O PIB de 1,3% é bom, equilibrado e consistente

O crescimento de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB)no terceiro trimestre foi menor do que se esperava, mas foi bom, consistente e equilibrado. Os investimentos na indústria retornaram, superando o consumo. Nem é um "pibinho, nem um pibão", como dizem as gírias supérfluas, mas um PIB inferior apenas ao da China e ao do México e superior ao de todos os demais países desenvolvidos, que patinam em torno de zero. Não é pouco crescer 1,3% em tempos de recessão.

Alberto Tamer, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

O único aspecto negativo, além do recuo de 2,5% da agropecuária, atribuído aos preços, é o excesso de previsões otimistas. Desapontou porque se esperava mais, com os analistas do mercado contagiados pelo otimismo do governo que previa até mais de 2%, admite o ex-presidente do BC Gustavo Loyola.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, falava em 8% anualizados, criando um clima de euforia desfeito pelo choque da realidade. É 1,3%, sim, pode ser maior no quarto trimestre, mas vamos ficar só flertando com a recessão. Pode ser mais em 2010, mas o resultado de agora recomenda cautela para evitar frustrações indesejáveis que devem ser evitadas.

O mercado seguiu a previsão do governo talvez acreditando que Mantega tivesse dados que ele desconhecia. Não tinha. Deve ter recebido informações precipitadas, ou o ministro extrapolou na sua tarefa de manter um clima de tranquilidade e otimismo. São duas hipóteses que não se anulam, até coincidem. Agora, é aceitar os fatos.

MEIRELLES CONCORDA

É isso o que tem repetido sempre o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Ele tem insistido junto ao mercado para conter a euforia excessiva, inspirada talvez pelo grande afluxo de investimentos externos. Não há como esquecer que a maior parte é de investimentos financeiros e não diretos. O Brasil está crescendo bem e pode continuar crescendo por muitos anos. Não há limite de tempo, afirmou ele, em Lisboa, ao jornal Valor.

E estamos no caminho certo? O resultado do PIB no terceiro trimestre, com realismo, diz que sim. O consumo das famílias aumentou em 2%; a massa salarial cresceu 2,5% acima da inflação; e os investimentos cresceram 6,5%, a maior parte na indústria, que gera empregos. No trimestre anterior não havia crescido nada, zero. Esse é de longe o fato mais positivo que o relatório sobre o PIB no terceiro trimestre indica.

É pouco ainda. Temos uma longa jornada pela frente para retornar aos níveis de antes da crise, lembra o colega Fernando Dantas, da sucursal do Rio. Mas não é tímido e pode ser consistente, pois se baseia num cenário interno que continua a crescer e se expande agora nas classes de menor renda, as que mais consomem.

É verdade que, mesmo assim, a taxa de investimento em relação ao PIB ainda é baixa, 17,7%, inferior à dos mesmos trimestres dos dois últimos anos. É ainda pouco, é preciso elevar essa taxa a pelo menos 22%, mas revela sinais de consistência, pois se baseia num processo de aumento do consumo que se mantém ativo. O mecanismo da oferta-demanda parece estar funcionando sem gerar pressões inflacionárias. Apesar da alta dos preços agrícolas, a inflação continua dentro da meta.

UM ALERTA QUE NINGUÉM OUVE

O resultado do PIB do terceiro trimestre deveria, isto sim, servir de alerta ao governo para a fragilidade do comércio exterior. As exportações registraram um aumento pode-se dizer, "estatístico", de 0,5% de longe anulado pela alta de 1,5% nas importações. A manter-se esse ritmo, não tardará para que o superávit comercial vire déficit.

Mas parece que vai ser difícil convencer o governo que isso tem alguma importância. Pensam em Brasília que somos como a China, onde um mercado potencial de 1,3 bilhão de pessoas e reservas cambiais quase infinitas permitem manter estímulos fiscais e monetários por mais uma década para sustentar a demanda interna. Mesmo eles, na sua fartura de dólares, estão preocupados com o recuo das exportações nos últimos dois anos. Nós, ainda não. O governo acredita que poderá continuar enfrentando tudo com mais e mais pacotes sem atentar para as limitações impostas pelo equilíbrio fiscal. Parece esquecer, também, que esse equilíbrio obtido duramente até agora explica em grande parte esse excepcional, mas instável afluxo de investimentos externos.

O NOVO PACOTE

E aqui o novo pacote. Certamente a equipe econômica já havia sido informada pelo IBGE sobre o resultado menos eufórico do terceiro trimestre. Talvez tenha sido por isso que se apressou a anunciar o novo pacote - um dia antes de sair o resultado do PIB - que estava guardado de reserva. Guardado, sim. No pacote anterior, que se transformou num "humilde pacotinho", o governo havia sido bem cauteloso. Deu até a entender que poderia deixar os estímulos de lado, como registraram os observadores e a coluna. Tanto é que apresentou limites à redução do IPI na indústria automobilística, apesar do seu protesto, e na linha branca. Veio até com argumentos ecológicos. Agora, com o choque de realidade, como diz editorial do Estado, anunciou um pacote de 13 medidas que prevê a dissolubilidade de investimentos de R$ 139 bilhões e desonerações fiscais estimadas entre R$ 3,2 bilhões e R$ 5,5 bilhões no próximo ano.

Resumindo para o leitor e citando Drummond, um poeta maior, há muitas pedras ainda no caminho...

*Email: at@attglobal.net

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