâncias, uma queda da renda de apenas 0,2% em 2009 não foi mau resultado. Apesar de ter ficado abaixo do nadinha, foi o sexto melhor desempenho do Grupo dos 20 (G-20), como observou ontem a BBC (veja, também, o Confira).

Como já se esperava, o ponto alto de 2009 é o quarto trimestre, que determinou o tamanho do embalo com que a produção de riqueza em 2010 vai sendo empurrada: crescimento de 2,0% em relação ao trimestre anterior.

O ponto mais insatisfatório do ano passado foi o comportamento persistentemente fraco do investimento (Formação Bruta do Capital Fixo), que correspondeu a apenas 18,7% do PIB, o mais baixo dos últimos três anos.

Também desta vez, a maior parte do investimento (41%) correspondeu à construção civil, que apenas marginalmente pode ser entendida como aumento de capacidade de produção. Além disso, é difícil avaliar a qualidade dos outros itens que compõem o mix dos investimentos. Investimento no comércio, por exemplo, multiplicará menos riqueza do que investimento na infraestrutura. Também não temos ideia do tempo de maturação do investimento médio a cada momento no Brasil: dois anos? Quem sabe, três; ou não seria mais? E seria muito bom que se soubesse a quantas anda o investimento em tecnologia da informação, um fator que vem multiplicando renda no mundo.

O avanço relativamente baixo do investimento pode fazer falta dentro de mais alguns meses, à medida que o consumo interno continuar seguindo na frente do aumento da capacidade de produção.

Para este ano, não dá para divergir das projeções disponíveis. A perspectiva é mesmo de que a atividade econômica do Brasil cresça em torno dos 6%. E, mais uma vez, será um desempenho vigoroso quando comparado com o que está acontecendo nos países de alta e média renda.

Não dá para acompanhar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que insiste em afirmar que essa velocidade é sustentável. Ela está sendo construída sobre um avanço forte demais do consumo das famílias (crescimento no quarto trimestre de 7,7% quando comparado com o quarto trimestre de 2008). Esse avanço, por sua vez, tem a ver com o aumento em torno de 17% das despesas correntes do governo federal.

Lá na frente alguém terá de pisar nos freios e não será apenas o Banco Central. As importações estão crescendo mais de 30% neste ano e o rombo nas contas externas (Contas Correntes do Balanço de Pagamentos) saltará em 2010 para alguma coisa próxima dos US$ 50 bilhões, ou 3,0% do PIB, tendendo a passar para US$ 60 bilhões em 2011 (3,5% do PIB). Qualquer estudante de Macroeconomia sabe que déficit em Conta Corrente significa excesso de consumo. Por enquanto esse déficit está sendo satisfatoriamente financiado com investimentos externos. Mas pode chegar o dia em que a qualidade desse financiamento se deteriorará. Antes disso, será preciso reequilibrar as finanças do setor público (inclusive as dos Estados e municípios), e não apenas puxar pelos juros.

Confira

PIB PELO MUNDO

Índice de crescimento em 2009

Em porcentagem

China 8,7

Índia 6,1

Peru 0,9

Brasil -0,2

Suíça -1,5

Chile -1,7

França -2,2

EUA -2,4

Canadá -2,6

Espanha -3,6

Zona do Euro -4,0

Reino Unido -4,8

Suécia -4,9

Japão -5,0

Itália -5,0

Alemanha -5,0

México -6,5

Romênia -7,2

Rússia -7,9

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