O problema é político, mas a solução também é política

Não há solução política para a atual crise que escape de um amplo debate público e que se resolva fundamentalmente no âmbito da negociação política e institucional

Marco Antonio Carvalho Teixeira *, Especial para O Estado de S. Paulo

14 Março 2016 | 20h43

As manifestações do último domingo emitiram vários sinais sobre o momento político atual e demonstraram que a indignação pública não se resume apenas ao governo e ao PT, apesar de serem alvos preferenciais, mas que também ocorre com as práticas políticas como um todo, o que inclui o questionamento à conduta de lideranças da própria oposição. Se por um lado essa postura, agora explícita, derruba a visão de que os manifestantes faziam apenas protesto seletivo, de outro, também demonstra que ainda é preciso muito esforço para que uma solução política possa ser construída, seja ela com o atual governo ou mesmo com o seu afastamento. A deslegitimação social da política e das instituições aparenta ser geral. 

As reações hostis à presença de líderes da oposição como Geraldo Alckmin e Aécio Neves nas manifestações, bem como as dirigidas à neooposicionista Marta Suplicy, demonstraram que se o impeachment, como bandeira de curto prazo, unifica os diferentes grupos que organizaram os protestos, o mesmo não se pode dizer acerca da solução dos problemas decorrentes do possível afastamento de Dilma Rousseff. Lideranças políticas de oposição presentes nas manifestações em São Paulo não passaram no teste do reconhecimento (legitimidade) público como condutores de uma transição para um possível novo governo.  Esse vazio, num eventual pós-impeachment, preocupa tanto em relação ao risco do surgimento de um aventureiro que se apresente como salvador da ordem pública, como em relação ao fato de a presidente ser substituída pelo seu vice e este continuar sendo alvo de protestos. Essa incerteza, inclusive, joga a favor da permanência de Dilma Rousseff. 

O possível acordo entre Temer (o PMDB) e a oposição para viabilizar o afastamento de Dilma e a transição pós-impeachment não é garantia de que o problema da confiança social será resolvido rapidamente. A Lava Jato, se continuar no ritmo em que ela se encontra caso Dilma seja afastada, fatalmente recairá sobre mais quadros do PMDB e, possivelmente, atingirá também lideranças do próprio PSDB. Todavia, não há solução política para a atual crise que escape de um amplo debate público e que se resolva fundamentalmente no âmbito da negociação política e institucional. A saída para os problemas da representação política, por mais que exista quem possa acreditar, não é judicial e nem policial, essas são soluções que tratam de investigações de caráter criminal e como consequência podem retirar maus políticos da competição. A construção de um sistema político mais responsivo à sociedade e mais representativo do interesse público é obra de negociação e acordo político que deve ser empreendido pelas mais diferentes forças sociais.

Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

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