O que move a economia?

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

João Ricardo Costa Filho*, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 13h07

A análise macroeconômica serve tanto para entender o que ocorre (ou ocorreu) em um determinado país, como também para delinear possíveis cenários. O exercício de antecipação do futuro não é exclusividade dos economistas. É o que todo mundo faz, o tempo todo. Ao atravessar a rua, você pondera sobre a probabilidade de ser ou não atropelado, mesmo que inconscientemente. Quando vota, analisa os desdobramentos se o seu representante assumir o cargo. Quando compra uma casa, suporta a sua decisão em diversas expectativas. Aliás, essa é a palavra que move a economia: expectativas.

Na dinâmica macroeconômica, temos quatro grandes decisões: quanto produzir, quanto trabalhar, quanto poupar e como alocar os recursos. Na primeira, as empresas combinam insumos e utilizam a tecnologia disponível, na tentativa de auferir o maior lucro possível. Na segunda, as pessoas ponderam entre o benefício que terão em trabalhar mais e a perda de lazer. O salário é o balizador dessa decisão. É para podermos consumir, que nós trabalhamos, até o ponto que vale a pena. E por falar em consumir, a terceira decisão é justamente sobre quando realizar o gasto: hoje ou amanhã? Essa escolha impacta a quarta decisão: vamos consumir, investir, importar ou exportar? E será o setor privado ou público?

Todas as decisões estão relacionadas. Além de afetarem umas às outras, tem em comum o fato de que são decorrentes do que se espera para o futuro. Uma empresa que acredita em uma menor demanda lá na frente, não precisa de tantos funcionários, e acaba demitindo parte de sua equipe. Estes, por sua vez, não podem mais sustentar que seus filhos apenas façam uma faculdade, estimulando-os a procurar emprego. O aumento dos que procuram trabalho não é correspondido com aumento de vagas e o desemprego cresce. O trabalhador, quando percebe sinais de que esse cenário se materializa, se prepara para o pior, poupando o que pode. Cai o consumo privado, aumentando a participação do setor público, se nada mais for feito.

As expectativas ditam a dinâmica da economia. E a conjuntura econômica no Brasil é um exemplo disso. Já argumentei nesse espaço que a indústria parou em 2007 e o resto da economia, em 2014. O Brasil parou, perdeu a capacidade de crescer e, por isso, começou a se ajustar. Parte do ajuste vem via política econômica: aumento de juros e gestão de gastos públicos e tributos. Estes dois últimos influenciam diretamente a quarta grande decisão macroeconômica. O governo pegou uma fatia muito grande do bolo nos últimos tempos, sobrando menos para o setor privado. Tem-se que conter isso. Na outra parte temos a taxa de câmbio buscando um valor mais adequado, o aumento de inflação e no mercado de trabalho, o aumento do desemprego.

Ao incorporar essas mudanças nas suas expectativas, entendemos o desânimo de quem analisa a economia brasileira. Dificilmente os investimentos poderiam deslanchar, se eles demandam, dentre outros fatores, que haja retorno, o qual é influenciado diretamente pelas vendas, ou seja, consumo. É claro que existem oportunidades, mas no agregado, as empresas esperam até que o céu não esteja mais tão nublado. Se as empresas não investem, não aumentam a produção. Aliás, é por isso que não conseguimos crescer, porque chegamos no limite. Para disciplinar os gastos, os preços sobem. A inflação retira não só poder de compra, mas também empregos.

Demorou, mas o consumo também parou de crescer. Isso impacta principalmente o setor de serviços, outrora pujante, que agora também arrefece. Se as expectativas movem a economia, podemos entender porque estamos parados. Ou melhor, andando para trás. Esse ano será de contração. O ano que vem também será difícil, porque nem todo ajuste conseguirá ser feito em 2015, embora o PIB talvez cresça em 2016. Para darmos um passo para trás e dois para frente, só o ajuste fiscal não será suficiente. As expectativas tem que mudar, e para isso, a política econômica tem que complementar as medidas duras de curto prazo, com um plano para o país no médio/longo prazo. Até que os agentes estejam convencidos que outros ventos virão, será difícil vislumbrar melhoras no horizonte.

* João Ricardo Costa Filho é associado da Pezco Microanalysis e professor da Faculdade de Economia da FAAP

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