O que pega mesmo é a questão política

Está mais que patente que a proibição do amianto só não aconteceu por falta de decisão política, pois há interesses de se manter essa indústria decadente e que só sobrevive por conta do apoio governamental de incentivo à exportação. O mercado interno só absorve 35% da produção nacional e ainda assim mais por desinformação que opção; haja vista as caixas d"água e tubulações, que ninguém mais quer de cimento-amianto. Os tradicionais produtores de fibrocimento já oferecem essas caixas e tubulações feitas de plástico, que substituem com muita eficiência o mineral cancerígeno. É uma gama de produtos que cabem no gosto e no bolso do consumidor.

Fernanda Giannasi, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Com as telhas ocorre o mesmo. É falacioso o discurso de que o pobre vai ficar sem teto se o amianto for banido. A cobertura representa menos de 15% do custo final da obra, se contarmos apenas a edificação. Os postos de trabalho ameaçados pelo banimento são outro artifício empregado pelos defensores do amianto. Os números são fantásticos; chegam a falar em até 200 mil empregos gerados pela indústria do amianto. Mentira deslavada. São apenas 3 mil postos de trabalho gerados pelo setor, sendo que menos de 600 correm real risco de extinção, que são os trabalhadores da mineração do amianto.

Então quem é que ganha com a manutenção de uma tecnologia condenada em todo mundo? São políticos, sindicalistas, acadêmicos, entre outros, que se beneficiam diretamente de um setor agonizante, que paga uma fortuna para manter uma bancada de parlamentares para barrar qualquer avanço social ou mesmo promover o retrocesso no caso de leis aprovadas.

No vale-tudo dos lobistas do amianto, comparados em eficiência à indústria do tabaco, ameaças, processos e todo tipo de intimidação são usados para calarem os defensores do banimento. Subestimam nossa inteligência, garantindo que tudo será diferente e que não haverá mais nenhum doente, mesmo sabendo que as doenças do amianto podem levar até 50 anos para se manifestar. Eis a pergunta que não quer calar: o que dirão os candidatos à presidência da República e outros cargos eletivos sobre suas atuações em relação à catástrofe sanitária que presenciamos?

É PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EXPOSTOS AO AMIANTO (ABREA)

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