David Fernández/Efe
David Fernández/Efe

O que explica a inação da oposição a Chávez?

Eleitores que não votaram no presidente em outubro se dividem entre os que querem sair às ruas e os que pedem prudência; fragmentação de opositores dificulta articulação

BBC

11 de janeiro de 2013 | 18h48

CARACAS - Enquanto a parcela pró-Chávez da população venezuelana jura fidelidade, sai às ruas e reza pelo mandatário ausente, os cidadãos que se opõem ao presidente esperam, anseiam e veem os acontecimentos pela TV.

Mais de 6,5 milhões de venezuelanos votaram por uma opção distinta a Hugo Chávez nas eleições presidenciais de outubro passado. Isso equivale a 44% dos eleitores de um país que, diante das inesperadas circunstâncias envolvendo o agravamento do estado de saúde do presidente, não conseguiram ainda articular sua própria força.

As redes sociais evidenciam o atual dilema desses opositores: enquanto alguns se queixam da inação e pedem que os críticos de Chávez também saiam às ruas; outros pedem calma, prudência e paciência.

Por um lado, o adiamento da posse de Chávez poderia representar uma oportunidade de mudanças para esses 6,5 milhões de pessoas. Por outro, os males que há anos acometem a oposição venezuelana não melhoram com as atuais circunstâncias, e o panorama parece ser tão incerto quanto os boletins sobre a saúde do mandatário.

Neutralizada

O governo de Chávez foi bem-sucedido em seus esforços para neutralizar a oposição - muitas vezes o mandatário falou em aniquilar as "cúpulas podres" do país. E o desgaste, a divisão e a falta de líderes opositores ajudam a explicar a própria vitória inicial de Chávez, em 1998.

A oposição ficou virtualmente fora da redação da nova Constituição (obteve apenas 6 de 131 assentos), em 1999, a qual tirou os oposicionistas da Corte Suprema, do Conselho Eleitoral e de órgãos importantes.

Mais tarde, a própria oposição se retirou da Assembleia Nacional, quando decidiu boicotar as eleições de 2005 - um erro crucial, do qual os opositores só se recuperaram (parcialmente) no pleito de 2010, quando conseguiram uma unidade precária que lhes garantiu 65 entre 165 assentos.

Complexo de abril

Outras cotas de poder opositor dentro das Forças Armadas e da petrolífera estatal, bem como a influência do setor empresarial, foram desmanteladas após o fracasso do golpe militar de 2002, que tirou Chávez do poder por um breve período.

Agora, não é fácil encontrar um líder capaz de medir forças com Chávez. "Não há (como) imaginar nada sequer similar às manifestações de abril (de 2002)", disse à BBC Mundo o consultor político Ángel Álvarez.

As ações de 2002 e 2003 deixaram entre os opositores mais do que um sabor de derrota - marcaram um ponto de mudança para o chavismo, que tomou um rumo mais radical, sustentado pelo avanço de programas sociais financiados pela bonança do petróleo.

Até o ex-candidato presidencial Henrique Capriles tem que se mover com cuidado quando relembra aqueles anos turbulentos, por sua polêmica atuação - quando era prefeito de um município na grande Caracas - em um protesto antichavista na Embaixada de Cuba na Venezuela, também em 2002. Ele é frequentemente tachado de golpista por conta disso.

O líder mais enérgico e novo que a oposição produziu nos últimos 14 anos foi forçado a optar pela moderação, o que inclui aceitar a permissão indefinida outorgada a Chávez - algo que enfurece os que veem a decisão como uma violação da Constituição. Mas, para Ángel Álvarez, a estratégia é válida. Segundo ele, a oposição na Venezuela diz que o governo" não é nem um regime democrático nem uma ditadura clássica; é algo mesclado". Por isso, os opositores precisariam "ganhar força pouco a pouco".

Cotas de poder

Ao mesmo tempo, Eduardo Semtei, ex-funcionário chavista, agora opositor que colabora com Capriles, afirma que o líder opositor "não assumiu seu papel com a força que deveria". Além disso, não é fácil rivalizar com o carisma de Chávez.

Assim, abre-se o campo para que vários disputem com Capriles uma eventual candidatura presidencial, ainda que ele ainda seja o candidato opositor natural. Mas isso também é sintomático de outro grande problema que impediu a oposição de levantar a cabeça: há partidos sem postulantes, e postulantes sem partidos.

Nas duas categorias há os novos, os velhos, os moderados, os radicais, os divididos, os reagrupados e divididos outra vez. A oposição venezuelana segue sendo uma grande massa disforme de agremiações e pessoas disputando cotas de poder ou mera influência.

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