O rock viril e democrático do AC/DC

Erotismo e força primal levantam 70 mil fãs do grupo australiano no Morumbi

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

Skinheads, patricinhas, caixas de banco, office-boys, executivos, empresários. O mistério do AC/DC com seu rock básico é precisamente esse: o de fazer uma música ecumênica, que leva ao desabamento de hierarquias, barreiras de classe, ideologia, convicção pessoal, vaidade. Bacana e guardador de carros exibem a mesma camiseta preta surrada, o mesmo braço erguido o tempo todo, todo mundo berrando junto Hell"s Bells a plenos pulmões, uma utopia social forjada a hard rock e milhares de chifres diabólicos.

Foi assim na sexta, único show da turnê Black Ice, do AC/DC no Brasil, 13 anos depois de sua última passagem pelo País. Como é que um guitarrista de 1m58 de altura pode colocar tanta gente, 70 mil pessoas, na palma da mão? Em geral, solos de guitarra de mais de 3 minutos provocam um efeito de dispersão e impõem retiradas estratégicas, mas ninguém saiu do Morumbi antes dos últimos fogos de artifício.

A questão é: Angus Young não é um guitarrista de invenção, como Jimmy Page ou Pete Townshend, mas ele tem fogo nos dedos, sabe como tocar o espírito do rock. São caras de origem operária que, quando garotos, queriam ser Chuck Berry, que sonharam traduzir em sua guitarra e seu corpo aquele balanço inominável do blues ancestral. Não é por acaso que diversas músicas contêm alusões sexuais, que uma mulher inflável inflame o palco, e que o show abra com um filmete de animação no qual garotas em trajes sexy pareçam materializar os delírios orais de "testosterônicos" parceiros.

Essas ondulações eróticas das guitarras dos irmãos Young (Angus e Malcolm) misturadas ao peso e ao ataque vocal de Brian Johnson tornaram clássicos atemporais músicas como The Jack, que por sua vez se tornaram uma marca indelével do rock de nossa época. O rock do AC/DC é tão antigo, fundamental e tão bom quanto o sexo. Sim, é rock de macho, de mão única, mas trata o sexo com naturalidade, e as garotas da plateia, nos ombros dos namorados, parecem reconhecer a sinceridade primária dos protagonistas da noite.

O barulhão bom do grupo australiano conseguiu fazer até a chuva parar. No fim da tarde, ela lavou o Morumbi, lambeu as rampas do estádio e acumulou poças por todo lado. Mas foi só o grupo entrar em campo que cessou, e ficou tudo seco até o fim - só os fãs é que molharam a garganta desmesuradamente. A cerveja "ice" aproveitou a deixa do nome da turnê para vender, e vendeu alucinadamente.

O roteiro interpretado pelo AC/DC é religiosamente igual ao que a banda tem seguido pelo resto do mundo, abrindo com Rock"n"Roll Train e fechando com For Those About to Rock (1981). Tocam cinco músicas do seu disco novo, Black Ice, que não é unanimidade nem entre seus fãs, mas nem por isso o show perde o pique - claro que Brian Johnson (sempre com seu visual de caminhoneiro errante) e Angus Young, os únicos que se movimentam pelo palco, sabem como conduzir o negócio, correndo como doidos, subindo em plataformas, em sinos, interagindo com a multidão. Angus, ou Schoolboy, atua como o MC do Purgatório, castigando a guitarra e a si mesmo, como quando faz um solo de guitarra deitado no chão, girando em torno de si mesmo como um maluco com camisa de força.

Engraçado (e esclarecedor) o discurso de Steve Tyler, do Aerosmith, quando o grupo australiano foi entronizado no Hall da Fama do Rock. "AC/DC virou um tipo de teste dos efeitos do rock. Eles fazem você erguer seus punhos cerrados no ar e cantar junto com eles? Eles assustam seus pais e deixam seus vizinhos irados? Fazem você dançar até doer os pés, e mesmo assim você não se importa? Eles te fazem levantar e gritar por algo que ainda nem sabe o que é? Eles fazem você queimar os tênis e fazer uma sopa quente com a calça da namorada? Se não provocar nada disso, não é o AC/DC".

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