O radar das seringas voadoras

Cientistas conseguiram decifrar o olfato dos insetos, o que pode ajudar a combater doenças transmissíveis

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2010 | 00h00

Todos os dias, milhões de seringas voadoras decolam à procura de sangue humano. Guiadas por um radar poderoso chamado olfato, localizam suas vítimas, pobres humanos indefesos. Pousam, inserem a agulha, injetam saliva anticoagulante e se refestelam chupando nosso sangue. São os insetos hematófagos, como os pernilongos, borrachudos e similares.

Infelizmente, eles não foram educados na prática de trocar a agulha entre ataques. O resultado dessa falta de higiene é que, ao transplantar minúsculas quantidades de sangue de uma pessoa para outra, transmitem vírus e parasitas, disseminando doenças como a dengue e a malária.

Provavelmente, a seringa voadora mais prejudicial ao ser humano é o Anopheles gambiae, responsável pela transmissão da malária na África subsaariana. Mais de 100 milhões de pessoas contraem malária todos os anos. As mortes ultrapassam 1 milhão por ano.

Na falta de uma vacina contra a malária, e com os parasitas cada vez mais resistentes às drogas, uma solução é evitar que os mosquitos piquem as pessoas. Vem daí o uso de inseticidas, redes e repelentes de insetos. Mas a evolução darwiniana é sábia e o Anopheles tem um olfato sofisticado, bastante difícil de enganar. A novidade é que o funcionamento do olfato das seringas voadoras foi decifrado.

O olfato funciona como se fosse um sistema de chave e fechadura. A chave é uma molécula volátil, que, secretada pelo nosso corpo, se espalha pelo ar. A fechadura é um receptor localizado na membrana dos neurônios da antena da mosca. Quando a chave encaixa na fechadura, o neurônio dispara sinais que são interpretados como "humano na proximidade".

À medida que a mosca voa em direção ao alvo, a quantidade de chaves presentes no ar aumenta (o cheiro fica mais forte) e a seringa usa essa informação para se aproximar de nossa pele. Se o sistema usado pelo Anopheles consistisse somente em uma chave (composto volátil) e uma única fechadura (receptor), seria relativamente fácil enganar a seringa voadora impedindo que ela localize o alvo.

Mas o sequenciamento do genoma do Anopheles demonstrou que ele utiliza 79 fechaduras, cada uma capaz de detectar uma ou mais chaves. E, para piorar a vida dos cientistas, sabemos que nosso corpo produz mais de 110 chaves distintas, moléculas voláteis que podem potencialmente servir de chaves e ativar as fechaduras.

Combinações. Mas agora um grupo de pesquisadores conseguiu descobrir quais chaves servem em cada uma das fechaduras. O resultado é uma tabela simples, listando as moléculas (chaves) que ativam cada um dos receptores (fechaduras). Para construir essa tabela, os cientistas fizeram um experimento engenhoso e elegante.

O truque consiste em produzir uma Drosophila mutante (a mosca que vive nas bananas) incapaz de sentir qualquer cheiro. Essa mosca, que só sobrevive em laboratório, perdeu a capacidade de cheirar porque todos os genes dos receptores (suas fechaduras) foram removidos de seu genoma. Em seguida os cientistas isolaram os genes de cada uma das fechaduras (receptores) do Anopheles e inseriram na Drosophila mutante.

O resultado é uma coleção contendo 79 Drosophilas transgênicas, cada uma funcionando com uma única fechadura. O passo seguinte foi submeter cada uma dessas linhagens contendo um único tipo de receptor (fechadura) a cada uma das cem moléculas (chaves) secretadas pela pele humana. Analisando as 8.690 combinações de 79 tipos de moscas com 110 compostos químicos, foi possível descobrir qual das 110 chaves serve em cada uma das 79 fechaduras.

O interessante é que existem diversos tipos de fechaduras e de chaves. Alguns receptores se ligam a diversas moléculas (várias chaves abrem a mesma fechadura), outros receptores são específicos e respondem a somente uma molécula (só uma chave abre a fechadura), e finalmente a mesma molécula ativa diversos receptores (uma chave abre diversas fechaduras).

Conhecidos os pares de chaves e fechaduras utilizados pelas seringas voadoras para localizar seu alvo, talvez seja possível descobrir novos métodos capazes de despistar os milhões de insetos que decolam todos os dias em busca de nosso sangue.

BIÓLOGO FERNANDO@REINACH.COM

Mais Informações: Odorant Reception In The Malaria Mosquito Anopheles Gambiae. Nature, VOL. 464, PÁG. 66. 2010

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