O reinado libertário das chacretes

Alô, Alô, Terezinha! recupera o auge da carreira das dançarinas do Chacrinha

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Rita Cadillac não acredita no lado sombrio do Velho Guerreiro - Chacrinha como chefão de um esquema do jabaculê (leia abaixo). "Posso estar errada, mas, para mim, quem comandava era o filho. Se o Chacrinha sabia ou não, desconheço, mas acho que, se ele segurava, era por causa do filho. Sou mãe, sei como são essas coisas." Rita Cadillac conversa com o repórter do Estado no QG da 33ª Mostra, num hotel dos Jardins. Ela estava pronta para a primeira exibição em São Paulo, nos minutos seguintes, de Alô, Alô, Terezinha!. O documentário de Nelson Hoineff venceu o Festival do Recife. Não foi uma vitória tranquila. Virou questão de honra para parte da crítica detestar Alô, Alô, Terezinha!. As feministas abominam o filme. Dizem que não é sobre Chacrinha, mas sobre as chacretes. Como a maioria dessas artistas se deu mal na vida, o filme seria, ou é, uma exploração grosseira da vulgaridade e da grosseria.

Hoineff retruca que é sobre um tripé - as chacretes, os calouros e os artistas que Chacrinha avalizava. Esses três elementos compõem um universo. A vulgaridade se faz presente, sim. Chacrinha era vulgar. Atirar bacalhau na plateia não é exatamente comportamento de gente fina. Mas Chacrinha era um provocador e a vulgaridade que ele retratava na TV era a do povo brasileiro. Em plena ditadura, era preciso ousadia para jogar aquele Brasil na cara das pessoas (e dos militares). Rita Cadillac permanece no imaginário do público masculino como "a" chacrete. Chacrinha foi como um pai para ela. Como todo pai, era autoritário, repressor e as "filhas" - as chacretes - queriam se emancipar. Rita abandonou o programa de Chacrinha há 26 anos para fazer seus shows pelo Brasil. Ela repete até hoje o mesmo show, em que simula fazer strip tease. No cinema, tirou a roupa e até fez sexo explícito, na série Brasileirinhas.

"Gravei 20 cenas em 2004, que eles podem usar do jeito que quiserem. Até hoje lançam novos filmes e as pessoas pensam que continuo fazendo pornô. Qualquer dia faço tatuagem para que possam confirmar que não." Ela não se arrepende do que fez. O pornô lhe garantiu a independência financeira. E, depois, o fato de ter sido p... no cinema, não faz dela uma rameira. Toni Venturi não exagerou ao chamar de A Lady do Povo seu documentário sobre ela. Em Paraty, na exibição de Alô, Alô, Terezinha!, as famílias vinham tirar fotos com Rita. Os pais arriscavam uma olhadinha para o material, mas as mães não viam perigo nenhum em deixar as filhas virgens com a "perdida" Rita.

As curvas, e o bumbum, continuam intactos. "Quando entrei no programa, queria ser a melhor." Suas ferramentas foram o dedinho e a bunda. Outras chacretes não se mantêm tão bem. Fátima virou chapeira de lanchonete. "A Fafá era a mais linda de todas, mas não foi previdente." No filme, um fã descobre que a mulher na chapa da lanchonete foi sua fantasia de adolescente. "Até hoje encontro homens que dizem que desenvolveram calos na mão por minha causa", diz Rita. A cena do fã com Fafá não foi armada, jura o diretor. Rita acha a homenagem "linda". O homem em nenhum momento ridiculariza a decadência do seu objeto de desejo. ("A Fafá está ótima", avalia Rita.) A emoção do fã é de estar junto dela. "O dia em que sair na rua e o operário da construção não me chamar de gostosa, me tranco em casa", jura Rita.

Ela diz que é boa de cozinha. O repórter provoca - e de cama? "Sou como a Coca-Cola, faço pressão." Algum prato especial? "Faço uma rabada di-vi-na." Ninguém duvida disso. Nelson Hoineff segue a entrevista de longe. De vez em quando, manifesta-se. Alô, Alô, Terezinha! foi feito quase simultaneamente com Caro Francis, outro documentário, sobre Paulo Francis. Ambos os personagens o atraíram como transgressores. Ambos usaram a TV, Chacrinha como artista popular, Paulo Francis como intelectual que refletia o Brasil. Terezinha é chamado de vulgar, Caro Francis de chapa branca. "Essa gente não sabe nada. Pensam que são inteligentes, mas são burros de dar dó", alfineta o diretor.

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