O rei galanteador que adorava crêpes

No longo período em que foi príncipe de Gales, pois tinha quase 60 anos quando subiu ao trono, e mesmo depois de coroado rei da Grã-Bretanha, Irlanda e imperador da Índia, Eduardo VII (1841-1910) divertiu-se à vontade. Da juventude à maturidade, passou temporadas na França, país que admirava, sobretudo em Paris, frequentando restaurantes, teatros, hipódromos e consolidando a fama de playboy desaprovada pela mãe, a severa rainha Vitória I. Bastante popular no seu país e exterior, ainda se notabilizou pelo mecenato e paixão pelas viagens. Tornou-se um dos personagens da Belle Époque, o período de glamour e deslumbramento vivido pela Europa entre o final do século 19 e o início da 1ª Guerra Mundial, com epicentro na capital francesa. Na vida amorosa, conquistou mulheres de todos os tipos: da norte-americana Jennie Jerome, mãe do futuro primeiro-ministro Winston Churchill, à atriz dramática parisiense Sarah Bernhardt, estrela de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho; da britânica Alice Keppel, bisavó de Camilla Parker Bowles, segunda mulher do príncipe Charles, atual príncipe de Gales e herdeiro do trono britânico, à cortesã espanhola La Belle Otéro, que ele encontrava no Maxim’s, um dos restaurantes grã-finos de Paris, concorrido ponto de paquera. Também gostava de ir aos cafés Hardy, Paillard e Voisin. Veja também: Receita de crêpes suzette Dedicou-se tanto à boa mesa que sua barriga dilatou e, ao procurar torná-la menos desconfortável depois das comilanças, ditou moda. Todo o homem que conhece os preceitos do bem vestir usa sempre desabotoado o último dos três botões do paletó. Eduardo VII começou a fazer isso após os banquetes, desapertando a pança. Gordos e magros até hoje o imitam - e sem o mesmo motivo. Alguns pratos da cozinha da Belle Époque aludem ao príncipe e rei comilão. A enciclopédia Larousse Gastronomique (Larousse-Bordas, Paris, 1996) dedica-lhe um verbete. Fala no turbot (rodovalho) à príncipe de Gales, na barbue (peixe da família do linguado), no frango e nos ovos à Eduardo VII. O simpático soberano só não batizou a receita mais famosa que lhe ofereceram: as crêpes suzette. A panqueca amanteigada, doce, perfumada com suco de laranja ou tangerina, licores Cointreau e Grand Marnier, às vezes Curaçao, e flambada com conhaque diante do cliente do restaurante, teria surgido por acaso. O chef francês Henri Charpentier (1880-1961), que mudou para os Estados Unidos, no posto de cozinheiro do magnata do petróleo John Rockefeller, assegurou na autobiografia Life à la Henri (Simon & Schuster, Inc., Nova York, 1934) ser o inventor. Em janeiro de 1896, estaria preparando a sobremesa em um réchaud, no Le Café de Paris, em Monte Carlo, atendendo ao pedido do então príncipe de Gales - e o molho pegou fogo acidentalmente. Sem perder a compostura, teria dobrado duas vezes as crêpes e as servido assim ao cliente, que aprovou o resultado. "Como se chama o que me deu?", indagou o príncipe de Gales. "Foi um doce inventado agora", respondeu Charpentier. "Eu o denominaria crêpes princesa." Então, o futuro rei, apontando galantemente para sua acompanhante da noite, uma bela jovem vendedora de violetas, haveria completado: "Não, senhor, terão o nome dela, Suzette." A Larousse Gastronômica já duvidou da versão porque, na época, Charpentier contava apenas 15 ou 16 anos e não tinha idade, nem experiência, para servir um cliente tão ilustre. Entretanto, as últimas edições da enciclopédia deixaram de registrar a dúvida. Auguste Escoffier, o chef que sistematizou a cozinha francesa, na obra-prima Le Guide Culinaire, de 1903, menciona a receita, porém não faz menção à autoria. O escritor e jornalista parisiense León Daudet, no livro Paris Vécu, de 1929, onde evoca a vida na capital francesa através dos restaurantes e cozinheiros, afirma que as crêpes suzette eram especialidade do Restaurant Marie, de Paris, no final do século 19. As principais diferenças seriam levar presunto e curtir ligeiramente no brandy. O fato é que Eduardo VII adorava crêpes, até porque apreciava as sobremesas. Galanteou algumas mulheres oferecendo, além de sedução, doces. Dividiu a predileção com algumas delas, inclusive com Alice Keppel, a bisavó de Camilla Parker Bowels, sua mais duradoura relação amorosa e uma das poucas pessoas da intimidade capaz de controlar suas alterações de humor - a rainha consorte Alexandra da Dinamarca sabia dos casos extraconjugais do marido e, para manter a estrutura ou paz familiar, resignou-se a tolerá-los. No leito de morte, ele solicitou a presença da amante, por meio de um bilhete. Alexandra da Dinamarca deixou que o encontro acontecesse. Além de namorador incontrolável, Eduardo VII foi um grande garfo.

Dias Lopes,

04 Junho 2009 | 09h31

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