Assis Horta
Assis Horta

O povo bem na foto

Então dono de um estúdio fotográfico em Diamantina (MG), Assis Horta participou de uma pequena revolução, digamos, socioantropofotográfica brasileira. Depois da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, passou a fazer milhares de retratos 3 x 4, com data, para a carteira profissional. Os operários tomaram gosto, voltaram. E voltaram para sentar diante da câmera de Assis junto com a família, os amigos, ou sozinhos – como faziam os ricos, uai. "Essas fotografias de identificação civil feitas por fotógrafos profissionais carregam traços artísticos. São de um apuro técnico incrível", explica o também fotógrafo e curador Guilherme Horta (o sobrenome é coincidência, eles não são parentes). É dele o projeto de pesquisa sobre a obra de Assis que ganhou o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia 2012, categoria Reflexão Crítica, e resultou na exposição atualmente em cartaz em Ouro Preto. Na entrevista a seguir, Assis Horta, aos 95 anos, conta que fotografou de tudo nesta vida. Falta-lhe apenas uma foto.

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2013 | 16h19

Por que o sr. se tornou fotógrafo?

Muito simples. Perdi o pai aos 10 anos, éramos dez irmãos, tive que trabalhar. Era 1928. Arranjei emprego no Photo Werneck, de Celso Tavares Werneck, em Diamantina mesmo. Ele me ensinou o trabalho, começando pelo quarto escuro, e depois acabei comprando o estúdio dele. De 1934 a 1967 fotografei de tudo. Festas, procissões, quermesses, casamentos, batizados e principalmente fiz os 3 x 4 para a carteira profissional. Meu acervo tem mais de 96 mil chapas de vidro de 9 x 12 cm.

Do que mais gostava nesse tempo?

Ah, de conversar com as pessoas que iam ao estúdio. Fiz muito retrato fiado, pra pagar no fim do mês. De outros eu nem cobrava, porque eu queria só documentar, como o Rabo Mole, esse senhor de roupa rasgada (foto maior). Era um personagem popular na cidade. Parava na frente do estúdio e ficava fazendo pose. Quis ser fotografado, mas do jeito dele. Nada foi capaz de convencê-lo a vestir o paletó e a gravata que eu mantinha lá para as fotos 3 x 4.

O sr. ainda fotografa?

Só os filhos, que são 10, os netos (18) e as bisnetas (7). Uso uma Rolleiflex. Esse negócio de câmera digital não tá com nada. A turma tira foto e guarda. Eu gosto do papel, que posso mostrar pra todo mundo.

O que falta o sr. fotografar?

Mulher nua. Nunca fiz. Uma vez dois casais me contrataram para fotografar a viagem deles pela Europa. Fiquei cinco meses lá, 14 países. Em Paris, uma das senhoras, que gostava de um cabaré, me atormentou para fotografar as dançarinas sem roupa. Eu só disparava o flash. Não fiz nenhuma foto de mulher nua. Mas quem sabe um dia.

Mais conteúdo sobre:
AliásAssis Horta

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.