O piquenique que rasgou a cortina

Menos de três meses antes da apoteose em Berlim, protesto húngaro deu início ao processo da queda do Muro

Jamil Chade, SOPRON, HUNGRIA, O Estadao de S.Paulo

03 Novembro 2009 | 00h00

O objetivo era promover um debate na fronteira entre o Ocidente e o bloco soviético, em uma iniciativa conjunta entre a Áustria e a Hungria. Mas o chamado Piquenique Pan-Europeu, organizado em 19 de agosto 1989 na pequena cidade húngara de Sopron, entrou para a história como a primeira brecha no que parecia ser a impenetrável Cortina de Ferro.

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Três meses antes da queda do Muro de Berlim, uma parte da fronteira de 246 quilômetros entre os dois países ficou aberta por três horas, para que apenas os convidados do piquenique passassem para o outro lado da barreira. No entanto, os poucos guardas da divisa não impediram a fuga para o Ocidente de 600 alemães orientais que souberam da oportunidade e viajaram até a Hungria para aproveitá-la.

Nos bastidores, autoridades do Ocidente e do bloco soviético consideraram a ocasião um grande teste para Guerra Fria, com a percepção de que divisão na Europa já começava a se desfazer na Hungria.

Atualmente, a população de Sopron conta a história com um sorriso no rosto. "Foi o melhor ano de nossas vidas", disse ao Estado a vendedora Annike Kispal, que tinha 22 anos em 1989.

Apesar da nostalgia, poucos se atrevem a explicar como surgiu a ideia de abrir a Cortina de Ferro. Segundo a versão mais aceita, a ala reformista do governo húngaro sabia que a situação era insustentável e queria verificar a extensão das promessas de reforma de Mikhail Gorbachev (1988-1991). O último líder soviético havia indicado que o Kremlin deixaria sua política de intervenção nos países do Leste e a substituiria pela "Doutrina Sinatra", uma ironia relacionada à canção My Way (Meu Jeito, em tradução livre).

Além das questões políticas, a Cortina de Ferro enfrentava problemas tecnológicos. O sistema de alarme "Sz-100", instalado ao longo da divisa entre 1965 e 1971 para substituir os arames e minas terrestres implantados em 1949, não funcionava. Obrigados a importar as peças de reposição da cerca ironicamente do Ocidente (a União Soviética, já em colapso, não fornecia mais o material), os húngaros realizaram em abril de 1989 testes secretos para desligar inteiramente o sistema.

Com o sistema superado moral, política e tecnologicamente, o governo desligou oficialmente a cerca dois meses depois, com o plano de removê-la inteiramente até 1991. Mas o que ocorreu nas semanas seguintes foi um processo acelerado de mudanças. Opositores húngaros, apoiados por membros do próprio governo, conseguiram organizar com Otto von Habsburg, aspirante ao trono do Império Áustro-Húngaro, o Piquenique Pan-Europeu.

Nos dias seguintes à fuga dos 600 alemães, Budapeste reforçou a fronteira e confrontos ocorreram entre os que tentavam escapar e os soldados, causando a morte do jovem alemão Kurt-Werner Schulz. Mas, em 11 de setembro de 1989, o governo húngaro abriu suas fronteiras definitivamente.

Atualmente, Sopron usufrui amplamente dos benefícios da União Europeia (UE), com o euro circulando livremente e um padrão de vida compatível ao da Áustria. A cidade também se transformou em um centro de tratamento dentário, com "turistas" de toda a Europa viajando até o local por causa dos serviços de baixo custo.

NOVO MURO

Apesar dos avanços, pesquisa recente do Instituto Ipsos indica que só 14% da população húngara diz ter obtido "ganhos reais" com o colapso do comunismo. Segundo a sondagem, 35% afirmam que o capitalismo não mudou suas vidas. Por causa da crise econômica iniciada no ano passado e da recessão, o FMI foi obrigado a socorrer o país neste ano, greves se proliferaram e o desemprego atingiu 10% - o maior desde 1989.

"Era para ser um ano de festas por causa dos 20 anos do fim do regime e dos cinco anos de adesão à UE, mas estamos debatendo onde vamos parar por causa da crise", afirmou Levente Baranyai, outro participante do piquenique de 1989.

Outro problema é o sentimento de que a Cortina de Ferro apenas mudou de lugar. A Hungria, assim como a Polônia, Romênia e Eslováquia, acabou se transformando na nova porta de entrada da UE ao aderir ao bloco. Mas, para conseguirem aprovar sua adesão, esses países se comprometeram a resguardar a Europa da imigração irregular e de criminosos. A UE já injetou 2 bilhões de euros para ajudá-los e tentar frear os 500 mil estrangeiros que por ano entram ilegalmente no bloco.

Diferentemente dos anos da Guerra Fria, a nova fronteira é bem mais sofisticada e não corre o risco de entrar em pane por falta de peças, como a dos soviéticos. No lugar de cães, minas e tanques, a UE investiu de forma pesada na instalação de sensores, barreiras eletrônicas e um sistema informatizado ligado aos dados da Interpol e das agências de Inteligência dos países europeus.

No total, são quase 6 mil quilômetros da nova "Cortina de Ferro", com câmeras a cada 150 metros em alguns locais, separando a UE do resto da Europa.

O patrulhamento das fronteiras, uma prioridade política desses governos, vem transformando a vida da população da região e isolando famílias ucranianas, sérvias, croatas e bielorrussas que por décadas estiveram próximas às fronteiras que hoje são da UE.

Na Ucrânia, a percepção é de que os países do Leste Europeu que aderiram à UE esqueceram seu passado. Alguns, de dentro da UE, admitem que estão traindo seus vizinhos. "Sinto que estamos fazendo com nossos vizinhos ucranianos o mesmo que sofremos durante décadas", afirmou o diretor do Departamento de Educação da Universidade Eslovaca de Tecnologia, Miroslav Babinsky.

Amanhã, artigo de Gilles Lapouge relembra os eventos que marcaram a queda do Muro

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