O rude e a requintada

A natureza não concedeu excepcional beleza à princesa austríaca Maria Luísa d’Asburgo-Lorena (1791-1847), a segunda mulher de Napoleão Bonaparte, imperatriz da França de 1810 a 1814 e irmã de Maria Leopoldina, casada com Pedro I do Brasil. Mas ela compensava essa falta com a serenidade, a cultura e o refinamento. Portanto, era diferente do marido, homem temperamental e ríspido, apesar de extraordinário general, estrategista e estadista, a quem ela nunca amou e se uniu por conveniência política. À mesa, enquanto Napoleão levava doze minutos para comer, no caso de haver convidados, e uns oito se estivesse só, trocando o garfo pelas mãos, Maria Luísa se comportava serenamente, preferindo usar os talheres. As diferenças entre ambos eram enormes. Se o maior cabo de guerra de todos os tempos nasceu pobre e teve como principal escola o quartel, onde fez carreira meteórica, pois se tornou general aos 25 anos e dono da França aos 30, sua segunda mulher nasceu em berço de ouro e teve educação refinada na corte do pai. Falava francês e italiano com a fluência do alemão natal; conhecia arte culinária, bordado, pintura; tocava cravo e herdara da mãe Maria Teresa, filha do rei Fernando I das Duas Sicílias, a bela voz e o talento de bailarina. Maria Luísa cultuava a boa mesa que Napoleão aparentava desprezar. Nas funções de general ou imperador, ele trabalhava horas seguidas ingerindo apenas café, esquecendo-se de fazer as refeições. Carson Ritchie, no livro Comida e Civilização (Assírio & Alvim, Lisboa, 1995), conta que, nessas horas, gritava ao fiel criado Constant: "Quero jantar agora mesmo!" Para respeitar a ordem do poderoso patrão, o cozinheiro (foram onze empregados em dez anos, pois nenhum aguentava o ritmo e a baixa remuneração) se virava como podia. Um deles decidiu assar frangos sem parar. Colocava o primeiro no forno a tempo de estar pronto no horário em que o general ou imperador pudesse chamar Constant. "Ao cabo de vinte minutos punha outro, logo um terceiro e assim sucessivamente, até que Napoleão, finalmente, pedisse o jantar", conta Ritchie. Nesse momento, servia-lhe o último frango. Apesar de tudo, a comida precisava ser feita na hora. Napoleão gostava de pratos simples e vigorosos. Nos desjejuns, atracava-se com ovos fritos na manteiga, queijos curados e azeitonas temperadas; nos incertos almoços ou jantares, devorava chouriço com lentilhas, crépinettes (carne embutida na membrana abdominal do porco), frangos assados ou cozidos e ragu de carneiro com massa. O casamento foi decepcionante para ambos. Além de tudo, o marido vivia atrás de rabos-de-saia. "A mulher é a poesia de Deus; o homem, a simples prosa", filosofava. Guy Bretton, em Napoleão e as Mulheres (Gráfica Redord Editora, Rio de Janeiro, 1969), assinala que elas viraram sua fixação. Sozinho, teria colecionado mais amantes que Luís XV. Maria Luísa não deixou por menos. Abandonou a França e evitou acompanhá-lo no exílio, após a definitiva saída de cena de Napoleão, em 1815, ao ser derrotado pelos ingleses na batalha de Waterloo. Não estava ao lado do marido quando ele morreu na distante ilha de Santa Helena. Havia recebido o ducado de Parma, Piacenza e Guastalla, na atual Itália, quando o Congresso de Viena redesenhou a Europa pós-napoleônica. Tornara-se amante do conde austríaco Adam Adalbert von Neipperg, com quem depois se uniu oficialmente. Enviuvando dele, casou, pela terceira vez, com seu mordomo Charles-René, conde de Bombelles. As preferências gastronômicas de Maria Luísa figuram nos textos do chef Vincenzo Agnoletti, que comandou sua cozinha entre 1815-47 e escreveu o clássico Nuova Cucina Economica. Ela adorava carnes, massas, inclusive gnocchi de castanhas, sorbetti (gelados à base de xarope e suco ou polpa de fruta, vinho ou destilado) e os chocolates que mandava vir de Paris e pareciam ser as derradeiras saudades da França.

Dias Lopes,

18 Junho 2009 | 10h37

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