O retrato da América dos deserdados

Sai o livro de James Agee com fotos de Walker Evans dos anos da Depressão

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

Concebida como uma trilogia, a saga de três famílias de colonos norte-americanos durante a Grande Depressão acabou reduzida a um único volume que, 68 anos após seu lançamento nos EUA, chega hoje à livrarias brasileiras, Elogiemos os Homens Ilustres (Companhia das Letras, tradução de Caetano Waldrigues Galindo, 456 págs., R$ 62), de James Rufus Agee (1909-1955), precedido de um debate no Masp (veja ficha técnica abaixo). Participam da conversa Matinas Suzuki Jr., coordenador da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, o fotógrafo João Musa e o crítico literário Samuel Titan Jr. No mesmo Masp estão expostas as fotos de Walker Evans (1903-1975), parceiro de Agee nesse projeto que documentou o cotidiano de meeiros pobres do Alabama, em 1936, a serviço do New Deal, programa desenvolvido durante o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt para ajudar os menos favorecidos e recuperar a economia americana, abalada com a quebra da Bolsa em 1929.

O título da obra de Agee e Evans, Elogiemos os Homens Ilustres, inspirado numa passagem do livro bíblico Eclesiastes, evoca a lembrança de homens que ganharam nome por seus feitos e exerceram autoridade real na comunidade em que viveram. Não é por ironia que Agee cita a passagem do livro sapencial, mas por acreditar que essas três famílias de despossuídos, apresentadas com nomes trocados em seu livro, seriam lembradas no futuro por terem enfrentado a pior crise da história americana. São elas a família Woods (pseudônimo do clã Tengles), que vivia com U$ 150 por ano durante a Depressão, os Gudgers (ou Burroughs), que ganhavam ainda menos, e os Ricketts (Fields, na vida real), que chegaram a ter dez vacas e as perderam para pagar dívidas e custear as doenças e os enterros da família.

O relato da convivência de James Agee e Walker Evans com essas três famílias, durante oito semanas do verão de 1936, extrapola os limites do jornalismo convencional. Agee sentia falta de poesia e alucinação nas páginas dos jornais. Considerava os jornalistas da época convencionais, reféns de clichês e incapazes de incorporar os ensinamentos da literatura em seus textos. Agee, que foi para o Alabama como repórter da Fortune, não conseguiu convencer os editores da revista com seus argumentos. Amargou a recusa de sua reportagem e, ao tentar publicá-la em livro, em 1939, não teve melhor sorte, cedendo, finalmente, aos editores em 1941, ao aceitar o corte de alguns palavrões. Vendeu apenas 600 exemplares.

O livro, apesar disso, foi ganhando leitores desde a segunda edição americana, em 1961, tornando-se um clássico do jornalismo literário. A edição brasileira conserva as mesmas características do original americano. Abre com uma sequência de 62 fotos de Walker Evans, retratando as famílias de colonos e o meio em que viveram. Detalhe: não trazem legendas. Evans acreditava que suas imagens dispensavam maiores explicações, justificando a edição das fotos separadas do texto de Agee e a ausência de identificação - os rostos marcados dos colonos representavam, afinal, o de todos os deserdados da América, especialmente do sul dos EUA.

Evans chama a atenção, no prefácio, para a cristandade de Agee - ainda que fosse o "resíduo deteriorado" de um sentimento piedoso pelos humilhados e ofendidos. Muitas das passagens cortadas por Agee, segundo ele, eram hilárias, mas não cabiam no ambicioso projeto do jornalista, disposto a criar algo épico, capaz de rivalizar com Pastagens do Céu (1932), de Steinbeck, um dos possíveis modelos do repórter, que depois viria a se tornar um influente crítico e roteirista de cinema (é dele o roteiro de Uma Aventura na África, de John Huston, e O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton).

Elogiemos os Homens Ilustres antecipa algumas das suas soluções cinematográficas, como os cortes abruptos num livro híbrido que mistura ensaio sociológico com estudo antropológico e prosa poética, ao descrever minuciosamente o ambiente das casas dos colonos Alabama, os odores rançosos em seus cômodos e a relação panteísta dos agricultores com o mundo que os cerca. Em certos momentos, Agee confronta o leitor e o força a seguir um roteiro crítico em que sobram adjetivos pouco confortáveis para ele e o parceiro Evans. Para o leitor, porque está diante de famílias que inspiram pena e posavam cheias de fúria. Para Evans, porque obrigou essas pessoas a se expor diante de uma câmera fria, incapaz de absorver o longo e interminável drama da miséria.

Serviço

Elogiemos os Homens Ilustres - Hoje, 18 h, debate sobre o livro de James Agee no Masp. Av. Paulista, 1.578. Grátis

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