O poder de fogo do Taleban

Enquanto o presidente Barack Obama tarda em anunciar a nova estratégia militar americana no Afeganistão e os Estados Unidos trocam críticas com o Paquistão pela incapacidade de controlar o ir e vir de militantes do Taleban através da fronteira entre os dois países, dois ataques terroristas - não se sabe se coordenados - tornaram a evidenciar os escassos resultados do combate aos aliados da Al-Qaeda. Na quarta-feira, quando a secretária de Estado Hillary Clinton iniciava a sua primeira visita ao Paquistão, a explosão de um carro-bomba matou uma centena de pessoas, mulheres e crianças na maioria, em um mercado de Peshawar, no noroeste do país. No momento do ultraje, o mais devastador em dois anos, Hillary estava reunida com ministros paquistaneses na capital Islamabad. Horas antes, em Cabul, ativistas do Taleban, disfarçados de policiais, invadiram uma hospedaria onde se alojam funcionários da ONU no Afeganistão, assassinando cinco membros da missão e duas outras pessoas. Na véspera, os insurgentes haviam matado oito soldados americanos, fazendo deste outubro o pior mês para os Estados Unidos desde a invasão do país, em 2001.

, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

O atentado de Peshawar foi a mais selvagem resposta do Taleban à ofensiva paquistanesa terrestre e aérea, iniciada há duas semanas, contra o seu reduto na área do Waziristão do Sul. É a quarta tentativa em cinco anos de expulsar os extremistas da região. Um analista militar local, prevendo novas atrocidades do gênero, disse que eles querem "desestabilizar o governo e intimidar o público". O presidente Asif Ali Zardari descreveu o massacre como um ataque ao "estilo de vida" da população e disse que ao governo só resta retaliar. Mas foram os comentários de Hillary que mostraram com maior nitidez a falta de perspectivas dos Estados Unidos e seus aliados no confronto com as forças da treva no Af-Pak, como os americanos se referem aos territórios conflagrados do Afeganistão e Paquistão. "Esses ataques a pessoas inocentes não são corajosos, são covardes", disse ela, à falta de melhor. "Eles sabem que estão no lado perdedor da história e querem levar consigo quantas vidas conseguirem", acrescentou retoricamente, tentando temperar a tragédia com uma pitada de otimismo.

O Taleban paquistanês não assumiu a autoria da chacina, mas a organização afegã, além de se gabar da incursão contra o pessoal das Nações Unidas, justificou-a como uma represália à participação da entidade no processo eleitoral do país que tenta sabotar por todos os meios ao seu alcance desde antes do primeiro turno de 20 de agosto último. Fraudes maciças, comprovadas por uma comissão ligada à ONU, sustaram a reeleição do presidente Hamid Karzai. Na recontagem de votos, ele perdeu a maioria absoluta e, sob intensa pressão ocidental, concordou com a realização de uma segunda rodada, em 7 de novembro, quando enfrentará o ex-chanceler Abdullah Abdullah, seu principal desafiante. A sortida foi reivindicada por uma facção taleban liderada por Siraj Haqqani, cuja base fica no outro Waziristão, o do Norte, também na fronteira paquistanesa. No mesmo dia, foguetes foram lançados contra o palácio presidencial afegão e um hotel no centro de Cabul, sem fazer vítimas. A desenvoltura do movimento pode ser avaliada também por falar às claras de seus atos de violência, com a naturalidade de um ator político como outro qualquer.

O Taleban tem um porta-voz, Zabiullah Mujahid, que se comunica corriqueiramente com os jornalistas. Na quarta-feira, ele contou que a invasão do alojamento da ONU foi conduzida por militantes suicidas equipados com coletes explosivos, mas que não chegaram a ser detonados porque os seus portadores foram mortos no tiroteio de cerca de duas horas. "Esse foi o nosso primeiro ataque", ameaçou Mujahid. Aos Estados Unidos, à ONU e ao governo afegão restaram as declarações de praxe. "A população não será intimidada", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. "A ONU não se deixará intimidar por ataques terroristas", disse o secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon. "Ordenamos o reforço da segurança das organizações internacionais em Cabul", disse o presidente Hamid Karzai. A crescente capacidade de aterrorizar que o Taleban vem demonstrando mostra o vazio dessas palavras.

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