Alejadro Cartagena/AE
Alejadro Cartagena/AE

O povo do lotação

Tomar as fotos desse seu projeto Car Poolers (Caroneiros) foi um exercício de pura loteria para o fotógrafo dominicano Alejandro Cartagena, de 36 anos. Ao longo de 2011, ele se empoleirou numa passarela de pedestres que cruza importante avenida de Monterrey (México), onde mora, para clicar perpendicularmente ao chão. Caçava imagens de trabalhadores, especialmente da construção civil, indo e vindo de suas casas no subúrbio distante a seus empregos na zona central da cidade. Flagrantes do que a escassez de transporte público é capaz. Num dia conseguia uma única imagem. Noutro, quatro ou cinco. E assim foi até tirar o grande prêmio: reunir uma galeria da vida contemporânea que muitos sabem que existe, mas poucos enxergam. Porque, como ele diz, "às vezes você precisa olhar para baixo se quiser ver o que está bem na sua frente". Com Car Poolers, Cartagena ganhou o Sony World Photography Awards de 2012 e tirou segundo lugar no Pictures of The Year Latin America (POY Latam) de 2013. A seguir, ele fala sobre o trabalho à fotógrafa do Estado, Mônica Zarattini.

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2013 | 16h00

Como surgiu a ideia de fotografar os caroneiros?

Há anos venho explorando o tema do crescimento urbano desmedido e como ele influi na vida das pessoas. Comecei fotografando os subúrbios de Monterrey, a cidade onde vivo, e daí nasceu meu primeiro trabalho, Suburbia Mexicana. Depois fui investigar as viagens dos moradores da periferia ao centro, ou de uma cidade a outra. Queria registrar como pessoas que vivem tão longe de seus trabalhos se locomovem para chegar a eles. Ao mesmo tempo um instituto de pesquisa me contratou para trabalhar em um projeto sobre o uso da rua e aí passei a fotografar as pessoas em seus carros. Disso tudo nasceu Car Poolers, no qual me interessava fazer imagens que fossem quase irreais. Achei que assim elas permitiriam mais diálogos sobre o que mostravam, pois seriam capazes de fazer as pessoas pararem e pensarem a respeito daquela situação da vida contemporânea.

Ao mesmo tempo em que mostram a vida difícil dos trabalhadores, suas fotos nos fazem rir. Você pensava que poderia ter fotos divertidas, além de tudo?

Quando vi as fotos em casa eu as achei bem-humoradas em algum sentido. Mas, no fundo, elas são realmente um comentário muito aberto da condição de trabalho e de uma sociedade com problemas. Uma situação em que os que trabalham continuam sendo os mais invisíveis. Minha intenção era mostrar um momento da vida dos trabalhadores da cidade que ninguém vê. Um momento que é consequência da expansão urbana descontrolada. Talvez tenha conseguido um pouco mais do que isso.

Por quê?

Algumas pessoas dizem que as fotos são todas posadas. Outras, que é tudo photoshop. E há ainda os que acham que se trata de homens cruzando ilegalmente a fronteira ou que são cadáveres. Eu acho que há tantas interpretações porque são imagens muito simples. Não há julgamento do que está acontecendo ali. São apenas pessoas nas caçambas de caminhonetes. No POY Latam, que é um prêmio destinado ao fotojornalismo, um dos jurados chegou a dizer que não tinha "confiança" nas minhas fotografias, não sabia se elas eram reais ou não. Nesse sentido creio que elas acabaram funcionando como representação, ou pelo menos uma opção de representação do mundo do trabalho contemporâneo. Me agrada que essas imagens possam ser vistas como documentos e também como arte.

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