O Presépio

Esse homem vinha caminhando desde alguns quarteirões mais abaixo na rua das Laranjeiras, às dez e meia da manhã dessa sexta-feira de dezembro, para seguir prescrições médicas, a fim de reduzir o peso, gorduras no sangue e o estresse, e usava camiseta, bermuda e tênis. O seu caminhar traía um neófito na coisa, ele mostrando-se meio desalentado com o exercício físico, para, de repente, os seus passos se tornarem mais rápidos, ansiosos, como se tivesse pressa de chegar a algum lugar. No entanto, esse homem estava de férias, férias decididas pela própria empresa onde trabalhava, as Lojas Panamericanas, depois de uma tarde em que sentira um mal-estar, com pressão alta, suores, vertigem. E todos já vinham percebendo que ele andava meio alterado, oscilando entre o ensimesmado e o irritadiço, quando uma de suas funções como assistente de promoções e relações com os clientes era funcionar como para-choque nas reclamações dos fregueses, que ocorriam com frequência.

Sérgio Sant?Anna (*), O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h00

O médico do plano de saúde a que a empresa filiava seus funcionários dera a ele as prescrições típicas a homens sedentários, recomendando-lhe, além de um regime, que caminhasse com ritmo em algum lugar aprazível, e durante as caminhadas evitasse pensar em problemas. Como se isso fosse possível.

Um de seus problemas e preocupações maiores era a desconfiança. Ele desconfiava que as férias eram apenas um intervalo de passagem para a demissão, quando ele não pudesse alegar que fora posto na rua por problemas de saúde. Nem mesmo lhe deram uma licença médica, mas as férias, pura e simplesmente.

Ele desconfiava que aquela demissão já vinha sendo tramada pelo chefe de promoções e vendas, que, ele sabia, não gostava dele, com aquela ojeriza que os chefes podem ter pelos subordinados saidinhos demais, metidos a sabidos e com uma ambição que deixa os superiores prevenidos.

Ele vinha subindo a rua pelo lado direito, para não passar bem junto às portas das Panamericanas, pois sentia como uma derrota ser visto por alguns dos funcionários das Lojas, caminhando naqueles trajes em pleno período natalino, quando o seu departamento e todos deviam estar a mil por hora.

Certo que ele poderia escolher um outro local para andar, mas como alugara um apartamento barato na rua do Catete, a subida da rua das Laranjeiras até o Cosme Velho lhe parecia uma escolha natural para a caminhada.

Ou a verdade maior era que ele sentia uma compulsão de observar do outro lado da rua, oculto pelo tráfico e pelos pedestres, as Lojas Panamericanas?

Passando diante das Lojas, ele também nunca deixara de pensar naquilo que fora o seu maior sucesso, e estava ali à vista de todos, e naquele que fora o seu maior fracasso.

Às vezes não é preciso pensar muito para se ter boas ideias, pode acontecer até o contrário, como aconteceu com ele. Tratava-se de uma reunião, ainda no mês de outubro, para a escolha de uma ideia-chave, norteadora de todas as outras ideias, para a campanha do Natal de 2009, avaliando-se a necessidade de se recorrer para isso a uma agência de propaganda ou não.

Além dele mesmo, Rogério, estavam presentes o seu chefe no departamento de promoções e vendas, Deprov, e a secretária do superintendente.

Os três concordavam que o diferencial das Panamericanas era vender um pouco de tudo a preços mais acessíveis que os concorrentes, e que isso devia ser ressaltado.

Rogério estava fazendo risquinhos numa folha de papel, quando se surpreendeu dizendo, num tom de voz normal, até baixo, como se pensasse consigo mesmo:

- Não importa o valor da sua dádiva, mas o tamanho do seu amor.

Houve alguns instantes de silêncio, pela surpresa, até que a secretária da Superintendência falou, como que para certificar-se do que havia escutado:

- O que o senhor disse?

Rogério repetiu, agora com maior firmeza, porque tinha, nesse pequeno intervalo, convencido a si próprio de que sua frase era um achado:

- Não importa o valor da sua dádiva, mas o tamanho do seu amor.

- Bonito, isso - disse a secretária.

Quando se soluciona muito rapidamente uma questão, sempre parece que ficou faltando alguma coisa.

- Uma frase dessas não pode induzir os fregueses a comprar os produtos mais baratos? - disse o chefe do Deprov.

- É, pode ser. Precisamos pensar nisso - disse a secretária.

- Talvez algo mais discreto, mas eficaz - disse o chefe. - O que vocês acham dessa: Aqui você tem tudo para um Natal feliz?

- Acho boa - disse Rogério, diplomaticamente. - Mas com a frase A (ele evitou dizer minha), se for a escolhida, poderemos colocar junto com ela, na fachada da loja, os três reis magos adorando o Senhor na gruta de Belém e, como todos sabem, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra. No alto, a estrela guia.

O coração de Rogério batia, pois, de novo, uma ideia viera límpida à sua mente, como se primeiro surgissem as palavras e depois o pensamento. E ele deixou que isso continuasse a se desenrolar até o fim:

- As Panamericanas estarão levando uma mensagem a toda a cidade, reforçando o verdadeiro espírito de Natal, tão esquecido.

- Realmente pode ficar bonito - disse a secretária da Superintendência, que, como o chefe de departamento, vinha anotando tudo o que se dizia na reunião, e era arguta o bastante para saber que ali se travava, veladamente, uma disputa entre os dois homens. - E como pode vir a ser uma ideia norteadora de toda a campanha de Natal - ela prosseguiu - o senhor superintendente gostará, é claro, de dar a palavra final. Pensando no valor da frase do senhor Rogério e na objeção do senhor Xavier, quem sabe se possa chegar a uma frase que atenda a ambos os requisitos.

Temendo que o sucesso lhe fosse subtraído, o próprio Rogério apresentou uma alternativa:

- Um Natal do tamanho do seu amor.

- Bem - disse Xavier, embarcando no êxito possível dessa última frase que, de algum modo, ele ajudara a encontrar: - É essa frase mais curta e não induz os fregueses a compras muito baratas.

O Superintendente das Lojas Panamericanas no Rio de Janeiro não hesitou em escolher a terceira frase, Um Natal do tamanho do seu amor.

Sem que pudesse ser considerada uma derrota do chefe, que no entanto acendera um sinal de alerta e reconheceu a antipatia que sentia pelo outro, esse fora o grande triunfo de Rogério, que ali, caminhando, a cem metros das Lojas, do outro lado da rua, podia ver o outdoor com a frase e ilustração, o que lhe aumentava um pouco a autoestima e dava-lhe um trabalho bom e concreto para mostrar na busca de um novo emprego, se fosse o caso.

Mas ali, nas Panamericanas, como em todo lugar, não se podia descansar sobre as conquistas, e logo ele foi chamado, para, entre outras tarefas de rotina, participar da seleção de dois Papais Noéis que se revezariam à entrada das Lojas, durante os vinte dias que antecediam ao Natal.

Diante do seu êxito recente, ele ficara confiante demais no poder das suas ideias e, na reunião preparatória para aquela seleção, estando presentes ele, Rogério, o chefe do Deprov e um assistente do departamento de pessoal, ele retirou do bolso um papel em que anotara uma ideia na noite anterior e disse:

- Por que não contratamos como um dos Papais Noéis um homem de cor?

Fez-se um silêncio absoluto e o chefe do Deprov aprumou-se na cadeira e encarou Rogério com um olhar muito atento. Já o rapaz do Pessoal, um estudante de direito, olhava para um e para outro, também muito atento, mas sem dar nenhum sinal de que pretendia falar, pelo menos por enquanto. Finalmente o chefe disse, com uma voz absolutamente neutra:

- Com um homem de cor, o senhor quer dizer...

- Sim, um Papai Noel negro.

O chefe do Deprov pareceu animar-se e mostrou-se mais amável do que habitualmente ao falar com Rogério:

- O senhor poderia dar suas razões para essa sugestão?

Rogério notou essa amabilidade e procurou dentro de si mesmo a segurança de quando tivera a ideia, na noite anterior:

- Bem, mais de cinquenta por cento da população brasileira é no mínimo miscigenada. Não sei se há pesquisas a esse respeito, mas uma parte considerável dos fregueses das Panamericanas deve ter esse perfil. Não seria a hora de atrair esses consumidores ainda em maior número?

Como na reunião da frase, o chefe anotava tudo. E perguntou ao rapaz do pessoal o que ele pensava.

- Bom, não cabe a mim decidir - o jovem disse cautelosamente. - Só sei que entre as pessoas fichadas por nós e pelas agências de emprego para esse trabalho, salvo engano, não existe ninguém... de cor. E, ao que eu saiba, Papai Noel é um mito nórdico.

- Pois é - disse o chefe de departamento, sempre anotando, inclusive o que ele mesmo dizia - um bom velhinho branco, de barbas brancas, usando roupas vermelhas, distribuindo seus presentes num trenó puxado por renas no meio da neve branca. No mundo inteiro é assim, por que o senhor acha que devemos mudar isso logo aqui nas Panamericanas, senhor Rogério?

Agora ficava claro para Rogério que o outro viera lhe dando corda, com o intuito de comprometê-lo, mas lhe parecia que era tarde demais para simplesmente desistir, embora ele já desconfiasse que a ideia não era tão boa. O máximo que podia fazer era amenizar um pouco o impacto da sugestão.

- Bem, é apenas uma ideia, para ver o que os senhores pensam. Como no caso da campanha de Natal, propormos uma nova atitude a partir de nossa empresa. Já pensaram a quantidade de publicidade gratuita que poderemos obter com essa simples mudança, um Papai Noel negro? E o outro, branco, é claro - ele concluiu, lançando olhares para o estudante e o chefe, procurando um mínimo de cumplicidade. Uma cumplicidade que não veio.

- Senhor Rogério - disse o chefe do departamento, sempre anotando - Não sei se a direção da empresa está interessada nesse tipo de publicidade. Pessoalmente, não creio e não vou ficar em cima do muro: não gosto da ideia, por vários motivos. Mas vou me incumbir de levar a sua proposta, que anotei, à dona Hebe, secretária da Superintendência, que decidirá se deve levá-la ou não ao senhor superintendente.

A resposta que veio da secretária da Superintendência, já no dia seguinte, foi um não e uma ordem para que o assunto não voltasse a ser discutido.

Ele não foi mais chamado a participar do processo de seleção dos Papais Noéis e, significativamente, começaram a lhe passar apenas as tarefas que ele detestava: cuidar das reclamações e relações com os clientes. Qualquer pessoa que o observasse bem, notaria que ele estava nervoso e deprimido, culminando com aquele mal-estar.

A caminhada, em vez de desanuviar sua mente, o fazia repassar o seu sucesso e o insucesso, materializados agora a sua frente, do outro lado da rua, no outdoor e no som do sino tocado pelo Papai Noel que estava de plantão.

Apressando o passo, ele olhou em frente e foi então que reparou naquela cena, a mendiga recostada num muro, amamentando uma criança, o que causou nele repulsa, que veio juntamente com a raiva de que mendigos gerassem filhos.

Chegando mais perto, ele viu, com um fascínio misturado à aversão, que havia algo de falso e extravagante naquela cena, porque o garoto, com aparência de três anos de idade, era crescido demais para ser amamentado, e, na verdade, não havia vestígios de leite em sua boca, nem movimentos em sua garganta. E o seio que a mulher exibia era pequeno, firme e estava seco, e ela própria, que devia ter menos de trinta anos, não estava maltrapilha como seria de se esperar em sua condição. Devia ter ganhado de alguma jovem mulher, ou em algum albergue de assistência pública ou religiosa, aquele vestido com listras de várias cores, que ainda não havia desbotado de todo. Era um pouco justo e deixava as pernas da mulher visíveis até um pouco acima dos joelhos, e não era difícil imaginar que um ou outro homem se dispusesse a pagar para ficar com essa mulher, pois, apesar de algumas veias salientes, suas pernas não seriam desprezíveis para todos os homens, como certamente não o eram os seios. E, principalmente, nada estava sujo, já que eles se acomodavam sobre uma manta, e o short do menino, que não usava camisa, fora lavado havia pouco tempo, como se não fosse aceitável, para o cumprimento daquela cena, para a plausibilidade dos seus termos quase inadmissíveis, que o menino estivesse sujo.

O menino - que vai ver nem era dela - se mantinha naquela atitude viciosa, como se iniciado numa sensualidade prematura e ali representasse, num presépio em movimento, o seu papel ensaiado entre o obsceno e o sacrílego. E, de fato, a imagem de um presépio não era descabida nessa época natalina, quando as pessoas, em princípio, estariam mais vulneráveis aos sentimentos. Muitas pessoas poderiam cismar diante daquela cena, como Rogério, mas haveria também alguns a aceitá-la, pois nem todos eram tão céticos para ver naquilo uma fraude. Com as duas mãos, o menino acariciava aquele seio, em cujo bico às vezes roçava a boca, enquanto os seus olhos tanto podiam fixar o seio, como buscar no rosto da mulher sinais de aprovação e ainda passear esses olhos pelo entorno, que agora emoldurava, entre outras coisas e pessoas, Rogério.

Uns poucos segundos podiam abrigar muitos pensamentos e percepções simultâneos, e o olhar de Rogério também encarava a mulher bem nos olhos, e quando isso aconteceu a primeira vez, um pouco antes, ela já estava com os seus fixos nos dele e até mais do que isso: ela apresentava para ele uma expressão quase cínica, que significava, ou para ele parecia significar, entre outras coisas, que, por alguma força misteriosa da mente, ela sabia que tinha diante de si um homem que se sentia num momento especialmente frágil, ameaçado por todos os lados, com medo de ver naufragadas não apenas as suas ambições, mas também o que já conquistara, ainda que não fosse grande coisa. Um homem que talvez estivesse disposto a alguma transação com Deus, ou outra entidade, em que tivesse de despender uns trocados por grandes benefícios.

E quando ele passou bem próximo à mulher e ao menino, e ela recitou a sua fala marcada para aquele momento, não o fez com a humildade e convicção que seriam naturais, ou mesmo com a representação que torna o ato dos mendigos ainda mais lamentável. Ela desfiou o seu peito de uma forma desnaturalizada, com impassibilidade, como se tivesse um encenador crítico e entediado dentro de si, ou quem sabe nas imediações, com descaso pela audiência - embora não fossem poucos os que passavam e a desprezavam - talvez com a vaga esperança de que ali, no meio das pessoas, pudesse encontrar uma ou outra capaz de apreciar as implicações sutis de sua inflexão neutra:

- Cinco reais pelo amor da Virgem Maria e do menino Jesus, que aliviarão o peso do seu coração e pagarão a sua caridade com todas as riquezas e bênçãos no céu e na terra.

Nesse momento o menino revirara os olhos, como que para verificar o efeito causado em Rogério pelas palavras de sua mãe, e como se soubesse que elas se referiam também a ele próprio.

Rogério não pôde deixar de notar tanto a petulância no valor pedido como as palavras bem arranjadas como numa oração. E, ao que ele já apreendera visualmente, somaram-se essas palavras para formar uma cena completa, e então ele desconfiou, quase teve certeza, de que a mulher e o menino encarnavam ali na rua a Virgem e Jesus. Ou será que ele, Rogério, estaria se deixando levar por seu próprio arranjo natalino, visual e verbal? Do jeito que estava sua cabeça, nela tudo podia se abrigar.

Ele saberia retribuir com cinco reais ao espetáculo, não só, ou exatamente, por que percebera as particularidades da sua construção, mas sobretudo porque a mulher parecia dotada de poderes para decifrar que havia coisas que confrangiam demais o seu coração. Mas ele só trazia duas notas de dez e uma de dois reais e não se pede troco a mendigos, nem ele era um jogador ousado a ponto de apostar dez reais numa incerta graça divina, de que a mulher, apesar de tudo que havia de profano nela, seria a intermediária. E também já tinha um destino para aquele dinheiro.

Ele passou direto, mas a tempo de ouvir a voz da mulher, agora chiante como de uma serpente, que ela, de algum modo, conseguiu colocar bem próxima dos ouvidos dele:

- Posso fazer o bem e o mal. Se não quer Deus, que leve o diabo.

Ele acelerou bem o passo e percebeu que fugia, até por que passou da lanchonete onde pretendia tomar um suco e um café, e comer um sanduíche natural. E não querendo voltar atrás, deixou para parar numa padaria um pouco mais acima.

Ao fazer o pedido, no balcão desse estabelecimento, sentiu que estava ofegante e com o coração batendo mais forte, pelos passos desritmados e por causa das palavras da mulher.

Ele tinha um filho de onze anos, que morava com a mãe e a avó. Um menino que tinha problemas, um certo atraso, que se notava mais na dificuldade de aprendizado, e por isso frequentava uma escola especializada, que não custava barato. Ele gostaria de pensar que amava o menino como deveria, mas não conseguia enganar-se. E lhe doía perceber que o menino o admirava muito, ele não conseguia entender por quê, mas pensava que talvez fosse pelo atraso mesmo, que o impedia de ver o pai como era.

Ele sentia falta de uma companheira, uma namorada eventual que fosse, para confiar seus problemas, mas estava só desde a separação da mulher, havia alguns meses, e o lugar onde ele teria mais possibilidade de conhecer alguém que tivesse consideração com ele, seriam as Lojas Panamericancas, entre funcionárias menos graduadas, mas nas Lojas era impensável que funcionários se relacionassem nesse nível com funcionárias ou freguesas.

Ao deixar a padaria, depois de comer um pão na chapa - ali não havia sanduíches naturais - e tomar um suco e um café, ele tinha quinze reais no bolso. Parou numa banca e era significativo que, em vez de utilizar a nota de cinco para pagar o jornal, que ele comprava para examinar os classificados, ele utilizasse a nota de dez.

A praga da mulher ainda rondava a sua cabeça, e, entre os vários aspectos de sua vida que ele temia pudessem ser alvo de maus presságios, um dos maiores era o medo de empobrecimento - ele temia até a penúria - que atingiria em cheio o filho, a começar pela escola especial

Já ao sair de casa, ele planejava fazer um jogo na mega sena. Havia uma casa lotérica um pouco mais acima, na rua, e outra mais abaixo. Quando decidiu descer, ele já resolvera dar cinco reais à pedinte. A decisão veio da seguinte forma: primeiro dou os cinco reais à mulher e, depois, transformada a maldição em bons votos, passo no banco para retirar mais um pouco de dinheiro e fazer o meu jogo com sete ou oito dezenas.

Depois de ter descido um pouco mais a rua, ele procurava agora avistar a mulher e o menino na calçada, onde os deixara, e, não os avistando, sentiu aflição com a mexida nas peças do jogo, como se ela tornasse inviável ele mudar o seu destino. Por fim, acabou por avistá-los, só que a cena havia mudado. Agora o menino dormia sobre a manta, e a mulher, de perfil para Rogério, conversava com um homem bem moreno, de bermudão, sandálias havaianas, camiseta, os braços tatuados.

Rogério então parou por completo e ficou observando os dois e ela tocava no braço dele, com familiaridade. Talvez pelo fato de sentir-se observado, e com a cautela dos que costumam ser vigiados, o homem virou-se na direção de Rogério e olhou-o de cima a baixo, um átimo antes de a mulher fazer o mesmo. Rogério desconfiou que o sujeito já estivera ali por perto quando ele subira a rua, e devia ser o protetor, ou o explorador da mulher e do menino e, vai ver, o responsável, pelo menos em parte, pelo ato que eles encenavam na rua.

Rogério não estava nada bem, estava mais impressionável do que nunca e com presépios na cabeça, e agora via o seu próprio presépio e sua frase sobre o amor destacados nas Panamericanas, como um letreiro de cinema, e cogitou, pela maldição que antes lhe fora lançada, que aquele homem podia representar, naquele conjunto todo, uma espécie de anticristo, ou pai do anticristo, que seria o menino, e teve medo. Quis então atravessar a rua, mas o homem fez isso antes dele e sumiu no meio dos pedestres.

Só restava a Rogério seguir em frente e ele fez isso com passos decididos e olhos fixos na mulher, e logo estavam face a face. Viu que ela estampava de novo um sorriso cínico e movimentava os lábios meio preguiçosamente, pronunciando, baixo, uma oração indistinta, que Rogério pensou que podia ser tanto de súplica como de ameaça, numa língua que poderia não fazer sentido.

Parou então de olhar para ela e caminhou com passos ainda mais firmes. E, ao passar pela mulher, estendeu-lhe não uma e sim duas notas de cinco reais e seguiu em frente, com o coração pulando pela boca e sem olhar para trás, com a certeza de que fizera o que tinha de ser feito, representassem ela, o menino e o homem fosse lá o que fosse.

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