''O planejamento está em dívida com São Paulo''

Para especialista, lógica de trabalhar por setores, como habitação e transporte, é desastrosa para a capital paulista

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

As incertezas dos moradores e a desconfiança de muitos de que terão de ir embora confirmam a suspeita da arquiteta e consultora Regina Meyer, da FAU: o planejamento urbano "está em dívida com São Paulo". É evidente, diz ela, que há um divórcio entre "as premissas de racionalidade" apregoadas pelo planejamento e o que se vive diariamente na cidade. "Há uma lógica setorial, de trabalhar por setores, como habitação, transporte, que é desastrosa para São Paulo", adverte. E dá exemplo: o metrô dos anos 70. "Ele passou rasgando espaços antigos, consolidados, cheios de história."

Fala-se em planejamento, mas a percepção do paulistano é que a cidade fica cada dia mais caótica. O que está errado?

As perguntas se repetem ao longo dos anos. Existe planejamento em São Paulo? Se existe, por que é tão ineficiente? Não há dúvida de que o planejamento está em dívida com São Paulo. Há um evidente divórcio entre as premissas de racionalidade apregoadas e o que vivemos diariamente.

Onde entram projetos como Rodoanel, novas vias da Marginal do Tietê ou o Largo da Batata?

Esses grandes projetos de intervenção - além dos que você citou eu lembro a Linha 4 do Metrô, os túneis de Paulo Maluf e Marta Suplicy, a Radial Leste dos anos 70, o Expresso Tiradentes - tendem a ganhar um papel que transcende aos próprios planos. Eles se tornam verdadeiros motores de mudança. Mas há um descompasso entre a força desses projetos e outros planos voltados para o desenvolvimento urbano, num segundo nível.

Aonde leva esse descompasso?

A lógica setorial (trabalhar por setores, como habitação, transporte etc) tem sido desastrosa. Temos grandes problemas com obras setoriais mal planejadas do ponto de vista urbanístico que causaram enormes impactos. O metrô dos anos 70, por exemplo. Passou rasgando espaços antigos, consolidados, cheios de história. Deixou um rastro de destruição atrás das primeiras duas linhas. A passagem pelo Brás é um exemplo de desestruturação urbana não revertida. Ali, como na Sé, o metrô foi pensado só como transporte. Não se viu a menor preocupação com cidade e moradores.

Isso não acontece em toda grande cidade?

Bogotá é um caso diferente. Ali a construção do Transmilênio, sistema de corredores de ônibus que cortam a cidade, criou uma revolução urbana e promoveu uma grande melhoria nos espaços públicos. Parece desnecessário dizer, mas as obras de infraestrutura que São Paulo está construindo precisam assumir um forte e eficiente compromisso com a vida urbana.

Como fica o cidadão?

Cada vez mais os paulistanos vivem em territórios amplos, percorrem muitos quilômetros por dia, para o trabalho ou para a escola. Para que esse imenso território de movimentação, de 8 mil km², seja amigável, é fundamental que os moradores sejam apoiados por uma infraestrutura qualificada. Isso significa encontrar espaços limpos, calçadas generosas, iluminação noturna, árvores que lhes deem sombra. E também mobiliário urbano. Coisas como bancos, lixeiras, bancas de jornais, pontos de ônibus, sinalização.

O estilo "derruba tudo", seja em grandes ou pequenos projetos, não priva a população da memória urbana?

Felizmente estamos nos afastando das teses de preservação da memória urbana voltadas para a preservação de um passado idealizado. A museificação das cidades é um capítulo superado da preservação da memória urbana. Hoje há cidades com uma verdadeira política de preservação da memória urbana, como Havana Vieja, Barcelona, Boston, Bolonha.

São exemplos que São Paulo poderia imitar?

Sim. Veja também o caso dos grandes mercados centrais, como Covent Garden, em Londres, o antigo Halles, em Paris. Deixaram de desempenhar antigas funções de abastecimento e ganharam outras novas. O exemplo mais interessante, inaugurado neste ano, é a reutilização de antiga estrutura ferroviária sem uso, no coração de Manhattan, a High Line.

Há sinais de algo parecido por aqui?

Eventos como a Virada Cultural têm enorme importância para a valorização do centro de São Paulo. Ela cria uma relação de familiaridade com lugares antes não frequentados pelos mais jovens. É a função que estimula a vida e dessa relação é que nasce a necessidade de obras.

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