O PT e o ajuste fiscal

O Congresso do PT começou em Salvador sob a égide de uma crítica quase unânime ao ajuste fiscal. O documento-guia aprovado, no entanto, ameniza essas críticas. Mesmo assim, importantes setores do partido persistem e reiteram suas críticas ao ajuste e à política econômica conduzidos por Joaquim Levy.

Aldo Fornazieri*, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 13h45

Qual a razão das críticas? O que vem se observando ao longo dos anos é que a esquerda entende pouco de economia. Nos anos de 1990, setores petistas tiveram uma enorme dificuldade de entender a importância do combate à inflação. Em 2003, quando o governo Lula adotou uma política fiscal dura, o partido também resistiu e demorou a aceitar os preceitos da boa governança. Setores petistas e de esquerda não conseguem entender que uma política de equilíbrio fiscal não é nem de esquerda, nem de direita; nem socialista e nem neoliberal, mas um princípio de bom governo.

Não entendem também que o poder público não tem recursos infinitos dos quais possa lançar mão a qualquer momento e por qualquer motivo. Em seu desentendimento acerca de assuntos econômicos, acreditam que o Estado pode investir ou gastar mesmo quando está com as contas públicas desajustadas, com dívida pública alta e com déficits em suas contas. Não percebem que o aumento de desequilíbrios fiscais leva a crescentes gastos com juros e leva o país a insolvência, à perda de investimentos, de credibilidade e de confiança.

Um país só tem duas formas para crescer: através da elevação dos investimentos e com a melhoria da produtividade. Ocorre que os investimentos recuam quando há uma situação de desequilíbrio fiscal, pois se quebra a confiança dos investidores e produz-se uma escassez de recursos públicos.

O atual ajuste fiscal é decorrência dos gastos excessivos do primeiro mandato de Dilma. Sobrou dinheiro para setores empresariais através de desonerações fiscais e de empréstimos a juros subsidiados. A política para segurar as tarifas de energia e de combustíveis foi totalmente contraproducente: o governo pagava caro e vendia barato, aumentando o rombo das contas públicas. É notável perceber que o PT não reagiu contra as desonerações e subsídios concedidos a grupos econômicos que não geraram empregos. O ministro Joaquim Levy, que nesse aspecto está à esquerda do PT, está arrumando a casa desarrumada no primeiro mandato. O baixo crescimento que está aí não é consequência da política de ajuste, mas da irresponsabilidade do primeiro mandato. 

O que petistas e esquerdistas querem agora? Mais investimentos. Mas com que dinheiro? Menos juros. Mas como combater a inflação que  corrói o salário dos trabalhadores? Mais gastos públicos. Mas como gerar confiança para o retorno de investimentos e do crescimento econômico? Enfim, eles querem colher o fruto sem plantar a árvore. Querem as benesses do poder sem arcar com os custos e as responsabilidades de governar. O que se pode discutir é quem paga o ajuste, mas não a necessidade do ajuste. O PT, ao longo dos 12 anos de governo, além de abdicar de bandeiras históricas, abdicou da luta por uma reforma tributária que distribuísse os encargos sobre quem tem mais, e aliviasse o peso sobre quem tem menos. Não é razoável que aqueles que cavaram a estrada rumo ao inferno, agora peçam o céu sem constrangimento. Trata-se de obstruir essa estrada. 

* Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. 


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