O raio fulminante

Primárias desta terça-feira são tudo ou nada para Hillary Clinton.

Lucas Mendes, BBC

04 de março de 2008 | 08h35

Nenhum outro político americano despertou paixões e conquistou jovens como Barack Obama. Num país onde um terço do eleitorado abaixo de trinta tem ignorado as urnas, o senador vem atraindo milhões deles e em várias primarias bateu Hillary Clinton numa proporção de até 3 por 1 entre os jovens. A surpreendente vitória de Iowa, que mudou o rumo desta eleição, foi graças ao voto jovem. Eles são 35 milhões. O discurso é parte da sedução, mas as principais armas de Obama são organização e o contato direto. Em Iowa, por exemplo, ele levava lideres estudantis para os bastidores antes ou depois dos comícios e pedia a ajuda deles. Políticos tradicionais em geral reservam estes momentos para outros políticos e celebridades.Obama tinha a verba e o verbo para convencê-los a contatar outros estudantes pessoalmente, por computador ou por telefone e multiplicar as conexões. Hoje, esta malha obamista está montada no país inteiro, em alguns Estados melhor do que noutros, e disposta a trabalhar para ele se for eleito presidente.Os republicanos foram pioneiros neste esquema de conexões em 2000, quando conquistaram o voto jovem e a vitória de George Bush.Em 2004, os democratas e organizações independentes registraram milhões de jovens candidatos, inclusive em Ohio, mas John Kerry não tinha a inspiração, e o terror estava a favor de George Bush. Este ano, o movimento SAVE ( Students Association For Vote Empowerment), nos informa que o voto jovem quadruplicou no Tennessee, triplicou na Geórgia, Oklahoma e Missouri, e duplicou em Massachusetts. Obama e Michele fizeram vários comícios nas universidades de Ohio. Em Columbus, com 50 mil alunos e 20 mil empregados, a universidade pode fazer a diferença numa eleição apertada.Aqui, Hillary tentou armar um esquema semelhante ao de Obama, mas Pete Steele, vice-presidente da União dos Estudantes, acha que o senador deve levar o voto jovem.Não o dele. Pete desconfia da experiência e do discurso de Obama, e a União Estudantil não tomou posição a favor de nenhum dos dois candidatos, uma neutralidade que pode diminuir o prejuízo de Hillary na contagem final. O que preocupa ops jovens?O que preocupa os jovens americanos? Pelas pesquisas, o custo do seguro de saúde, a guerra do Iraque e um bom emprego lideram a lista e, nestas três questões, as diferenças entre os dois candidatos são mínimas. Obama leva a vantagem de ter sido contra a guerra antes de Hillary Clinton, mas, em saúde e empregos, a senadora é tão ou mais confiável do que ele - mesmo representando o passado e as brigas.Ele conseguiu vender a mensagem da mudança, mas um memorando sobre o NAFTA deu munição a Hillary, que, desde segunda-feira, acusa Obama de ser um político como os outros e de mentir sobre o acordo comercial que é considerado um palavrão em Ohio.Um assessor de Obama teria dito ao cônsul do Canadá em Chicago que as críticas do senador ao NAFTA são apenas retórica de campanha. Ela passou o dia batendo e ele explicando que não foi bem assim, como um político comum e não um acima da canalhice de Washington.Numa eleição apertada, com 8% de indecisos, ela tem boas chances em Ohio, porque entre os eleitores que decidem na última hora, a maioria tem votado em Hillary.A demografia do Estado favorece a senadora. Maioria branca, alta percentagem de velhos, grande população de classe média baixa sofrendo as conseqüências da fuga ou fechamento de fábricas e siderúrgicas em que um empregado ganhava US$ 18 por hora.250 mil destes empregos desapareceram nos últimos oito anos, eliminados pelo computador e tecnologia ou fugiram para o México e para a Ásia onde pagam aos empregados US$ 100 dólares ou menos por semana.Para complicar o cenário, há uma tempestade de gelo a caminho do sul do Estado jogando mais de cem raios por hora. Ohio já tem problemas com as novas máquinas eleitorais e a tempestade pode não só atrasar os resultados como provocar processos. Obama conseguiu assumir a liderança no Texas, mas para o golpe definitivo, um raio fulminante em Hillary, ele precisa dos jovens de Ohio.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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